A aventura cinematográfica que procuravam?

O The Order: 1886 talvez tenha sido um dos jogos mais dificeis para analisar até hoje. Pessoalmente queria venerar o jogo, a utilização da mitologia do Rei Artur e da Távola Redonda, transportada para a Era Vitoriana e num ambiente “steampunk” é algo que ainda não tinha sido explorado, e para mim, desde o início tinha a narrativa para ser um dos jogos mais marcantes desta geração e nomeadamente da PlayStation 4. No entanto e desde as oportunidades que tivemos para experimentar dois trechos do jogo uma na Lisboa Games Week e outra em formato preview disponibilizado pela PlayStation Portugal, que algo me intrigava, a jogabilidade.

Um jogo na terceira pessoa, remonta-nos para um Uncharted, um Last of Us ou Tomb Raider, no entanto sem a mesma “liberdade”. Nesse campo será mais parecido com um Beyond, até mesmo nos Quick Time Events (QTE). E tal como Beyond, toda a importância recai sobre a narrativa, pois a componente de combate e de third person shooter é nos dada como um bombom para saborearmos na medida certa.

Por essa razão, pela enorme quantidade de cutscenes e pelo facto de o jogo nos dar mão para nos guiar ao logo de todos os eventos, muito dos jogadores poderão achar The Order, um jogo demasiado fechado, ou demasiado curto. De facto as 6 a 8 horas de conclusão parecem parcas, mas porquê?! Por todos estes factores enunciados, ou porque enquanto jogadores queremos algo mais expansivo? De facto categorizar este jogo é algo díficil, ou até demasiado fácil. No fundo estamos a jogar um filme com uma qualidade cinematográfica incrível, com um pormenor nunca visto e com gráficos que nos assombram, mas quando o “filme” acaba o que nos sobra? É esse o problema de The Order, e devo dizer que praticamente o único que existe na criação da Ready At Dawn. Talvez se a sua longevidade fosse o triplo ninguém se queixaria, ninguém falaria sequer nesse problema, ou será que o problema da longevidade apenas é referido vezes e vezes sem conta, porque tudo o resto é tão bom que nos sabe a pouco?

Estas são as questões que os jogadores terão que colocar na sua compra, a nossa resposta, pessoal e também ela emocional, é que nos soube a pouco. E tal aconteceu porque realmente ficámos assoberbados com a qualidade gráfica que o jogo atinge.

Nas primeiras duas horas que podem acompanhar aqui, retiramos o seu início para não criar nenhum spoiler, mas podemos dizer que 5/10 minutos a atenção é captada, queremos saber a razão de tudo, queremos chegar ao fim da questão, queremos chegar ao fim do jogo. E com essa ânsia, rapidamente perdemos a noção do tempo, perdemos a noção de quantos momentos apenas andámos a percorrer corredores ou áreas e a acompanhar diálogos, tudo porque quando chegamos aos momentos de combate sentimos a satisfação da utilização das armas criadas por Nicolas Tesla, sentimos que estamos dentro de um filme com a acção no nosso comando.

O que nos faz perder a noção do tempo, é o pormenor que cada estrutura, cada ambiente, cada arma, cada vestimenta tem. Graficamente é quase indescrítivel a sua qualidade, para além do enorme bom gosto. Mas o pormenor também foi trabalhado a nível histórico e de argumento, a presença de Darwin na Ordem, o facto de Nicolas Tesla ser o nosso “Q“, a própria recriação da Távola Redonda, prende-nos a atenção e alimenta-nos durante todo o jogo, alimenta-nos de uma forma diferente do que estamos habituados, e talvez por isso, seja difícil alimentar toda a comunidade.

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Para contextualizar um pouco o jogo, dizer ainda que, como já perceberam, assumimos o papel de Sir Galahad, um dos cavaleiros que pertence à Ordem, que nasce dos princípios da Távola Redonda e do Rei Artur. A nossa missão será proteger o Reino de Sua Majestade, não só dos Rebeldes, mas também dos Lycans, os híbridos, uma espécie de Lobisomens. Não vou desvendar muito mais da trama, porque será ela vos vai dar “gás”, mas posso dizer que nada é o que parece.

Se já falámos da questão gráfica, que apesar dos seus 30 fps e das barras “cinematográficas”, continua a ser esplendorosa, uma palavra para as mecânicas. No combate, todos aqueles que já jogaram outros third person shooters vão sentir-se em casa, por vezes o “cover” é mais díficil do que seria desejável e algo preso, mas desde as previews que melhorou bastante. No modo Stealth também as mecânicas foram melhoradas, são mais fluídas, apesar de por vezes repetitivas as acções QTE. Quando andamos, seja em zonas interiores ou exteriores, a falta de múltiplas opções, por vezes até nenhumas de interacção seja com outras personagens ou o que se passa à nossa volta é decepcionante. Se por vezes podemos escutar diálogos interessantes entre personagens, muitas vezes nada mais do que isso é possível, e mais um vez “castrador”. No entanto a utilização das invenções de Tesla, seja para abrir portas ou fazer um curto circuito a um gerador, dá o sal e a pimenta a vários momentos em que estamos apenas a percorrer áreas, aliás até deveriam ter sido usadas bastantes mais vezes.

Já na recta final, uma palavra para a dobragem, a cargo de Pedro Lima, Virgílio Castelo, Cláudia Vieira ou Liliana Santos, entre outros, que apesar da interpretação não ser perfeita, nomeadamente nas personagens femininas, a sincronização labial e a própria tradução estão impecáveis, talvez até um dos melhores trabalhos nesse capítulo. Mas se querem uma razão para jogar novamente, talvez passar depois para a língua inglesa visto que o casting, com a participação de Steve West, Alice Coulthard ou Neil Grainger é altamente recomendável. A banda sonora composta por Jason Graves, que já tinha composto para o jogo Dead Space ou o Tomb Raider estão spot-on e transporta-nos facilmente para aquela Londres Vitoriana que lemos por exemplo na obra de Robert Louis Stevenson.

Como devem ter percebido pela review, The Order: 1886 peca por ser curto. Curto na sua longevidade, e com isso caindo num misto de “ficar com água na boca” e “é só isto?!”. Para mim foi um óptimo filme para ser jogado, e que ficará ao lado de tantos outros na estante para “rever” daqui a uns tempos, um jogo com uma beleza e qualidade incrível, mas que será quase apenas recordado por isso.

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