A Mafia continua actual

Há muitas formas de contar uma estória, mas Mafia III foi exímio da forma como o fez. Vou começar com esta frase porque honestamente estamos numa época em que contar uma estória ou se tornou um filme de sábado à tarde no Hollywood, ou então uma novela mexicana de segunda categoria.

There Must be some kind of way outta here…” canta Jimmi Hendrix logo no início do jogo, e sintetiza em grande parte o mote do jogo. Em Mafia III assumimos a pele de Lincoln Clay, um negro em New Bordeaux (recriação de Nova Orleães) no final dos anos 60. Na verdade, a frase de Hendrix traduzida à letra “deve haver alguma maneira de sair daqui”, é mais do que um desabafo, é um desejo, é uma ambição. Ambição de Clay, ser mais do que um órfão perdido numa guerra social, mais do que um jovem que foi para a Guerra do Vietname. Clay quer fazer algo pela sua comunidade, quer lutar contra o racismo, quer lutar contra o regime mafioso instituído, quer ser “livre”, livre de todos os preconceitos e de todos os sistemas instaurados.

Não se iludam, a estória aqui relatada é mais pura das verdades, é uma forma da 2K e a Hangar 13, colocar o dedo na ferida, relatar uma época que foi negra para os EUA com o racismo a crescer na zona do Sul, com afro descendentes e brancos em lutas de vida ou de morte, e com a Guerra do Vietname apenas a apimentar um problema tão sério que ainda hoje se reflecte na sociedade americana, basta olhar para as recentes eleições presidenciais.

Como dizia, a forma de contar uma estória é fulcral para o êxito do jogo, e esta estória é contada de duas formas, sim vou dizer duas formas bastante distintas. “Visualmente” temos relatos de pessoas envolvidas nos principais momentos do jogo, relatos em formato documentário, a contar a história de Clay, numa espécie de flashfoward e flaswback contínuo em que ficamos sempre na dúvida do que vai passar a seguir ou da forma como os acontecimentos se desenvolveram. Depois temos a forma “musical” como os eventos são descritos e acompanhados. Para os amantes de música, como eu, vão perceber até nas letras das músicas como essa estória de Clay está a ser contada, ou até como essas letras serviram de inspiração para os criadores. Um dos momentos fulcrais do jogo, e isto sem spoilers, é uma cena no bar de Sammy, o pai adoptivo de Clay, em que tudo descamba, e ouvimos em pano de fundo a música “Paint It Black” dos Rolling Stones. Honestamente, toda a forma de contar a estória de Mafia 3 acenta neste factor determinante de sentirmos que estamos dentro de um filme, e resultou a 100%, a ponto de dizer que é o ponto alto do jogo.

Já que falámos na trilha sonora do jogo, referir que a 2K conseguiu os direitos de várias bandas e vários clássicos que não devem ter sido faceis de conseguir. Temas de Rolling Stones, Creedence Clearwater Revival, The Animals, Aretha Franklin, Cream, Count Five, Jefferson Airplane, Johnny Cash, Otis Redding, The Supremes, entre muito outros. São cerca de 100 temas, divididos entre cutscenes e as 4 rádios existentes.

Embora a estória do jogo seja óptima, tal como a forma pertinente que é contada, há vários aspectos que não a acompanham. Aqui o aspecto mais chato é a quantidade de bugs e glitchs existentes. Todos nós sabemos que quando temos um vasto mapa aberto num jogo com centenas de NPC’s (Non Playable Characters), a tendência é que tal aconteça, mas geralmente são pequenos detalhes, mas aqui são grandes detalhes. Vamos ver personagens a atravessar paredes depois de uma execução, texturas que não carregam a tempo, o mapa a carregar à nossa frente, entre outras coisas. No entanto o mesmo não acontece com as cutscenes, aí existe uma outra demonstração de poder gráfico, com as feições de cada personagem cheias de detalhe, para além da interpretação das mesmas.

Apesar de Mafia III ter conseguido passar de um modo a fazer de conta de free roam do seu predecessor, isso não quer dizer que o fenómeno da repetição tenha desaparecido. As missões e o próprio jogo em si não variam muito nas mecânica e nos objectivos. Teremos sempre que executar as mesmas 3 missões ou tipos de missão para conquistar território, abater o chefe dessa zona e depois atribui-lo a um dos nossos capangas, controlando as várias zonas ao longo do jogo tentando manter o equilíbrio de forças. As próprias mecânicas como diziam também elas são repetitivas, isto porque a Inteligência Artificial é super fraca, mesmo nos modos mais difíceis. Vêem sempre direitos a nós, sem se tentarem esconder, sem tentar flanquear, se assobiarmos vêem mesmo direitinhos a nós, e mesmo no modo mais furtivo, parece que são surdos se matarmos um companheiro deles a dois palmos de distância. Para perceberem melhor, houve uma altura em que um inimigo me viu e avisou os outros e apenas em cover no mesmo sítio onde me viram, matei 12 inimigos. Vinham um a um, até ficar uma montanha deles ao meu lado. De facto é uma pena que Mafia III não esteja polido nestes campos, porque existe tanto detalhe na recriação da cidade, dos carros, das lojas em que não são permitidos negros, na recriação do cenário histórico, que depois a falta de IA, acaba por estragar tudo o resto.

A excelente estória e a forma como ela nos é contada e recriada acaba por carregar o jogo às costas, faz-nos muitas vezes olhar para o lado quando nos surge um glitch, assobiar para o outro quando a IA é mundana, e acabar o jogo com agrado e satisfação. A jogabilidade, apesar de não revelar nada de novo, pelo menos está “sharp“. Os controlos respondem bem, o sistema de cover é fluído, os indicadores no ecrã estão visíveis, as balas não são ilimitadas, ajudando a que pensemos em acções furtivas e gastar a munição com cabeça e a condução dos carros está muito bem conseguida, com os carros a responderem bem, a ser divertido de conduzir e até a termos um movimento de camera quando fazemos as curvas, muito à Driver, ou mesmo a recordar o filme Bullit com Steve McQueen. Mafia III peca apenas por deixar algo a desejar nos detalhes que não sendo mínimos, poderia fazer deste jogo um dos melhores do ano, ficando aquém nesse sentido, não deixando de ser a melhor alternativa a GTA V, ao lado de Watch Dogs 2, apesar de universos diferentes.

mafia-recomenda

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