Quando era miúdo o que mais me divertia era tentar descobrir como trabalhar com MS-DOS sem perguntar ao meu primo para jogar no computador dele, ou tentar perceber inglês para jogar CM, tudo o que era mais desafiante deixava-me constantemente ligado. A verdade é que com a evolução da tecnologia e até dos videojogos, tudo parece estar “encarrilhado” para determinada direcção ou para que façamos determinada coisa. O nosso poder de escolha e de interpretação tem sido muitas vezes posto de parte com objectos no chão para não continuarmos por aquele caminho, ou a porta que não abre para irmos pelo outro, ou o nosso carro desaparecer e aparecer direitinho na estrada.

Dakar 18 Released!

Talvez por isso depois de ter acompanhado o “diário” de desenvolvimento do jogo e de ter conversado com o Paulo Gomes, CEO da Bigmoon Entertainment, fiquei ainda mais envolvido e curioso sobre DAKAR 18. A emoção e a expressividade com que falava-nos do jogo, deixou antever que tinham dado tudo o que podiam para a edição deste ano. Claramente que também foi uma interessante curva de aprendizagem para a Big Moon que já está no mercado há vários anos, desde 2008, nesse sentido, o estúdio produziu até 2015 diversas adaptações de títulos multiplataformas, constando no seu catálogo os jogos de rally WRC 3 e WRC 5, MotoGP 13, Lichdom: Battlemage e o conhecido título de estratégia Jagged Alliance: Back in Action, mas nunca se tinham aventurado desta maneira a desenvolver um jogo em nome próprio, não com este orçamento pelo menos, 3 milhões de euros foi o que foi gasto para trazer o DAKAR 18 para as consolas e PC, num trabalho desde 2016 com 30 funcionários.

Introducing Argentina

Seria impossível desenvolver este jogo se não houvesse uma vivência muito próxima com a competição, Paulo Gomes, já esteve em várias, a viver o DAKAR ao lado de alguns pilotos e a absorver tudo o que podia. Facilmente percebemos que este jogo só pode ser de alguém que viveu o DAKAR, porque mais do que ganhar, o importante é sobreviver. E logo aqui a diferença é massiva para os outros jogos, porque é óbvio que existe uma vontade de ganhar, existe sempre, mas chegar ao fim do DAKAR é só para alguns e fazer parte desse lote restrito é algo inesquecível. E é algo que só é possível com muita perseverança, paciência, persistência, engenho e dedicação. Só assim este rol de palavras já deve ter feito desmotivado metade dos leitores, pelo menos, mas a verdade é que este DAKAR 18 não quer ser para toda a gente, a Bigmoon Entertainment já fez esse tipo de jogos, e queria que o desafio fosse diferente, que a experiência fosse diferente ao mesmo tempo que autêntica perante uma competição que se calhar não tem a mesma visibilidade e tratamento como tantas outras, e onde nós temos pilotos que já atingiram excelentes marcas.

De modo a conseguir aplicar decentemente o conceito de navegação do Dakar, foi necessário criar um espaço onde o jogador possa ter essa sensação de liberdade de condução. Portanto estamos a falar de um mapa com um total de 18 000 km² numa compressão 1:32, 5 vezes maior que o GTA V dizia-nos o Paulo Gomes, no qual o jogador pode navegar e realizar as etapas baseadas nos road books oficiais, sim oficiais, porque como o jogo sai fora de época, se quiserem, puderam aceder as road books das provas para os recriar fielmente no jogo.

Bem mas vamos ao jogo em si, começamos pelo tutorial onde rapidamente percebemos pelos largos minutos de instruções que isto não é para meninos, ler o roadbook vai exigir olhar clínico, sentido de orientação e coordenação e muitas vezes ouvir o nosso co-piloto, sim porque ele ajuda a percebermos quando estamos a ir no caminho errado e dá algumas referências mas também pode ser a pessoa mais chata do mundo quando estás perdido e só o ouves a dizer que…. estás a ir pelo caminho errado. Sugestão: vejam bem os ícones que estão no roadbook porque palmeiras, torres eléctricas, conjunto de pedras e tal, vai vos ajudar a perceber onde está o próximo waypoint. No entanto se decidirem ir de mota ou de Quad, esqueçam o co-piloto como é óbvio e aí ou já estiveram num Dakar ou vão penar à séria. É frustrante falhar waypoints, e se falharem demasiados estão desclassificados, se ultrapassarem o tempo estão desclassificados, portanto muitos momentos de frustração, de partir comandos, de dizer palavrões e etc, imaginem isto numa pessoa com ansiedade generalizada, como eu, e facilmente poderiam dizer, ok, ele odiou o jogo. Não é bem assim, com a frustração vem a superação e DAKAR 18 representa isso mesmo, a superação do homem e da máquina perante todo o tipo de adversidade, mesmo que seja a jogabilidade, isto porque temos à nossa disposição, Carros, Camiões, Motas, Moto 4 e UTV/SXS, mas nem todos os veículos são bons de conduzir, nomeadamente em 3 categorias, Carros, Moto 4  e UTV, quando se atinge alguma velocidade parece que se perde o controlo da direcção, parece que bloqueia e não conseguimos curvar como queremos e parece que temos de fazer a curva como se tivéssemos num “mata velhos”.

DAKAR18 Tutorial oficial de navegação (PT)

A instabilidade da condução é algo fastidioso, muitas vezes pensamos mais sobre gelo do que areia e não compreendemos a razão, mas em grande parte a razão está na sensibilidade que está pré-definida, e devemos dizer que com algumas alterações a jogabilidade tornou-se melhor e estável e com isso mais divertida, mas mais uma vez DAKAR 18 não facilita a vida aos jogadores e não facilita a vida a si mesmo, porque muitos jogadores não se vão lembrar de calibrar a sensibilidade ou não vão estar para isso. No caso da Moto 4 não sei bem porquê mas aquilo parece impossível de conduzir, parece que estamos a dançar o tango…

 

Graficamente o deslumbre de DAKAR 18 passa pelo ciclo noite/dia e pelas paisagens que consegue transmitir dos vários locais que temos à disposição, Peru, Bolívia e Argentina com as várias características dos seus terrenos, dos seus climas e dos efeitos que isso provoca na corrida mais árdua do mundo. Outro dos aspectos muito positivos do jogo passa pelos efeitos de iluminação, desde o ciclo dia/noite, como dizia e a recriação dos ângulos das sombras nos objectos, carros, pilotos, etc, até aos pormenores das luzes dos carros, dos faróis às luzes de travagem tudo tem um “brilho” muito realístico. Menos realístico e inesperado é o efeito da poeira, por exemplo, era expectável ver o rasto dela e esfumaça-se, assim como o enterrar dos pneus na areia, que por vezes parece que o peso do carro perante as areias não existe. É um jogo com muitas texturas e muito bem recriado nesse sentido, particularmente em termos de escala onde os pilotos tiveram um papel preponderante ao ajudar a criar a escala correcta das dunas por exemplo, das rochas, dos percursos e as suas dificuldades, assim como também foram importantes na quantidade de informação que disponibilizaram para recriar as mecânicas dos veículos e os problemas adjacentes que acontecem durante um DAKAR. Sim é que vão ter que suar muito e muitas vezes parar o carro para repará-lo, e são várias as questões de mecânica que vos vão aparecer durante o jogo e vai vos obrigar a fazer uma gestão do vosso veículo para sobreviver. Neste jogo também podem ajudar outros a sobreviver, isto é, quando um piloto estiver em apuros, surge um aviso, onde podemos escolher se o ajudamos ou não, tirá-lo da lama ou de se ter afundado nas areias podem ser os mais comuns problemas dos pilotos, mas também o podem levar a reboque até ao fim da etapa se assim o quiserem.

DAKAR 18 played by Ari Vatanen, Nani Roma, Alex Haro and Pedro Bianchi at Comic Con

No modo carreira escolham bem a vossa equipa porque não vão poder mudar, a não ser no multiplayer local ou online, portanto para primeira vez escolham os carros ou camiões para conseguirem aprender as manhas e a dureza do DAKAR, e depois conforme se forem adaptando ao roadbook e especialmente às etapas, podem pensar nas motos e nos veículos sem co-piloto no geral. Relativamente ao online, pois bem, a ideia é a mesma, participar no DAKAR e chegar ao fim, aqui a diferença é que podem estar a jogar com amigos, de uma forma mais cooperativa ou mais de picardia, ajudando-se mutuamente é muito mais giro e ajuda bastante a superar as etapas em si, e as secas de quando conseguimos as acabar estar à espera que toda a gente as acabe, o que pode demorar por vezes, 20, 25 minutos. Falta referir ainda que existe um modo Free Roam, em “Explorar”, onde podem vaguear pelas etapas que já desbloquearam ou o modo “Caça ao Tesouro” onde o jogador vai procurar por easter eggs, coleccionáveis e algumas referências culturais da região geográfica.

DAKAR 18 não é para meninos e não será para o público em geral, e a Bigmoon Entertainment tem a perfeita noção disso, e tendo essa noção aventurou-se em dar exactamente o inverso, uma experiência o mais fidedigna possível, com a experiência própria de seguir vários DAKAR‘s bem de perto, de conviver com os pilotos, de contar com a experiência de Ari Vatanen, por exemplo, e do seu mítico Peugeot 205, e criou um desafio de mecânica, de destreza, de persistência, de capacidade de “sobrevivência” e de vivência de um DAKAR. E conseguiram, de facto, é admirável como ainda existem pessoas a tentar fazer algo de diferente, de fora da caixa, de dar uma experiência, em vez de a conduzir, de a afunilar para a experiência pré-definida, mas há preços a pagar por isso, por um lado a dificuldade em chegar a toda a gente, de agradar a maioria do público, mas pelo outro existe o reconhecimento dos seus pares e da crítica pela capacidade de dar aos rivais da simulação de rallys, em particular, grau de comparação, de exigência e de desafio que foram capazes de transmitir para este DAKAR 18. Só gostava que a jogabilidade fosse um bocadinho mais acessível e o roadbook um bocadinho maior (risos), mas há tempo para isso, a Bigmoon Entertainment já está a trabalhar num DAKAR 19.

4.0

Sim

  • Conceito único num simulador de rally
  • Um mapa aberto enorme e bem recriado
  • Ciclo dia/noite e efeitos de iluminação muito bem conseguidos

Não

  • A jogabilidade e a sensibilidade em algumas categorias de veículos é muito díficil
  • A dificuldade de ler um roadbook vai criar muitas frustrações
  • Algumas texturas podiam estar melhores
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