Cada vez mais na nossa sociedade tenta escamotear diversos problemas que fazem parte da nossa mentalidade e da maneira como nos obrigam a ver o mundo. Não é por acaso que os telejornais passam o tempo a falar de assuntos muitas vezes medíocres, e que pouco ou nada nos oferecem para melhorar a humanidade de cada um. Na realidade, o que importa é o que fica bem perante os outros; o mostrar que somos mais que os outros; e até o denegrir o outro só para demonstrar superioridade. As redes sociais fazem, cada vez mais, com que nos esqueçamos do que realmente é importante: o bem-estar social, o fim das desigualdades sociais, a xenofobia, entre muitos outros problemas que infelizmente continuam desde os primórdios da civilização.

Acredito que muitos de vocês não estejam a entender o que o novo exclusivo da PlayStation 4, Detroit: Become Human, tenha a ver com todos os problemas que numerei anteriormente, mas a resposta é bastante simples: Detroit: Become Human exemplifica perfeitamente todos esses casos. Mostra-nos de uma forma clara o que a própria televisão tem vergonha ou medo de divulgar. A Quantic Dream já nos tinha habituado a jogos verdadeiramente incríveis, como foi o caso de Heavy Rain e Beyond: Two Souls, mas nunca nada com esta qualidade. Atrevo-me mesmo a dizer que Detroit: Become Human é claramente o início daquilo que o cinema será um dia. Em que nós como espectadores podemos escolher as diversas acções dos actores, fazendo assim do filme um caminho. O nosso caminho.

O jogo passa-se num futuro próximo, no ano de 2038 na cidade de Detroit nos Estados Unidos da América (USA). Não é por acaso que isso aconteceu, a região de Detroit é uma das mais populosas dos USA, e alberga as duas maiores empresas automóveis daquele país (Ford e General Motors), além de também ser conhecida pelo forte racismo existente naquela região. Para quem não sabe, Detroit chegou a ser uma das cidades mais desenvolvidas do mundo no século XIX, sendo agora uma cidade cheia de problemas, desde a sua enorme dívida, a problemas de desemprego. Olhando para isso, o racismo torna-se uma consequência social natural, e por todos esses motivos, é um jogo que encaixa que nem uma luva neste território.

Detroit: Become Human oferece-nos a possibilidade de jogar com três personagens (Markus, Kara e Connor), três androides que não poderiam ser mais diferentes uns dos outros. E não querendo spoilar nada, para não estragar nem um pouco a vossa experiência, posso adiantar que cada um dos personagens, devido ao que lhes acontece no início da sua história, vai mudar a sua “mentalidade”, começando a ver o mundo de maneira diferente. É interessante ver que enquanto vamos variando entre os personagens, termos a percepção da maneira que cada um vê o mundo, e até da maneira que o jogo nos permite moldá-los às nossas escolhas. Muitas dessas escolhas derivam da nossa percepção do que nos rodeia, e é importantíssimo olhar e procurar tudo o que é relevante nos diversos cenários onde estamos, o que nos irá abrir um leque de escolhas e até de conversas bastante mais alargados, ajudando-nos também a ter mais sucesso nos nossos objectivos.

O jogo vai oferecendo-nos várias experiências, e todas elas demonstram algo. É incrível como muitas vezes nos esquecemos que estamos a jogar com androides, e percebemos que o humano que está a falar connosco é que parece a máquina. Isto é, sem escrúpulos, sem quaisquer problemas em ofender-nos, e apenas por não sermos feitos de carne e osso. É incrível o abuso de linguagem usado nos insultos, tudo porque supostamente os andróides não estarem programados para atacar humanos, e só para lhes obedecerem, como se de escravos sem sentimentos se tratassem. E quem tiver uma pequena noção de alguns conceitos de programação facilmente perceberá que tudo o que é programado é susceptível de ter erros. É quase impossível existir um código 100% funcional e sem bugs. O jogo mostra-nos isso mesmo.

Outro dos medos que a evolução tecnológica mais recente trouxe à sociedade está na redução de postos de trabalho. Quando começaram a aparecer os primeiros computadores, supostamente a ideia vendida à população era que ganhariam bastante mais tempo para si e para a família, e ir-se-ia produzir muito mais, mas em menos tempo. No entanto, a realidade é que aquilo que aconteceu foi as pessoas trabalharem durante o mesmo tempo, produzirem muito mais, e muitos postos de trabalho terem ainda assim desaparecido, aumentando drasticamente o desemprego. Detroit: Become Human mostra-nos isso mesmo, a chegada de andróides cada vez melhores e mais avançados tecnologicamente, onde a inteligência artificial roça a perfeição, e que fez com que o desemprego aumentasse, dividindo grande parte da sociedade. Uns adoram os andróides e tudo o que eles proporcionam, enquanto outros sentem um ódio profundo.

A maneira como os personagens entram na vida uns dos outros está muitíssimo bem feita. Kara, como sabem pelos diversos trailers, é uma empregada doméstica de uma família monoparental, cujo patriarca é alcoólico, desempregado e extremamente agressivo para com a sua filha, e Kara irá intrometer-se nessa relação de uma forma bastante intensa. Markus é um enfermeiro e empregado de um artista já bastante idoso, e por diversas razões que depois irão perceber, irá tornar-se no líder de diversos andróides que estão contra o sistema, e fartos de ser mal tratados pelos humanos. Por fim, Connor é um inspector da polícia de Detroit que investiga diversos casos de andróides que começam a ter um comportamento anormal relativamente ao suposto. Toda esta trama ao começar a desenvolver-se fará com que estes três andróides se encontrem por diversos motivos, e criem esta história fantástica que Detroit: Become Human nos apresenta.

Outra ideia bastante interessante, e que todos que tiveram a oportunidade de jogar a Demo conseguiram perceber, foi a estatística que nos é apresentada quando acabamos cada fase. É bastante interessante e serve até para estudar o comportamento de muitos jogadores. É possível ver que muitos jogam sabendo que estão a jogar com andróides, não ligando aos seus sentimentos, e tentando atingir o objectivo final a qualquer custo. Já outros, jogam como se estes fossem humanos, tentando atingir o propósito daquela fase de uma maneira muito mais emocional.

Algo que devem ter em mente é que Detroit: Become Human não se trata de um jogo de mundo aberto, e mesmo quando estão no meio da cidade não é permitido irem a muitos locais. Podem caminhar livremente por algum perímetro à volta de onde a acção se desenrola, mas pouco mais. Existe a ideia de que há mais cidade para além daquilo que conseguimos ver e alcançar, mas ao tentar avançar vão embater numa barreira que não vos permitirá avançar. Nada que perturbe a jogabilidade ou o conteúdo do jogo, antes pelo contrário, devido à maneira como tudo funciona, esta foi mesmo a melhor solução para o jogador se focar no objectivo.

Quanto à jogabilidade, Detroit: Become Human é um jogo bastante simples, excepto nas sequências de maior acção onde somos obrigados a ser ágeis e rápidos a carregar nos botões correctos. Tirando essas partes, temos tempo de pensar nas nossas acções, e de agir à velocidade que bem entendermos e tudo funciona de uma maneira fluido e perfeita, como se de um filme se tratasse. O jogo usa toda a tecnologia disponível no comando Dualshock 4, desde o sensor táctil, ao sensor de movimento, incluindo todos os botões, assim como os analógicos. E tudo é usado de uma forma bastante intuitiva.

Se passarmos para a componente gráfica, existem poucas palavras para o conseguir descrever. Tudo é incrível, e o jogo leva a PlayStation 4 a um grau de detalhe que nos deixa simplesmente boquiabertos. Os personagens estão extraordinariamente detalhados. Os olhos, a boca, o cabelo, tudo está fantástico. Já os diversos cenários que nos são apresentados também estão muito bons, e obviamente que dentro de casas e espaços fechados esse detalhe é ainda maior do que em zonas vastas como no meio da cidade. Seja como for, tudo está imensamente bem desenhado.

Passando agora para a dobragem do jogo em Português, há que dizer que é dos melhores trabalhos que podem encontrar. Nota-se claramente um enorme compromisso dos actores portugueses, tanto do Diogo Morgado, o José Mata e a Victória Guerra. Fizeram um trabalho imaculado, numa dobragem incrível que demonstra todo o seu profissionalismo e que coloca o jogo num patamar acima da média. Nota-se que existiu ali uma interpretação própria e que nem tudo foi tirado do original, o que dá um toque bastante pessoal à versão Portuguesa.

A banda sonora do jogo também é outro dos pontos altos do jogo. O jogo apresenta diversas músicas, e todas encaixam perfeitamente nos locais onde foram colocadas. Músicas de diversos estilos para diversas fases. Uma escolha impecável. Todos os sons também estão excepcionais, desde os barulhos dos carros, a chuva a cair, aos diversos sons que vamos ouvindo.

Detroit: Become Human, por toda a sua qualidade, assemelha-se quase a uma experiência cinematográfica. É importante ressalvar que embora o jogo tenha sequências de acção, estas não são o principal foco do jogo, e se estão à espera de algo cheio de acção frenética desenganem-se, este é um jogo de inteligência e de interacção, um jogo que somos obrigados a ser bastante cautelosos nas nossas escolhas, para conseguirmos atingir os nossos objectivos.

É bastante fácil entender que Detroit: Become Human é mais do que um jogo, é uma experiência única que obriga o jogador a pensar, a viver aquele momento e a criar uma imagem da sociedade como poucos ou nenhum jogo foi capaz de oferecer até hoje. Um trabalho magnífico da Quantic Dream, que certamente irá ficar como um marco da companhia. Claramente um dos melhores jogos de 2018, e provavelmente um dos melhores jogos lançados até aos dias de hoje por tudo aquilo que nos oferece. Uma lição social, como nunca antes vista num videojogo.

4.5

Sim

  • Uma impressionante crítica social
  • Uma historia incrível, muito bem escrita de delineada onde nós somos os protagonistas
  • Uma qualidade gráfica fenomenal
  • Um trabalho excelente dos actores que fizeram a dobragem para Português

Não

  • Por ser um jogo onde a acção não é predominante certamente afastará alguns jogadores
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