A espera foi longa, o hype foi real, e a construção desta análise foi demorada, pensada, maturada e vivida, mas era impossível ser de uma outra maneira. Há muita coisa que não conseguiremos transmitir por palavras, sentimentos que não serão expressos através destes caracteres, mas faremos de tudo para que tal aconteça.

Red Dead Redemption 2 | Launch Trailer | PS4

Vou começar desta forma, a primeira coisa que devem fazer é descarregar a Companion App, nela vão encontrar o diário de Arthur Morgan, a personagem que vamos controlar nesta aventura parte do famoso gangue liderado por Dutch, basicamente o verdadeiro e último grupo de fora da lei. O diário vai-vos enquadrar em cada momento na visão mais pessoal de Arthur Morgan, os seus pensamentos, os seus desejos, a sua ânsia pela liberdade pura e dura, por voltar aos grandes campos, ao oeste, e a viver uma vida pacífica, quem sabe ao lado de Mary, uma mulher que o deixou por ser um fora da lei, para ficar com um ricaço, mas que entretanto morreu, deixando esse espaço aberto para Arthur voltar a ficar com a mulher que ama.

No entanto todos nós sabemos que a liberdade tem um preço e especialmente no faroeste o preço a pagar pode ser demasiado elevado. A palavra liberdade não é aqui aplicada à toa, ela é, em grande parte, o centro de tudo neste jogo, começamos por tentar sobreviver a um nevão que se faz sentir na zona das montanhas para as quais fugimos logo ao início com os sobreviventes dos trágicos acontecimentos de Black Water, que mais tarde se irão compreender melhor, e com a nossa aprendizagem sobre as mecânicas principais do jogo, seja o caçar animais, seja os controlos mais básicos, até à nossa defesa pessoal e do nosso gangue.

Porque quero falar da jogabilidade em particular e a fundo, vou continuar a falar desta questão da liberdade perante o desenrolar da história, e depois vamos à jogabilidade. Voltando à liberdade, no início sentimos que a nossa está condicionada à sobrevivência, mas depois de nos safarmos do nevão e encontramos o nosso primeiro local de acampamento a liberdade é outra, não da sobrevivência mas da busca por algo maior, o sonho! E o sonho é comprarem um pedaço de terra longe de toda a gente e viver em paz, livres. É aí no primeiro acampamento que também ganhamos a nossa liberdade de movimentos pelo mundo aberto gigantesco que Red Dead Redemption 2 oferece, primeiro com a abordagem à primeira cidade que descobrimos Valentine, com o desenrolar da história, andaremos por Strawberry, Rhodes e eventualmente chegaremos a Black Water onde somos procurados vivos ou mortos.

Red Dead Redemption 2 _ Festa no Acampamento

Para fechar esta ideia cíclica de liberdade tenho de referir a capacidade da Rockstar de nos fazer sentir livres nas escolhas que fazemos, seja de por onde andamos, do que queremos fazer, da enorme quantidade de tarefas e missões secundárias que nos aparecem vindas do nada e que tanto gozo nos dá fazer, é impossível não sentir que comandamos o nosso destino, a nossa vida, que podemos caçar, pescar, vadear, jogar dominó, poker, apanhar uma “granda” bebedeira, roubar cavalos ou propriedades, colecionar cartas, ervas, armas, cavalos, peles para fabricar roupas ou tesouros, existe uma quase infindável lista de coisas para fazer e de pessoas com quem interagir que nos entretêm e nos faz perder anos de vida a viver este jogo. A liberdade conquista-se, não sem arranjar problemas com a liberdade dos outros, mas a Rockstar conseguiu dar-nos todos os elementos para sermos livres num verdadeiro mundo aberto intensamente vivo e como uma qualidade cinematográfica impressionante.

Red Dead Redemption 2 | Official Gameplay Video | PS4

A riqueza deste mundo aberto passa por podermos aparar a nossa barba como quisermos, deixarmos apenas as patilhas, apenas o bigode ou uma pera, sendo que ela vai crescendo e portanto para manter a aparência vamos a cortando conforme os dias vão passando e até a podemos mimar com um tónico para crescer mais, assim como podemos passar uma bela brilhantina pelo cabelo, ou escolher o melhor penteado no barbeiro. E este é apenas um pormenor do jogo e da vida que nos oferece, podemos mimar o nosso cavalo com feno ou cenouras, com uma sela toda pormenorizada, com umas estribos brilhantes e uma pele bonita, tal como podemos caçar animais lendários para fabricar a nossa própria roupa de inverno ou verão. Podemos escolher o nosso estilo, seja mais cowboy, mais jogador de poker ou de caçador, a nossa personalidade vai-se fundir muitas vezes com Arthur Morgan.

Red Dead Redemption 2 – Efeitos climatéricos e a busca pelo melhor cavalo do jogo

Para além de podermos carregar na nossa bolsa vários items para a nossa saúde, stamina e o famoso Dead Eye que para o tempo para limparmos os nossos inimigos, também temos de cuidar da vida e stamina do nosso cavalinho de estimação, que podemos até dar um nome, o meu chama-se Jolly Jumper, claro, e para além da comida, devem sempre mimar o vosso cavalo com umas festas, escovarem o pêlo e falar com ele para conseguirem um grau de aproximação maior para que vos siga sempre, para que ele se torne mais forte e ágil e seja capaz de fazer outras habilidades. A verdade é que ele será o vosso fiel companheiro até ao fim, portanto sugiro que vão até Lake Isabella, se calhar vão encontrar o melhor cavalo do jogo, fica apenas a dica. O nosso fiel companheiro vai também carregar algumas das vossas roupas e das vossas armas, para além de guardar vários items na bolsa, para guardarem tudo o que apanham até mesmo animais ou as peles deles.

Red Dead Redemption 2 | Official Gameplay Video Part 2 | PS4

Como fora da lei é de esperar que não tenhamos uma casa, temos um acampamento onde teremos que proteger o nosso gangue, que é composto pelo nosso líder Dutch, por uma personagem que devem conhecer de algum lado chamado John Marston mais a sua mulher Abigail e o pequeno Jack (esse mesmo Jack!), Hosea o “ancião”, Strauss o contabilista, Pearson o cozinheiro, Charles e Micah que serão muitas vezes os nossos parceiros nos trabalhos sujos, para além de outros sobreviventes e familiares que se foram juntando à causa. Nesse acampamento vão poder equipar-se à vossa maneira, mas terão também que contribuir para a sua segurança e sobrevivência, isto é, com os vossos lucros devem contribuir para o “bolo” do acampamento para comprar suprimentos, mas também podem contribuir ao ajudarem a construir melhoramentos, que passam por conseguir dar condições para a reserva de alimentos ou para receitas novas, para termos acesso a mais munições, a termos um galinheiro ou mais espaço para cavalos, ou até para melhorar as condições das nossas tendas. Aqui sugiro fortemente a tratarem logo das acomodações do Dutch para depois desbloquear o próximo upgrade que vos dará a hipótese de Fast Travel. Melhorando as condições de vida de todos no acampamento vai desbloqueando novas missões e pequenas tarefas que podem ir aumentando as vossas próprias capacidades.

Red Dead Redemption 2 – A gestão do acampamento

Como já perceberam há muito em que pensar neste jogo, e dá que pensar, porque vamos estar no meio de muitas embrulhadas em que teremos que tomar uma posição, seja na luta entre duas famílias fazendeiras, de sermos fora da lei e ajudantes do xerife ao mesmo tempo, de andarmos a roubar e de sermos a lei, para não falar de todas as pequenas decisões em ajudar pessoas com que nos deparamos nas cidades ou nas estradas e que nos pedem ajuda. Ajuda ou nos querem roubar, porque nem sempre é por uma boa causa, mas quero exemplificar, vão por exemplo encontrar um rapaz que foi mordido por uma cobra e se o ajudarem, ele vai vos dizer, quando o encontrarmos numa cidade, que podemos comprar uma arma à nossa escolha que ele paga, ou por exemplo, vão perceber numa das cidades que o Armeiro sequestrou um rapaz na sua cave para fazer de seu filho, sim creepy no mínimo, e vamos ter que decidir se o ajudamos ou não. São apenas dois exemplos de tanta mas tanta coisa que pode acontecer no jogo. Até a liberdade de expressão ou a igualdade de direitos é invocada no jogo, seja a igualdade entre homens e mulheres, como a igualdade de direitos seja qual for a sua ascendência ou cor, a Rockstar nunca evita colocar o dedo na ferida e contribuir para que o jogador pense, reflicta e até decida qual a sua posição em relação a assuntos tão fracturantes como este.

Red Dead Redemption 2 – Nada é o que parece

Se jogaram o primeiro Red Dead Redemption vão sentir que nunca o deixaram de jogar porque os controlos são os mesmos, tal como os do GTA, tudo muito fluído e intuitivo, seja abrir a rodela de itens e armas, onde facilmente vemos e utilizamos esses items, as respostas das armas e dos vários tipos disponíveis são super fidedignos, com as armas de repetição a terem uma boa cadência, mas não melhor do que quando tivermos a possibilidade de usarmos dois revólveres, a caçadeira é demolidora no um para um, mas pouco eficaz ao andarmos a cavalo, e o rifle de precisão vai fazer com que nem saibam donde elas vieram. Para além disso têm também um arco e flecha, a melhor arma para caçar animais sem estragar demasiado as peles e ainda o laço que servirá tanto para apanhar cavalos como pessoas. Com um gatilho miramos com o outro disparamos, simples e eficaz, ainda mais quando carregamos no analógico direito e ativamos o Dead Eye, o famoso efeito de abrandar o tempo e de icar tudo em tons sépia, para escolhermos os alvos e distribuirmos balas ao desbarato mais em cheio.

Red Dead Redemption 2 – Uma aventura com Micah

Em termos gráficos jogámos numa PS4 PRO e vimos de facto a diferença que faz o HDR, com as texturas mais vibrantes e com os efeitos, nomeadamente da luz, da neve ou da chuva a cair, da cacimba da madrugada, existe um polimento diferente que se nota e que merece ser vivido ao utilizar o HDR. O jogo por si só é lindo, a natureza dos espaços, da vibração das árvores ao vento, passando pela calmaria dos lagos, o quão real a água nos parece convidar a dar um mergulho, a beleza de um dia de chuva, como Arthur Morgan fica ensopado, com as gotas a caírem do seu chapéu, ou as gota a cair nos lagos e a fazer aquele efeito de vibração na água, mesmo na neve, como as patas do nosso cavalo se enterram na neve, o rastro que vai deixando, enfim, é díficil conseguir dar a exatidão dos pormenores que vamos encontrando de hora para hora, de dia para dia.

Ainda em termos gráficos temos que referir que a Rockstar está tão segura do seu trabalho que as cameras que temos estão todas apontadas para uma componente mais cinematográfica, seja os planos na terceira pessoa, quer mesmo no plano na primeira pessoa, sim porque podem jogar na primeira pessoa, e nos duelos é simplesmente incrível. Mas como eles acharam que era pouco carregando, neste caso, no touch pad sem largar, ativamos uma camera cinematográfica com o efeito de 16:9, mesmo à cinema, para desfrutarmos do “filme” em que estamos.

Red Dead Redemption 2 – Uma tarde de Poker!

A acompanhar estes gráficos tão fluídos que nem sequer existe paragens ao entrarmos nas cutscenes, temos também a banda sonora, toda ela composta por Woody Jackson, o mesmo que tinha também feito a arte sonora do primeiro Red Dead Redemption, de L.A. Noire e do Grand Theft Auto V. A banda sonora conta ainda com a produção e arranjos de Jeff Silverman (Truth and Soul, Aloe Black) com orquestrações de Colin Stetson (Bon Iver, Hereditary), David Ferguson (o engenheiro de som do Johnny Cash), David Ralicke (Beck, Sons of Anarchy), Gabe Witcher (Punch Brothers, True Detective), Luke O’Malley, Mario Batkovic (of Geoff Barrow’s Invada), Matt Sweeney (Chavez, Superwolf, Iggy Pop, Bonnie Prince Billy), Rabih Beaini e Senyawa, para além e vejam bem isto, da colaboração de mais 110 artistas como o caso de Arca (colaborador de Bjork, Kanye West, Frank Ocean e Kelela), Duane Eddy (o protégé de Lee Hazlewood ), Jon Theodore (antigo baterista dos Mars Volta e agora dos Queens of the Stone Age), Michael Shuman aka Mikey Shoes (Queens of the Stone Age, Mini Mansions) entre outros.

Todas as falas de Red Dead Redemption 2 foram produzidas pelo vencedor de um Grammy, Daniel Lanois,conhecido por ter produzido os discos de Bob Dylan, Neil Young e Willie Nelson assim como a produção do disco multi platinado dos U2, “Joshua Tree”. A banda sonora conta ainda com interpretações de D’Angelo, Willie Nelson, Nas, Rhiannon Giddens ou Josh Homme. Sim, a resposta é sim, é uma produção gigantesca este jogo e a Rockstar nunca brinca.

Parece impossível como é que a Rockstar Games, consegue produzir a perfeição em jogo, pega numa história, neste caso na prequela da aventura de John Marston, coloca-nos na pele de Arthur Morgan, vivemos a vida dele, sentimos sempre que a estamos a viver, sentimos afecto pelas pessoas que nos rodeiam, pelo nosso gangue, pela vida que levamos e entramos num filme, perfeito em todos os sentidos. Eu não sei o que a Rockstar vai ser capaz de nos oferecer no modo online que quer implementar, mas depois de termos jogado Red Dead Redemption 2, e de acharmos que é uma obra prima que ficará para sempre nos anais da história, podemos bem estar prestes a dizer adeus à nossa vida e não fazermos mais nada a não ser viver no faroeste.

5.0

Sim

  • História envolvente, um guião e um rol de personagens muito interessante
  • Gráficos e fluídez soberbos
  • Um jogo em que todos os detalhes foram meticulasamente pensados
  • Banda sonora de luxo, assim como todos os efeitos sonoros do jogo em si
  • O mesmo graude jogabilidade e diversão do primeiro jogo, com uma experiência cinematográfica digna de um filme

Não

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