Um bom jogo táctico de estratégia “turn-based” não é uma coisa fácil de encontrar nos últimos anos, para além da série já cansada do Heroes of Might and Magic e do Fire Emblem para a Nintendo DS, não têm havido grandes lançamentos neste género. Mais raro ainda é encontrar um jogo destes com uma história interessante e absorvente que incentiva até quem não é fã do género, ou que o acha demasiado complexo a continuar a jogar para descobrir o que vai acontecer. Agora aliamos isto a gráficos e arte deslumbrantes e a um sistema de avanço de jogo que toma em conta as decisões do jogador, com consequências para a história e gameplay, e temos The Banner Saga.

The Banner Saga é um jogo que surge de um projecto de Kickstarter em que 3 developers de jogos que eram da Bioware pediram 100.000 dólares para desenvolver um novo jogo de estratégia, o jogo que propuseram foi tão aliciante (e há um buraco tão grande no mercado para este género de jogo) que acabaram por receber 700.000. Este dinheiro foi claramente muito bem usado, e assim que se liga o jogo têm-se uma imediata noção de luxo, a arte gráfica está ao nível de um bom filme de animação, a banda sonora orquestral adequa-se completamente, e mesmo antes de jogar o que quer que seja já se sabe que isto só pode ser bom.

 

Apesar de todo este luxo, que deriva de bons artistas e developers por trás do jogo, apercebemos-nos imediatamente que este é um jogo “indie”, primeiro o conceito é original demais, passado num mundo de fantasia nórdico em que o jogador controla caravanas através da neve e tem de combater perigos no caminho. Em segundo lugar, se isto fosse de uma grande casa de produção, os diálogos seriam todos com voz, por exemplo, enquanto aqui isso é algo raro, que acontece apenas em grandes momentos do jogo. No entanto, isto é secundário quando a banda sonora e o que nos aparece no ecrã é tão interessante que estes detalhes dispendiosos são desnecessários.

 

O gameplay do jogo divide-se em duas grandes partes, a parte dedicada ao combate táctico, bem conseguida, com uma variedade de ataques e capacidades de movimento, mas que não é necessariamente revolucionária, e uma secção dedicada à história. História essa que, ao bom estilo da Bioware, para onde trabalhavam os designers do jogo, as escolhas de diálogo têm consequências, por vezes gravíssimas. Imaginemos por exemplo que temos uma personagem que andámos a desenvolver durante umas batalhas até a levarmos a um nível alto, é a personagem basilar da nossa estratégia, e a meio de passar uma montanha com a caravana se prende a um carro de bois que está em risco de cair da montanha abaixo, é nos dada uma escolha de possivelmente ir parar lá abaixo com ele e levar com “Game Over”, mandar outro tipo ajudá-lo e arriscar a perder 2 personagens, em terceiro lugar mandar um berro para ele largar os bois (o que leva à perda de mantimentos e dinheiro que pode levar a que os personagens morram de fome mais tarde e a não conseguir pagar para subir de nível), ou dizer-lhe para aguentar os bois. Geralmente aqui não vão haver boas opções, apenas opções menos más. No processo de escrever esta review, ficámos sem a personagem base para combate que acabou no fundo do vale aos bocadinhos com uns bois e uma carroça por cima. Se isto já nos parece consequência suficiente, o jogo vai ainda mais longe, e alguns dias depois temos de tratar de problemas de pessoal que anda a fazer mercado negro com o resto dos mantimentos que ficou no fundo do vale. Outra parte interessante é o facto da história ir mudando a perspectiva do jogador de personagem para personagem, de capítulo em capítulo vamos para várias partes do mundo seguir outras caravanas que fogem do perigo contra o qual o jogador luta.

 

É sem qualquer dúvida um jogo altamente recomendável, para quem gosta do género de estratégia ou não gosta, ou gostava de experimentar. Fazem falta jogos que peguem em formatos de gameplay antigos, e fora de moda, e lhes dêem a volta de que precisam para fazerem parte da nossa vida outra vez, e The Banner Saga é esse jogo.

About The Author

É de Lisboa, com um desvio por Évora. A primeira cassette que teve foi o Man-Machine dos Kraftwerk porque gostava do espaço e de robots. Ainda gosta do espaço e de robots, e de comics, e de jogos de computador e de cenas fantásticas e tal... o vulgo "nerd". É Licenciado, Mestrado e Doutorado em Religiões Comparadas pela University of Manchester (onde esteve 9 anos). É Professor de Filosofia das Religiões na Universidade Nova. Ganha sempre ao Trivial Pursuit. Passa demasiado tempo no World of Warcraft. Nunca jogou Fifa nem Pro Evo nem Madden NFL ou lá o que é, e tem orgulho nisso. Uma vez jogou o Itália 90 que tinha numa disquete que lhe emprestaram e que funcionava no Intel 80-88 que tinha na altura.

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