Crónicas da terra ardente

Tetsuya Takahashi é um dos grandes criadores de RPG japoneses actualmente no activo. E Xenoblade Chronicles, o seu projecto anterior, é um dos melhores JPRGs dos últimos dez anos. As expectativas em torno de Xenoblade Chronicles X, a sua sequela espiritual, eram portanto elevadas desde que foi anunciado há uns anos e não desiludiu. Antes pelo contrário.

A grande estrela de Xenoblade Chronicles X é Mira, o planeta onde decorre a acção. É lá que o jogador acorda no início da aventura, depois de a grande nave em que viajava ter sido atacada e destruída por uma frota extraterrestre que já tinha também rebentado com a Terra. O protagonista é um de muitos exploradores/colonizadores que, a pé ou abordo de um mech, tentam salvaguardar a humanidade num mundo que não lhes é familiar – a história não é brilhante, admita-se, mas a premissa é boa e, sobretudo, bem aproveitada. Quase tudo em Mira é ligeiramente estranho e alienígena, promovendo a exploração e o assombro, sem se afastar completamente do nosso universo referencial. Por outras palavras, tudo lembra algo que é familiar, sem nunca o ser de facto.

XenobladeChroniclesX_scrn_018
De certa forma, o mais recente trabalho de Tetsuya Takahashi é um híbrido de MMORPG e JRPG tradicional. E isso fica patente em quase todos os aspectos do jogo: no sistema de combate em tempo real, que mistura acção e estratégia; na forma como o jogador é levado a explorar o planeta em que se encontra; na cidade principal onde decorre a acção, rodeada por um terreno vasto e hostil, onde é raro encontrar outras personagens; na própria forma como a história progride. O grande triunfo deste título é, porém, a forma como todas estas restrições parecem naturais e são explicadas pelas circunstâncias, pela premissa inicial.

Desenvolvido pela subsidiária Monolith, Xenoblade Chronicles X é um título da Nintendo, e isso nota-se sobretudo no cuidado com o desenho e mecânicas de jogo. Tudo parece possível. Por exemplo, ao contrário do que acontece na generalidade dos jogos de mundo aberto, as montanhas e demais obstáculos geográficos não estão lá apenas para nos impedirem de sair da nossa caixinha de areia e porque os programadores não tinham tempo de criar o resto do mundo, mas antes porque fazem parte do mapa. Como tal podem ser escaladas e subidas como cada um bem entender e conseguir. Encontrar atalhos por entre o terreno é, de resto, incentivado.

WiiU_XCX_SCRN_04
A relação entre o hardware e o software é igualmente harmoniosa. Os tempos de loading são quase inexistentes, e pelo menos na versão digital só aparecem quando se muda de área em fast travel. É verdade que o pop-in é constante, sendo difícil viajar sem sermos surpreendidos por monstros e NPC que se materializam subitamente, mas não chega a ser o suficiente para quebrar a ilusão. E depois de anos a desesperar com os tempos de loading massivos de RPGs como Skyrim ou Dragon Age: Inquisition é difícil não esboçar um sorriso quando um videojogo nos deixa saltar para a outra ponta do mundo em menos de 20 segundos.

Mas nem tudo são rosas. A história, repita-se, é fraca e algo inconsequente, e a escrita deixa muito, tanto, a desejar. A quantidade de diálogo expositivo mal-amanhado, sobretudo durante as primeiras horas da história, é assustadora, sobretudo comparativamente com os RPGs americanos que se impuseram no mainstream nos últimos dez anos. Há momentos em que os criadores parecem nem sequer ter tentado esconder o que estavam a fazer, como quando duas das personagens que nos acompanham desde o início nos perguntam se estamos a perceber os sistemas do jogo e nos lembram o que temos de fazer. O problema não é tanto o facto de isto acontecer, mas a execução.

XenobladeChroniclesX_scrn_033
Há mais problemas. Como a baixa resolução do texto dos menus, quase inelegíveis quando se joga no comando da Wii U e difíceis de ler na televisão (o problema, sublinhe-se, não é só o texto ser pequeno, é mesmo a baixa resolução). E o contraste com as legendas das conversas com as personagens, maiores e com melhor resolução, é particularmente dificil de entender. Os modelos das personagens também desiludem e quase não cumprem os mínimos. Ao fim de uns dias com estes avatares, é até possível sentir saudades do débil sistema de criação de personagens do primeiro Mass Effect.

Não obstante estes problemas, é difícil largar o comando. E esse é o maior mérito de Xenoblade Chronicles X. O mercado está cheio de jogos, e particularmente RPGs, com gráficos superiores, histórias muito melhores, diálogos infinitamente mais realistas e naturais, sistemas de combate incrivelmente menos irritantes. Mas é difícil não esboçar um sorriso quando se liga o comando da Wii U e, com apenas um toque, se começa a jogar.

O Luís de Skyrim podia ser um semideus capaz de controlar dragões, o Luís de Dragon Age: Inquisition podia ser um líder político-religioso brilhante que mudou a história de Thedas, o Luís de Mass Effect podia viajar pelo universo rodeado de personagens com quem se importava. Mas mais nenhum vive em Mira. Quem perde são eles.

RECOMENDA XENOBLADE

Published
Categories Análises
Views 58
Ir para a barra de ferramentas