Como é habitual, sempre que surge um jogo que tenha ficção científica, naves espaciais e afins, a equipa do Salão de Jogos, atribui-me sempre a tarefa de o analisar. Por isso, jogos como No Man’s Sky, Destiny, Halo ou Horizon Zero Dawn vêem me sempre parar às mãos e eu fico sempre todo extasiado. Mass Effect Andromeda é um desses casos, mas será que ficarei tão feliz como no exclusivo da PS4, Horizon Zero Dawn, ou tão frustrado como em No Man’s Sky? Vamos lá ver se este “espaço” é um lugar feliz ou não.

Depois do final tão “mauzinho” de Mass Effect 3, todos nós pensámos que a b, rectificaria esse feito, com tudo aquilo que tão brilhantemente nos trouxe no franchise, isto é, uma narrativa super densa, ao mesmo tempo super interessante e criativa, com mecânicas apuradas e cenários esplendorosos, eu não sou excepção e depois de tanto hype, seria difícil não esperar outra coisa na verdade.

No entanto Mass Effect Andromeda navega-se por demasiados clichés, a história é algo confusa e turbulenta, com um princípio que deveria ser mais enigmático e até problemático, mas que rapidamente se torna algo vago, estranho e fechado ao mesmo tempo. A história não perdeu a sua densidade, mas perdeu muito na configuração da história do/a nosso/a protagonista, isto é, o nosso ou a nossa Ryder, porque podemos escolher se somos a personagem masculina ou feminina, basicamente assenta numa espécie de argumento de série de segunda categoria em que muito se assemelha a The 100. Se não conhecem a série, eu explico rapidamente, basicamente a Terra deixou de ser um local onde podemos habitar devido a uma espécie de cataclismo ainda por explicar, então todos os sobreviventes vivem numa nave espacial em órbita à procura de um novo lugar para habitar ou então voltar à Terra, nessa demanda, as personagens principais voltam à Terra que parece novamente habitável, mas vão encontrar muitos perigos e outras raças e outros sobreviventes por lá. Isto foi o resumo do resumo dessa série, mas que não está tão longe da ideia de Mass Effect Andromeda, que é a Terra não ser mais um local habitável e temos de encontrar outro sítio onde viver e colonizar, para que a raça humana e tantas outras possam sobreviver. Para isso tornamo-nos o Pathfinder, o Explorador, que tem como objectivo salvar toda a gente, na verdade, mas os recursos são escassos e por isso terá também de “alimentar” toda esta expedição. A forma como nos tornámos o Pathfinder é um pouco, como poderei dizer, às 3 pancadas. Sem spoilar demasiado, até porque é o início do jogo, o nosso Pai que era o Pathfinder original, e que mal conhecemos e que nem sequer percebemos a sua relação, sacrifica-se para nos salvar, e ao fazê-lo, a Inteligência Artificial que o acompanhava, o SAM, acaba por ficar implantado no nosso corpo e trazer consigo todos os seus segredos. Pelo meio a nossa/o irmã/ão, dependendo do género que escolherem, está em perigo de vida porque a sua cápsula criogénica foi danificada. Bem como podem ler, aqui há logo dois problemas, não percebemos nada da relação pai/filho/a, e não estamos nada preocupados, na verdade, com a condição do/a nosso/a irmã/ão, pois vamos andar horas sem querer saber nada disso a não ser explorar a galáxia.

O problema da narrativa começa neste aspecto mas não se vai resolvendo ao longo do jogo, apesar de ser construída uma enigmática interessante sobre a relação entre pai/filho/a, nós não ficámos “ligados” nisso porque não foi dada a devida dramatização, ou contextualização, se preferirem para existir essa conexão. Se quiserem, a narrativa, apesar de densa, não teve esse cuidado, para criar esse “bound“.

Desculpem estar a dar tanta importância à narrativa, mas num jogo como o Mass Effect, essa é uma das suas principais características, e em certos pontos funciona muito bem, como é o facto de termos muitos objectivos paralelos, e ligações com outras personagens que vamos encontrando e conhecendo ao longo do caminho, seja salvar um assassino, seja encontrar um sabotador, encontrar recursos para criar novas armas e armaduras, e é claro os segredos de uma raça alienígena que desconhecemos a razão da sua existência. São vários os diálogos que vamos manter com várias personagens, diálogos interessantes, longos, aviso desde já, mas que determinam essa mesma relação conforme escolhemos o que dizer, de que maneira, mais emocional ou racional, e que nos levarão a cenários diferentes, consoante as nossas escolhas.

Antes de irmos às mecânicas e aos cenários esplendorosos do jogo, temos que focar, o maior problema de Mass Effect Andromeda, para o qual ainda não existe uma resposta formal, apenas ideias, isto é, o problema da sincronização labial das falas das personagens e os vários bugs e glitchs existentes no jogo. Devemos desde já referir que jogámos numa Xbox One S e que estamos a relatar os problemas nessa versão, tendo nós a noção de que a versão PC, está bastante melhor nesta questão.
No entanto, e como já vos disse, o jogo baseia-se muito nas falas, nos diálogos, nas conversas que são feitas com várias personagens, e se isso está estranho nessa sincronização, é muito difícil não repararmos ou nos abstrairmos desta questão. Eu não quero dizer que não é admissível, mas é muito estranho que ninguém tenha reparado nisso ou que tenha rectificado até esta altura. E faz mais confusão ainda, porque as falas, estão expressivas, bem gravadas e colocadas, mas a sincronização está mesmo “messy”.

Mass Effect Andromeda é dissonante, tem tanta coisa boa como má, já referimos aqui o vazio emocional que a narrativa traz à nossa personagem e a questão do “lip sync”, mas há outras coisas boas e más, despachemos as más de uma vez. Duas coisas que me fizeram muita confusão, a primeira é o raio dos glitchs, dos bugs, e das pop up textures, estar a jogar ou ver uma cut scene com as texturas a surgirem à vez, isto é, irem aparecendo, é difícil de engolir. E isso irritou-me solenamente, num momento que deveria de ser de extase, como é o facto de chegar a nossa nave Tempest, e as texturas a irem aparecendo enquanto chegamos à doca, foi dureza. Isso, e os NPCS mergulharem uns dentro dos outros. A segunda tem também a ver com a Tempest, ora bem, eu esperava conduzir a Tempest para as galáxias ou planetas que visitamos, já estou um bocado farto de ver Naves em loading no Destiny o suficiente, para mais uma vez ter-me de acontecer algo semelhante. Mas foi exactamente isso que me aconteceu, escolhemos uma galáxia, um planeta para onde queremos ir e depois vemos uma cutscene da nossa nave a descer até esse planeta. Vá lá, deixem-me conduzir uma porra de uma nave num jogo de ficção científica, ou tenho de ir sempre parar ao Elite Dangerous?!

Falemos então das mecânicas, basicamente Mass Effect Andromeda mistura RPG com third person shooter. Se por um lado teremos que andar de um lado para o outro a falar com os vários NPCS para os ajudar nas suas demandas, também é através deles que vamos percebendo muito da história e das histórias de cada um. Como é normal num Mass Effect, a narrativa é densa, mas também os diálogos o são, mas sentimos que estamos a ter uma conversa real, especialmente se olharmos para o factor de que temos várias formas de responder ou de fazer perguntas, seja de forma mais racional ou mais emocional, por exemplo. Outra das componentes tem a ver com o nosso fiel amigo SAM, basicamente funciona como consciência e Inteligência artificial ao mesmo tempo, um pouco como o Ghost de Destiny ou o Focus de Horizon Zero Dawn. É ele que nos indica as localizações do mapa, que scaneia toda a tecnologia e afins, dando-nos indicações do que fazer e das várias utilidades à disposição. O meu único problema é que a indicação dos objectivos nem sempre é clara, pois temos uma barra horizontal na parte de cima que nos indica se é para a direita ou para a esquerda, mas não conseguimos ter a percepção da profundidade a que se encontram, levando-nos às vezes a andar a correr à toa. Já que falamos de correr, dizer que quando estamos em exploração, onde por vezes encontramos vários inimigos, os saltos são algo esquisitos. Ryder queixa-se sempre na queda, e o strafe parece um pouco desajeitado. Não consegui perceber muito bem se é uma questão de animação ou da relação da nossa personagem com o terreno que é desajeitada.

Já a nível do combate, Mass Effect Andromeda melhorou bastante em relação aos seus precedentes, agora mirar é muito mais fácil e bem construído, a nossa personagem geralmente faz o “cover” de forma fluída e natural, visto que não temos propriamente um botão para o fazer. As ordens que podemos dar aos nossos companheiros são eficazes, não sendo eles meros trapalhões às nossas costas. Para além disso temos uma boa variedade de armas à disposição, e o facto de só podermos levar algumas connosco, faz-nos pensar na melhor abordagem, e que somos de facto um Explorador e não uma máquina de exterminação. Quanto ao nosso Nomad ND1 apesar de não ter qualquer arma embutida, tem um controlo super fácil, onde podemos mudar de tracção para conseguir subir alguns terrenos mais complicados, para além de ter uma espécie de turbo. Para além disso pode nos proteger contra as radiações e nos fornecer um escudo caso tenhamos que nos defender perante alguns inimigos que nos apareçam.

Mas se o jogo parece simples nas mecânicas e na abordagem, rapidamente se torna super complexo se analisarmos todas as componentes que se situam no nosso menu. É aqui que vão encontrar forma de melhorar a vossa armadura, ou fabricar uma, de melhorar uma arma, ou fabricar uma, ou de melhorarem as vossas skills. E aqui a trama adensa-se ainda mais, visto que podemos escolher se queremos ser um poderoso soldado ou um destruidor biótico por exemplo, e isso leva-nos a escolher também os nossos poderes que podem tanto nos levar para sermos mais furtivos ou mais interventivos, é uma forma de nos adaptar-mos ao jogo, mas também de criarmos o nosso estilo de jogo. Acreditem que vão perder muito tempo nisto, até porque será essencial para ultrapassarem muitas das algumas fases.

Bem para fechar antes de finalmente falarmos dos gráficos, dizer ainda que existe um modo cooperativo multi-jogador, tal como acontecia com Mass Effect 3. Portanto estão de volta os combates com vagas de inimigos em várias missões. A jogabilidade é a mesma, sendo que os nossos companheiros “reais” podem ser mais “fraquitos” que os virtuais da Tempest. Os modos variam entre sobreviver às vagas, desactivar alguns engenhos ou capturar pontos estratégicos, o habitual portanto. Talvez o mais importante é que este modo de jogo influencia a nossa prestação no modo de campanha, no entanto não como em Mass Effect 3. Aqui, as equipas APEX que representamos acabam por participar em diversas missões dando-nos pontos, verbas e vantagens estratégicas para o modo de campanha. Depois durante a campanha vocês decidem de executar as missões pessoalmente ou mandar equipas artificiais recrutadas no Nexus.

Graficamente já falámos muito ao longo desta análise, que, de facto, a questão das animações das caras e a sua sincronização com o audio é dura de roer, mas ao mesmo tempo eu tenho de dizer que Bioware não se enfiou numa toca à espera que a tempestade de areia passasse. Ao mesmo tempo que escrevo esta review, saiu a notícia de que a Bioware vai entregar um patch para correcção de grande parte desses erros. Tenho de salutar essa posição de assumir os erros e de tentar dar aos jogadores a experiência que lhes foi prometida e que merecessem, e que existe esse esforço da parte deles. No entanto esta review já não vai a tempo de experimentar esse patch, e baseia-se no jogo tal como ele saiu. Colocaremos uma nota nesta análise assim que experimentarmos o jogo com esse patch.

Mas como eu dizia, apesar destas questões, não podemos negar a beleza que os planetas têm. São planetas vastos, diferentes entre si, com seres vivos de uma magnitude surpreendente, e com efeitos visuais muito bem conseguidos. Facilmente vão ver que as marcas das rodas do nosso Nomad ND1 vão ficar impressas na areia, ou os efeitos de iluminação, dos reflexos etc. Não vai vos deixar de surpreender nesse campo. O problema foi que a questão das texturas, das animações das caras, e os vários glitchs toldaram a visão a todos nós, e Mass Effect Andromeda será como o vinho do Porto, quanto mais tempo passar, e quanto mais estas questões forem resolvidas, porque existe de facto uma preocupação da Bioware de o fazer, melhor o jogo será.

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Fundador do Site - Salão de Jogos, o Commodore Amiga 500 foi o seu melhor amigo durante décadas e ainda hoje sabe de cor a equipa principal do Benfica do Sensible Soccer 94/95. Nos tempos vagos ainda edita as botas dos jogadores do FIFA e do PES.

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