Fallout 4: O encanto da desolação

É bom ver-te de novo Fallout. Sete anos passaram desde da última vez que te jogamos e muito mudou no mundo dos videojogos. Será que mudaste também?

Em Fallout 4 assumimos o papel de alguém que após ter saído do abrigo nuclear 111, procura respostas no meio das ruínas que outrora foi Boston, agora renomeado de Commonwealth. A informação é parca, é certo, mas dizer mais do que isto seria revelar partes importantes da história, que a meu ver deturparia a experiência. Este pode parecer um início demasiado simples, a história principal não é muito aliciante, no entanto apenas serve como rastilho. Ao seguirmos este fio condutor, damo-nos conta que o argumento vai ficando progressivamente mais complexo, à medida que nos vamos deparando com diferentes situações e ângulos opostos, vai-se construindo quest a quest, mesmo que nunca atinja o brilhantismo de um Fallout: New Vegas.

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Mas existe mais do que o arco narrativo principal, e como em jogos anteriores da Bethesda, é nas missões secundárias que Fallout 4 brilha. A Wasteland é o nosso recreio, e fazemos com ele o que bem entendermos. Há facções às quais podemos pertencer ou tornar-nos inimigos, missões que podemos ignorar ou seguir à risca. Seja passar horas a planear a casa perfeita para um verão nuclear ou matar tudo o que se mexe, tudo é permitido dentro de certos limites, nada é impingido ao jogador. Commonwealth é nossa.

É óbvio que a Bethesda investiu boa parte do seu tempo a planear esta cidade e seus arredores. Desde ruelas, planícies, florestas, pântanos, tudo é único e acima de tudo memorável. Longe vão os tempos em que o mundo de Fallout significava vastas áreas de terra e cinza, pois descobriram finalmente que existe mais cores para além dos vários tons de castanho. No horizonte vislumbram-se fachadas de várias cores, vermelhos, verdes e amarelos pintam o cenário, e onde até os raiders se vestem de cores vistosas. Sem dúvida um dos melhores mapas que a Bethesda fez até hoje.

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No entanto não é por isso que a Wasteland se tornou menos sombria. Fallout 4 é obcecado com a morte. Por toda a parte encontramos ossos e corpos mutilados. Os restos mortais contam-nos os seus últimos momentos neste mundo. Há quem tenha morrido dentro de um avião no instante em que as bombas atómicas atingiram o solo norte-americano, outras simplesmente morreram na tentativa de sobreviver aos perigos que um mundo pós-apocalíptico acarreta. E mais uma vez, é aqui que a Bethesda nos mostra o que de melhor faz, ao contar pequenas histórias ao longo do jogo, enriquecendo este mundo, tornando-o vivo. A cada carta que encontramos, nos vários logs que encontramos nos vários terminais, descobrimos ao nosso próprio ritmo a história da vida das pessoas que fazem ou já fizeram parte dele.

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Graficamente Fallout 4 deixa alguns amargos de boca. Se por um lado o mundo é vibrante, recheado de pormenores deliciosos que nos fazem tirar screenshots sucessivos, com as suas paisagens pós-apocalípticas e o design único do universo Fallout, por outro sente-se a idade do seu motor gráfico. Mesmo na versão PC com os gráficos em Ultra, as texturas tendem a ser bastante pobres, principalmente nas personagens com quem interagimos. Apesar do voice acting soberbo e de uma melhoria significativa na forma em como as personagens transmitem emoções através de expressões faciais, continua a não ser suficiente, e por vezes são estas animações datadas que acabam por nos abstrair da imersão de um jogo que é tão atmosférico. É mais que tempo de reformular de raiz as animações nos estúdios da Bethesda. Outros problemas incluem o facto de não haver um slider de Field Of View (FOV) no jogo, que no caso de Fallout 4 é gritante, devido ao enorme tamanho das armas que ocupam quase metade do ecrã. Felizmente, e como já é hábito nos jogos da companhia, desde do primeiro dia que já haviam mods que permitiam alterar o FOV, alterar o Gamma (também ele uma exclusão estranha) e outras melhorias gráficas. Outras problemas que se podem apontar ao jogo é o facto de não mostrarem os diálogos completos enquanto conversamos com um NPC. Entendo que com uma personagem principal que finalmente já ganhou o dom da fala, não faça muito sentido descrever tudo na forma de texto, mas é algo que por várias vezes me fez voltar a fazer Load de um Save, apenas porque simplesmente não era claro qual seria a minha resposta. Mas mais uma vez, os modders fazem o que a Bethesda não faz e já existe um mod que resolve este problema.

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É certo que ao longo desta aventura poderemos necessitar de auxílio, e caso não queiram ser um eremita da era nuclear, existem várias companhias com quem podemos partilhar as maravilhas da Wasteland, mesmo que uma de cada vez. Se por vezes estas personagens nos ajudam em combate, abrem-nos novas oportunidades na forma de novas quests ou até servir como mulas, na maioria das vezes só lá estão para atrapalhar. A inteligência artificial falha-nos vezes sem conta, seja porque ficaram presos numa porta ou porque correram para atacar um inimigo do triplo do seu tamanho quando tudo o que queríamos era passar ao lado furtivamente.

O combate, este, encontra-se melhor do que nunca. Nunca um Fallout se sentiu tão visceral, onde o peso de um taco de baseball contra o crânio de inimigo nos faz ranger os dentes e o coice de uma pistola de grande calibre quase que se sente através do nosso rato/comando. É incontestável que muita atenção foi dada a estas mecânicas e podemos ver claramente a influência de sistemas de combate de jogos como Borderlands ou de Destiny como já mencionado pelos próprios criadores.

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Uma das grandes novidades é o sistema de crafting existente no jogo. Finalmente todo o lixo que recolhemos tem um fim, mesmo que o diagnóstico de acumulador compulsivo nos escape por pouco. Sendo assim, latas ou ventoinhas de secretária são desmanteladas para dar lugar a paredes e tectos, isto é, tudo o que é necessário para construir o nosso apartamento de sonho no meio do apocalipse nuclear. Isto não significa apenas imensas horas desperdiçadas a planear a nossa pequena aldeia, mas também muda completamente a forma como jogamos Fallout. Se em iterações anteriores, nunca ficaríamos no mesmo sitio, atravessando a Wasteland sem rumo, aqui encontramos um porto seguro. O lugar onde nos dirigimos depois de uma missão complicada, onde guardamos todas as armas que retiramos dos corpos recentemente desintegrados pela nossa espingarda laser e reutilizamos todo o lixo encontrado para melhorar a nossa condição de vida e de todos aqueles que partilham este espaço connosco. E é fascinante perceber que por detrás do que poderia apenas mais um mini jogo, existe um sistema financeiro complexo. Com a possibilidade de estabelecer rotas comerciais entre várias cidades aliadas, lojas onde podemos vender toda a tralha que não precisamos e comprar materiais necessários para modificar as nossas armas. Também ele um sistema bem mais completo, onde podemos modificar miras, canos, entre outras.

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Fallout 4 é um jogo com vários problemas, isso é indiscutível. Este número de bugs e glitches que encontramos não deveriam existir num jogo AAA e as animações e texturas datadas deveriam ter ficado mais uns meses no forno. Mas apesar de todos estes problemas, continua a ser um prazer especial deambular pela Wasteland, descobrir todas as pequenas histórias que ela nos conta. Não é um jogo perfeito, longe disso. Talvez nem consiga a medalha de bronze no pódio Fallout, mas continua a ser uma das melhores experiências jogáveis deste ano. E com a ajuda de alguns patches e mods que certamente já estão em desenvolvimento certamente alcançará outro patamar. É óbvio que mudaste Fallout 4, mas num mundo onde jogos polidos como Witcher 3: Wild Hunt existem, ainda tens uma longa estrada para percorrer.

RECOMENDADO FALLOUT 4

 

Author Vando Enes
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Categories Análises
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