Hoje à noite mando eu!

Until Dawn é o novo jogo exclusivo para a PS4 que nos obriga a fechar as luzes e as janelas. Se bem que chamar-lhe de jogo não parece correcto nem justo. Until Dawn é mais um filme interactivo que outra coisa qualquer. Mas isto não parece assim tão inovador…Já tivemos experiências parecidas noutras ocasiões, como em Last Of Us e Heavy Rain. Como é que Until Dawn vai dar a volta para se destacar? Estes últimos títulos são mais jogos-filmes, enquanto que Until Dawn é filme-jogo. Diferença subtil, mas gigante.

Desde um elenco hollywoodesco (Hayden Panettiere, Rami Malek) a dar a cara e voz, até grandes directores de fotografia. Mas o sumo e foco principal está no guião. Os guionistas, com muitos anos de experiência a escrever para horror, tentam recriar a época clássica de horror slasher dos anos 80. A premissa é simples e muito directa: 8 amigos adolescentes a passarem um fim de semana numa casa de férias, sozinhos, no meio de uma montanha. O resto fico por nossa conta.

O nosso papel é decidir as principais acções das personagens e de vez em quando ter a certeza que essas acções são executadas com sucesso, através de timers para pressionar os botões certos nos momentos de acção. Agora, como fazer um jogo que nos agarre com a jogabilidade mais básica e repetitiva possível? Com a história. Volto a reforçar, isto é um filme e pela primeira vez vamos poder decidir o que fazem os personagens em vez de ficarmos a gritar para o ecrã: “Burro, porque é que foste entrar aí? Está lá o gajo de certeza…”. Sempre que algum dilema ou decisão surge no diálogo temos de escolher uma entre duas ou mais hipóteses. Nesse momento o jogo pára e só volta a avançar quando nos decidimos. Um dos mecanismos principais é o sistema de Efeito Borboleta, em que uma pequena acção pode levar a um grande acontecimento. Sempre que tomamos uma destas decisões somos avisados de quando ela teve um grande impacto na história e é feito um auto-save que nos impede de voltar a trás. Se mataste alguém, continua, essa personagem já foi e vais continuar a noite sem ela.

“Burro, porque é que foste entrar aí? Está lá o gajo de certeza…”

A história começa ao fim da tarde e acaba de madruga, Until Dawn. Podemos perfeitamente fazer o filme todo a despachar. “Eu quero é ver quem é o assassino”. Mas ficamos a perder muito, mesmo. Esta mansão de férias está repleta de dicas e objectos que nos ajudam a desvendar o mistério. Temos dezenas de pistas referentes a várias personagens que nos contam alguma coisa extra e totems que nos revelam premonições. Estes últimos dividem-se em premonições de Morte, Perda, Sorte, Perigo e Ajuda. Depois de coleccionarmos todos os totems dessa secção podemos ver a premonição até ao fim.

Mesmo se decidirmos continuar o jogo sem prestar atenção nenhuma a isto ainda temos muito para nos entreter: as personagens. Desde as irritantes que claramente vamos matar assim que tivermos oportunidade até ao pateta que provoca aquelas gargalhadas do canto da boca. Mas que se calhar também queremos matar. A cena fixe é que estas personagens não são estáticas nem secas. A personalidade delas e as relações entre elas adaptam-se às nossas decisões, e isto vai mudar as escolhas que nos são dispostas. Clarificando: se eu decido beijar a namorada do meu amigo provavelmente quando falar com ele outra vez a conversa vai ser mais azeda e até pode haver uma opção que nos leve a andar à porrada. Depois disso ficam os dois com a testosterona aos saltos e isso vai nos dar ainda mais escolhas diferentes. Às vezes parece uma grande experiência social…e eles sabem disso. Entre cada capítulo conversamos com um misterioso psiquiatra que vai analisando a maneira como estamos a “jogar o jogo”. Faz-nos umas perguntas que por vezes nos fazem sentir como se estivéssemos mesmo numa consulta, e avançamos para o próximo capitulo. Mais um mistério a desvendar. Ainda não “evoluí de nível” ou não usei nenhuma espada, mas quero ver como isto acaba.

Vamos ganhando afinidades e animosidades pelas personagens, sentimos que estamos num filme em vez de estar só a vê-lo. Tal como numa longa-metragem ou série não ficamos apenas focados nas acções de uma pessoa ou entourage. Corta para um grupo, chega a uma situação climática, corta para outro. São 8 adolescentes e vamos poder usar todos durante a história toda. No fim vamos à internet comparar os resultados. Com quantos vivos ficaste? Quem é que era o assassino na tua história?

Essa é outra beleza do jogo, podemos perfeitamente completar as 9 horas de jogo sem matar ninguém ou até matar toda a gente. Vai ser sempre diferente. A falta de mecanismos ou acção é compensada pela abundância de possibilidades e mistérios. Mesmo que o fim da minha história seja igual ao do meu amigo o caminho que fizemos até chegar lá pode ter sido completamente diferente.

Eu pelo menos quero acabar o jogo com tudo morto. E sim, mete medo e quero ver como acaba.

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