O angustiante Hellblade

Lançado no dia 8 de Agosto, Hellblade: Senua’s Sacrifice tem passado discretamente no radar dos jogadores, no entanto, para quem já teve a oportunidade de jogar o novo título da Ninja Theory, dificilmente ficou indiferente.

Apesar de em termos de género nada oferecer de novo, por outro lado, Hellblade é um jogo praticamente distinto de tudo o que conhecemos, abordando o assunto sensível da saúde mental.

A decorrer num mundo de mitologia nórdica e carregado do misticismo e do mistério característicos ao tema, é notavelmente conseguido algo que acaba por ser indispensável: em Hellblade, não há um único minuto de conforto, porque a tensão, essa, é constante.

Hellblade: Senua's Sacrifice | Official Trailer | PS4 & PC

A história é confusa como deveria ser, porque antes de um jogo, HB pretende ser uma experiência, e uma deveras perturbante, onde viajaremos pelas várias psicoses e alucinações de Senua, a protagonista. Dito isto, não irei entrar em pormenores, uma vez que é uma história sobre amor e culpa, e merece verdadeiramente ser descoberta. É tudo tão cru, que é quase impossível não nos sentirmos afetados pelas emoções mais obscuras de Senua.

Hellblade desenlaça-se por meio de uma narrativa construída através de alucinações e em forma de visões e vozes que, durante as 8 ou 10 horas de jogo, nunca nos deixam ter o mínimo de paz. O suspense está sempre presente, acompanhado por uma sensação incessante de incómodo, contudo, sem entrar no campo do horror.

Entre as muitas peculiaridades, salta à vista a curiosidade de haver morte permanente, isto porque cada vez que Senua morre, uma praga vai gradualmente percorrendo o seu corpo, e quando o consome na totalidade, todo o progresso até então é perdido, voltando tudo ao início. Ou seja, todo o cuidado é pouco.

Hellblade: Senua's Sacrifice | Dev Diary 29 | The Final Push

A jogabilidade é o que se deve esperar de qualquer criação da Ninja Theory, que aproveitou a bagagem ganha com jogos como Devil May Cry para proporcionar momentos entusiasmantes e cheios de acção. Apesar de os puzzles serem uma parte importante, é nos combates que Senua irá tentar vencer os próprios demónios. A mecânica é simples, mas bastante funcional e não será uma desilusão para ninguém. Depende essencialmente de escolher os momentos certos para atacar, defender e esquivar, com cada inimigo a oferecer desafios e dificuldades diferentes, sendo que alguns são autênticas dores de cabeça.

Contam-se pelos dedos de uma mão, o número de jogos que logrou atingir o nível visual de Hellblade, superando em larga escala títulos com orçamentos infinitamente superiores. Uma obra de arte, que nos faz pensar até onde o digital se poderá aproximar da realidade.

Porém, não é só visualmente que consegue surpreender, visto que, ao nível do som, traz a novidade de ter sido gravado em 3D Binaural, um sistema sonoro usado em terapias de relaxamento, que claro, aqui consegue precisamente o efeito contrário. Os auscultadores são altamente recomendados e diria mesmo obrigatórios, para uma envolvência única, como nunca a nossa audição testemunhou num videojogo.

Hellblade: Senua's Sacrifice | Original Soundtrack | Gramr

Hellblade prima especialmente pela originalidade, e será certamente daqueles jogos dos quais não nos esqueceremos. Alguns puzzles, por vezes, podem cortar ligeiramente o ritmo e funcionar no sentido inverso ao desejado, todavia, tudo aquilo que tem de bom, suplanta na totalidade os raríssimos defeitos que possamos encontrar. Sublime.

Author Nuno Mendes
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Categories Análises Pc e Mac
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