O episódio mais sombrio da saga Tales

Tales of Berseria está aí, o décimo sexto título da serie Tales, mantendo todos os condimentos que se tornaram fundamentais da saga, contudo na sua versão mais sombria até à data. Um verdadeiro JRPG na sua génese, com todas as características que acabam por ser o rosto do género, nomeadamente na força que o drama tem na história e nos diálogos sem fim, levando o jogador a consubstanciar-se com os protagonistas – cada um interessante na sua construção.

Tales of Berseria oferece uma versão alternativa do que é suposto ser o papel de um herói, opondo-se vigorosamente contra os finais-felizes e transportando-nos para o transtorno que vivem os intervenientes. O desenvolvimento de cada personagem acontece gradualmente, percorrendo em particular a face mais escura da alma. Visível como cada acontecimento vai interferindo nas suas personalidades, orientando no caminho da perdição. Contudo as suas transformações não nos chegam apenas no aspecto emocional, são também materializadas em formas demoníacas, justificando a base da sua história – a vingança implacável e a doce entrega à cólera da protagonistaVelvet Crowe.

O objectivo em Tales of Berseria está na própria descoberta, sem pressa, deixando o enrendo desenvolver-se por si e recorrendo frequentemente às cutscenes e aos intermináveis diálogos que nos vão situando na respectiva história. Sim, os diálogos são uma parte central do jogo e um profundo teste à nossa paciência, passando igualmente por missões paralelas em grande parte irrelevantes e um pouco aborrecidas. Para quem, como eu, prefere algo que se vá revelando mais rapidamente, é um pequeno martírio a lentidão como tudo vai progredindo. Não mancha contudo a base da sua história – interessante, por vezes até empolgante e para quem gosta e está habituado ao estilo de Tales, não será por aqui que se verá traído.

O melhor de Tales of Berseria encontra-se na mecânica de combate, com influências RPG, Turn-Base e Hack and Slash, resultando em variadíssimas combinações e possibilidades. A introdução do Soul Gauge é a principal novidade nesta edição e muda completamente o modo como abordamos as batalhas, uma vez que condiciona as opções que temos a dado momento, assim como o poder de certas habilidades. Por exemplo – Um Soul Gauge no máximo permite escolher entre um pequeno conjunto de habilidades especiais, todavia, quanto mais perto estiver de esgotado, mais facilmente os inimigos conseguirão esquivar-se dos nossos golpes.

À excepção do início, onde os combates são mais ligeiros e funcionam como tutoriais, uma vez que é entendido o sistema (confesso que me debati um pouco no começo), os combates tornam-se repletos de acção, oferecendo uma verdadeira sensação de que a estratégia é crucial para que a vitória sorria para o nosso lado, até porque tudo tem de ser planeado e coordenado rapidamente entre todos os membros do grupo e apesar de não ser fácil, é onde está a satisfação.

Os combos são acompanhados de efeitos que dão realmente gosto em conseguir e mais uma vez, o Soul Gauge tem um papel fundamental, ditando o quanto irá durar a sequência. Os controlos respondem quase sempre bem, são fáceis de memorizar e a câmara acompanha com mestria todo o frenesim que constantemente se instala a cada vez que os combos se prolongam por vários hits e claro com música a condizer muitíssimo bem com o momento. Há que dizer que não deslumbra graficamente, diria mesmo que está algo datado tendo em conta o que podemos ver nos jogos de última geração, contudo é ainda assim bastante aceitável e compensa na fantasia dos seus inúmeros efeitos durante os combates. Já a parte artística, sendo japonesa, nunca consegue desiludir e continua a fazer jus à tradição da Bandai. Não necessariamente nos cenários, que não oferecem nada além do razoável, mas sim nas diversas Cutscenes, às quais podemos assistir durante o desenvolvimento da história, sendo talvez uma das facetas mais atraentes em Tales of Berseria.

A exploração dos mapas não é claramente onde a Bandai Namco mais investiu e quem privilegia a descoberta em jogos de RPG verá este como um dos pontos a desfavor. É de uma simplicidade quase gritante e tudo está revelado à partida, o que nos leva a determinada altura aceder sempre que podemos ao fast-travel, uma vez que não há sentido em percorrer o que não existe para ver. Os Treasure Chests, as Battle Arenas e os Minigames são realmente pouco em relação àquilo que estamos habituados num RPG e são raros os “imponderáveis” nos estão reservados quando tentamos encontrar algum sentido de aventura. Tudo parece fazer parte de um guião que está ali para ser seguido à risca, sem que, por nenhum momento possamos dizer que ficámos verdadeiramente surpreendidos.

Musicalmente é fiel ao género e aos antecessores. Está bem estruturado para responder aos diferentes momentos e às passagens que montam o título, especialmente nos combates, onde consegue suscitar o entusiasmo naturalmente. As vozes e as próprias dobragens podiam estar melhores, no entanto, cada uma delas transmite uma identidade diferente, o que acaba por escapar.

Terminando – Tales of Berseria não será para todos, é essencialmente uma saga de culto, tentando agradar principalmente a esse público-alvo e nesse sentido corresponde ao que se pretende. É mais um episódio na história e mesmo sendo diferente dos restantes, será certamente interessante para os fãs mergulharem neste conto mais negro. Quem jogou os anteriores não sairá desiludido, uma vez que os componentes fundamentais à serie continuam todos lá.

Author Nuno Mendes
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