O fim de um cavaleiro?

Depois da nossa breve descrição do jogo para os leitores do Jornal Metro, agora mergulhamos a fundo naquilo que é e representa o jogo Batman: Arkham Knight.

E digo-o não de uma forma inocente, mas com a perfeita noção que a Rocksteady colocou aqui um problema deveras complicado para todos os jogos do género que se seguirem a este.

Porque a verdade é que muitos tentaram fazer um jogo verdadeiramente cinematográfico, em que essa experiência fosse exultada e ficaram-se pelo meio caminho. Ficaram-se pelo brilhantismo gráfico, pelos caminhos pré-traçados, pelos mapas fechados e pelo combate pré-definido. Ora pois bem, foi exactamente todas essas barreiras que Batman: Arkham Knight veio quebrar.

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O que quero transmitir fundamentalmente nesta análise é que por vezes não podemos deitar areia para os olhos e retorquir a realidade para parecer bem, há que fazê-lo bem, e a Rocksteady juntamente com a Warner Bros. Games entregou (aos jogadores das consolas), um jogo que roça a perfeição em todos os elementos.

Fico feliz por ter sido adiado para chegar a este patamar, para oferecer todo o enorme conteúdo que vamos encontrar num jogo apenas e só em modo single-player, mas que nos entrega várias e várias missões secundárias para perdermos horas e horas a fio depois de completarmos a história principal.

Falando ainda num aspecto geral dizer que o que sustenta este jogo é a sua fenomenal história, que para os mais atentos e seguidores lembrará de imediato e com um sorriso na cara o seminal “The Killing Joke”, o comic de 1988 de Alan Moore e Brian Bolland.

Spoiler Alert!

Para quem não conhece, em The Killing Joke, assistimos a muitos dos acontecimentos de Arkham Knight (spoiler) – a Joker disparar sobre Barbara Gordon deixando-a para paraplégica, a raptar Jason Todd, o segundo Robin e supostamente a matá-lo, a raptar Jim Gordon, mas principalmente a mexer na cabeça de Batman como mais ningúem é capaz. O pretexto para tudo isto, é demonstrar como o Batman não é melhor do que ele, Joker. Que no fundo por mais que tente salvar as pessoas, apenas as irá envolver e com isso, matá-las, mesmo que indirectamente, mas por estarem ligadas a si. Uma ideia inteligentíssima, na minha opinião e a demonstrar a constante fragilidade que é não matar os seus inimigos, deixando os seus próprios amigos à mercê daqueles que ele apenas capturou mas que nunca decidiu matar. Arkham Knight é o retrato disso mesmo, continuando a spoilar o jogo, mas sendo extremamente pertinente para a avaliação do mesmo, Jason Todd ser o Arkham Knight faz todo o sentido nesta história, ele foi raptado pelo Joker, foi torturado e morto, “supostamente”. Mas a história que Joker contou a Jason é diferente, para Jason ele foi torturado pelo Joker porque o Batman nunca foi atrás dele, durante um ano de tortura. No final de contas, Joker criou Arkham Knight através do maior medo de Batman, o de falhar aos seus próprios amigos.

Fim de Spoiler

Voltemos a aquilo que podemos desvendar sem spoilar a história do jogo. Batman: Arkham Knight acontece na fatídica noite de Halloween, onde Scarecrow ameaça lançar a sua toxina do medo em toda a Gotham, fazendo com que toda a cidade seja evacuada, ficando apenas os criminosos e a polícia. Uma noite longa para Batman e companhia como de resto ele próprio diz no início do jogo. É claro que não será algo tão linear assim, Batman terá que evitar que Scarecrown lance a toxina, mas terá que enfrentar toda a corja que ficou em Gotham e ainda o enigmático Arkham Knight, que no fundo será mais personagem principal do que Scarecrow.

O desenrolar da história, desta vez é muito mais complexo do que qualquer outro Arkham, cheio de “twists and turns” quase que nesse sentido parece um Metal Gear Solid, o que poderia ser uma tragédia se não fosse tão bem feito e escrito. Aliás temos que referir que nesse sentido, o facto de Paul Dini, o escritor dos dois primeiros jogos ter sido “afastado” e substituído pelo grupo de escritores da Rocksteady, liderados por Sefton Hill e aconselhado pelos escritores da DC Comics, Martin LancasterGeoff Johns poderá ter sido fulcral para o desenvolvimento da história.

A verdade é que para além desta história central, teremos muitas outras personagens que vamos encontrar ou reencontrar, definindo até aquilo que poderá ser o futuro da saga. Não querendo desvendar de mais, há pelo menos uma personagem que demonstra esse sentido, para aquilo que é efectivamente o fim de uma trilogia.

Apesar de Batman: Arkham Knight atingir este grau de “perfeição” na história, tudo poderia ruir pela sua jogabilidade, algo que mais uma vez não acontece e até surpreende. Digo surpreende porque o facto de podermos utilizar o Batmobile poderia tornar-se uma limitação a várias níveis, não só na concepção dos níveis, mas também da mobilidade que Batman teria. Pois bem, a Rocksteady foi muito inteligente nesta abordagem, o Batmobile é um artifício como tantos outros que Batman utilizará, mas nunca o core do jogo. Vamos poder utilizar o Batmobile para nos deslocarmos, para utilizarmos em muita missões secundárias e em puzzles durante o jogo, seremos por vezes obrigados utilizá-lo mas sempre com propósito. Apesar de toda a gente querer um Batmobile para conduzir, acho que uma foi decisão sábia não girar o jogo em torno dele e racioná-lo de forma a que o jogador nunca o sentisse.

Até porque voar é incrível, a deslocação de Batman e a suas enormes asas com os raios de luz a serem reflectidos na sua capa, com as gotas de água a escorrem capa abaixo e com a cidade de Gotham a nossos pés, é talvez das imagens mais bonitas do jogo e onde a capacidade gráfica da nova geração ( jogámos a versão Xbox One) vê o seu auge.

Como dizia, pelo facto de a deslocação pelo ar ser extremamente eficaz e rápida, existe um equilíbrio entre querermos voar ou andar no nosso Batmobile, para além disso nas missões que envolvam uma abordagem mais stealth será muito mais eficaz.

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Já que entrámos no campo das abordagens, falar das mecânicas, o modo de combate a que a Roksteady nos habitou e até já viu a ser copiado, está de regresso, com os seus combos meticulosos, com a possibilidade e facilidade de envolvermos nossos gadgets nesses mesmo combos ou até de envolvermos o Batmobile na sua execução. Os finishers também estão de volta com as suas pequenas cinematics, infelizmente não sendo assim tão variadas como desejaríamos.

Falando em Batmobile, e existindo ele pela primeira vez temos que referir como sentimos o seu manejar, e podemos dizer que a primeira interacção não foi assim muito fácil, mas isso teve a ver com uma opção tomada pela Rocksteady de atribuir o botão de travão ao X (no caso da Xbox One), o que nos baralhou o sistema e complicou as primeiras manobras. Devo dizer que talvez tenha sido dos poucos que se tenha mantido fiel a essa opção durante todo o jogo e no final percebi que existia razão para isso, pois para quem não sabe, o LT é utilizado para entrar em Modo Batalha e RT como acelerador, e por mais que possa parecer estranho quando queres rapidamente mudar do Modo Batalha para acelerar e fugir a combinação é muito melhor do que utilizando outra tecla qualquer.

Largando as teclas e o comando e falemos agora da componente visual, até porque queremos incluir a versão PC neste campo e dar conta do problema que os PC Gamers vivem.

Sendo a nossa análise baseada na versão testada, a da Xbox One, comecemos por aí, Mesmo com o Unreal Engine 3 na sua base, Arkham Knight é um dos jogos mais avançados das consolas da nova geração. As versões da PS4 e Xbox One são bastante semelhantes, perdendo a a consola da Microsoft  com os seus 1600×900 convertidos causando mais pixel-crawl em edifícios à distância, sendo acentuado pelos efeitos pós-processamento onde uma passagem de aberração cromática reforça o efeito do pixel-crawl em cenas com mais iluminação. Fora isso o jogo corre nuns estáveis 30FPS tendo apenas algumas quebras na utilização do Batmobile.

No entanto deverá ser precisamente na questão dos frames, neste bloqueio a 30FPS que as consolas constantemente se vêm aplicados, contrariamente aos 60 FPS que são o exigido pelos PC Gamers que a grande questão da péssima portabilidade para PC que a Rocksteady fez. Melhor dizendo, que a Rocksteady entregou a um grupo de 12 pessoas da Iron Galaxy Studios para fazer. Podemos especular o porquê da decisão ou até mesmo da escolha de estúdio para o fazer, mas o problema central é o terem feito e o resultado que teve. Como já noticiamos no nosso site, o jogo tinha vários problemas, ao ponto de a Rocksteady decidir o tirar do mercado e trabalhar nele afincadamente para entregar o jogo que todos os PC Gamers desejam e merecem. Poderíamos escrever mais uma página a dissertar sobre o assunto, sendo que podem ler este nosso artigo isso, mas neste caso apenas queremos salientar que a Rocksteady meteu os pés pelas mãos com a questão da portabilidade e quase que arrastou as versões das consolas com esta questão. De facto é incompreensível como é que o jogo para PC saiu naquele estado, e como é que uma companhia deixa que isso aconteça, (sabendo ou não).

Voltando à versão analisada e para concluirmos, não podemos deixar de dizer que fora este pequeno/grande episódio em volta da versão PC, talvez tenha impedido a Rocksteady de apresentar o melhor jogo do ano em multi-plataformas, mas nós analisando a versão da Xbox One, apenas podemos dizer que foi o melhor jogo que jogámos este ano em todos os aspectos.

Como dizia no início, Batman: Arkham Knight é a verdadeira experiência cinematográfica que queremos, em “mundo aberto”, com a possibilidade de nos deslocarmos e de procuramos os nossos objectivos, sem caminhos trilhados ou a sermos atirados para algum lado. É um jogo baseado numa das melhores histórias de sempre do Batman e isso mais uma vez faz com que seja um jogo brilhante. Uma boa narrativa faz um excelente jogo e isso acontecerá sempre.

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Categories Análises
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Comments (1)

  • Julho 7, 2015 at 8:27 pm
    Como fã do Batman desde os 5 anos, posso dizer que é o melhor jogo que já joguei desta personagem. A alteração a uma personagem relativamente recente (que já se tornou clássica) para o Arkham Knight, o recontar de históricas clássicas como Jason Todd, Barbara Gordon, Killing Joke. 5 estrelas!

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