Jogos furtivos, há muitos. Deus Ex, Splinter Cell, Dishonored, todos eles têm como mecânica principal de jogo manter-nos elusivos em relação ao inimigo. Mas Styx: Shards of Darkness é diferente, não por se opor a estas mecânicas, antes pelo contrário, este é um título bastante tradicional dentro do género, diferencia-se sim pelo seu universo de fantasia. Elfos, anões e humanos habitam este mundo, onde Styx, um goblin com mau caráter se movimenta por entre as sombras.

E este é também outro dos seus elementos diferenciadores, não vão encontrar aqui um protagonista bem parecido, cheio de charme e com objectivos superiores. Styx é a antítese deste molde, baixinho e verde, o nosso protagonista é essencialmente um ladrão com padrões morais questionáveis e uma higiene pessoal ainda pior. Conhecido pelo seu mau feitio, Styx não perdoa nem o jogador, e frequentemente quebra a “quarta parede” para insultar quem o controla, mostrando o seu descontentamento com o dedo do meio ou referenciando piadas de filmes do fim dos anos 90. Certamente haverá quem o odeie após algumas horas, outros encontrarão um charme distorcido na personagem, mas dificilmente será indiferente.

No entanto, Styx: Shards of Darkness é como dissemos um jogo tradicional de Stealth, assemelhando-se mais a um Thief da velha guarda do que um Dishonored. Existe um sistema de combate, mas este é extremamente limitado, onde apenas podemos aparar o golpe do inimigo e contra atacar. Assim, qualquer interacção de frente para o inimigo normalmente acaba na morte de Styx, não só porque as nossas hipóteses num combate um contra um são quase nulas, mas sim porque no momento em que alguém nos põe a vista em cima, parece que todos os inimigos se comunicam entre si telepaticamente e projectam toda a sua ira em nós. Golpes de espada, flechas, tudo é arremessado à nossa personagem ao mesmo tempo, fazendo que tecnicamente, a fuga não seja uma opção viável. Acabamos por fazer Quickload a cada vez que somos apanhados e seria preferível que o jogo assumisse que ser visto significa recomeçar de novo e não nos iludisse com a hipótese de fuga.

E mesmo que a fuga fosse uma alternativa mais acessível, continuaríamos a ter algumas queixas. O controlo de Styx não é perfeito. Por várias vezes, distâncias que nos parecem possíveis acabam com o protagonista a estatelar-se no chão e connosco a pensar no que raio aconteceu. Ao saltarmos nem sempre acertamos nas arestas dos edifícios e há uma sensação de que flutuamos como uma pena no ar por uns momentos cada vez que saltamos, levando a vários momentos de frustração, agravados pelo facto de que cada vez que morremos o pequeno goblin põe a culpa em nós. Não Styx, não estamos a usar o comando com os pés, tu é que não sabes saltar. Fora isso, as animações e os movimentos da personagem são sólidos, e dá gosto navegar pelo mapa, subindo telhados e escolhendo o melhor caminho para o nosso objectivo.

Mas Styx tem na manga alguns truques para o ajudar a não ser visto, tal como a habilidade de criar um clone através do seu próprio vómito e assim arriscar a pele do seu clone e não a sua, ficar invisível durante uns segundos ou simplesmente atirar objectos para criar distrações, e é claro, podemos também usar o nosso punhal para espetar nas costas dos nosso adversários enquanto estes olham fixamente para a jarra de vidro que acabamos de atirar para o chão. O que nos leva à inteligência artificial destes nossos inimigos, e sejam eles humanos normais ou anões com um faro apurado ao nosso odor corporal, em muitas ocasiões não são muito inteligentes, ficando presos em objectos ou por outras destinados a repetir um só caminho para todo o sempre.

Styx: Shards of Darkness é frequentemente um regalo para os nossos olhos, o motor gráfico Unreal 4 consegue mostrar com distinção tudo aquilo que os criadores imaginaram. Na maioria dos casos, os mapas são desenhados na vertical, conseguindo assim exibir vários tipos de arquitectura à medida que avançamos, desde caves subterrâneas, a barracões de madeira e até ao topo, perigosamente posicionados no cimo de torres medievais. Seja à luz das velas em masmorras escuras ou o reflexo do sol na pele verde de Styx, a iluminação e o uso de cor conseguem criar ambientes distintos entre as várias zonas, gerando assim diferentes emoções no jogador em cada uma delas. Infelizmente, são usadas texturas de baixa resolução em algumas zonas, prejudicando assim a experiência visual total.

Quanto à experiência auditiva, Shards of Darkness consegue surpreender e a banda sonora é uma mistura eclética de temas orquestrados e outros mais electrónicos, variando perante uma situação mais tensa ou algo mais descontraído. O som dos passos e vozes ajudam-nos a perceber onde se encontram os inimigos e para que direcção havemos de ir. Temos pena é da fraca prestação dos actores de voz dos inimigos comuns, que parecem que estão a ler o texto pela primeira vez, principalmente em contraste com a excelente prestação de voz de Styx, mesmo quando as piadas são óbvias ou os comentários irritantes, não conseguimos deixar de apreciar a entrega do actor à personagem.

Tal como o seu protagonista, Styx: Shards of Darkness é por vezes um pouco bruto. Sente-se a falta de alguma atenção ao detalhe e por vezes falhamos por culpa de defeitos na mecânica do jogo. No entanto, é sem dúvida um título único e dificilmente encontramos um jogo com uma personalidade tão vincada. E num género onde o protagonista é normalmente do tipo forte e silencioso, um goblin desbocado é uma lufada de ar fresco.

 

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Redactor

Nascido e criado numa ilha dos Açores, passou os anos formativos dividido entre os sons do gira-discos e do Spectrum 48K. Jogou nas consolas da Nintendo e devorou a era dos 486, Pentiums e Voodoo's em SLI. Ávido consumidor de tudo que é tecnologia, tem no PC a sua arma de eleição.

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