Um regalo de sangue!

A id Software sempre viu Doom como a sua jóia da coroa e a verdade é que os três títulos anteriores seguiram sempre tiveram um enorme sucesso, não desiludindo os fãs mais identificados com a saga. E convêm também lembrar que a id Software foi também a responsável por desenvolver Quake, Quake 2, Quake 3 Arena e Quake 4, e se para já esta menção pode parecer um tudo ou nada deslocada, mais à frente fará sentido certamente.

Doom e Doom 2 foram criados com uma palavra em mente: velocidade. Embora os comandos fossem básicos (frente, traz, virar para a direita, virar para a esquerda e disparar), a jogabilidade em si na altura foi revolucionária e utilizou o motor de Wolfenstein 3D, também desenvolvido pela id Software. Teve tanto sucesso e foi tão marcante que um dos anúncios do Windows 95 foi feito com Bill Gates e o jogo Doom, como podem ver no vídeo abaixo.

Doom 3 contudo, foi o reiniciar a série, com uma abordagem ligeiramente diferente, mais virada para o terror, e com uma jogabilidade diferente dos jogos anteriores, menos frenético e dependente de um ambiente sombrio e com uma história cuidada, com mais conteúdo, bem pensada e com personagens com os quais podíamos interagir. Nesse aspecto, precisamente o oposto de Doom e Doom 2 que não investiram tanto na história, até porque esta desenrolava-se apenas e só na forma de texto, algo normal nos jogos daquela época.

Quero com isto chamar a atenção para o hábito de a id Software pegar nesta franquia para fazer algo único e inovador e criar aquela experiência que para quem jogasse não ia esquecer com certeza.

Antes de começarmos a falar do título mais recente, para quem não sabe, Doom é um first person shooter (FPS), cujos inimigos principais são e sempre foram demónios assustadores e sedentos de sangue, normalmente para jogadores a partir dos 18 anos.

Este novo Doom foi mais uma vez um reiniciar da série, fugindo ao estilo de Doom 3 e tentando a aproximação ao primeiro Doom (1993), e como podem imaginar não é fácil uma conversão com 23 anos de distância.

O jogo começa com o bem conhecido Doomguy a acordar em cima de um sarcófago, precisamente no momento em que três demónios na mesma sala, estão prontos para lhe fazer a folha, mas sendo o nosso herói um verdadeiro “bad ass” sem medo de coisa alguma e possuído por uma fúria interior, rebenta literalmente a cabeça de um deles, destruindo os restantes sem piedade. De seguida é-nos mostrado que ali aconteceu algum tipo de ritual, mas pouco mais do que isso, uma vez que na sala ao lado já estamos a vestir o nosso uniforme e completamente prontos para a carnificina.

Para resumirmos a história sem muito revelar, podemos dizer que uma organização mundial chamada Union Aerospace Corporation (UAC) decidiu fazer algumas experiências em Marte, descobrindo um portal directamente ligado ao Inferno, que após as já habituais “invenções” por parte dos humanos, acabou aberto e libertando assim os demónios sobre Marte, e como consequência, quando começamos o jogo, praticamente todos os trabalhadores dessa organização se encontram mortos ao longo do planeta.

Como podem ver a história não é propriamente elaborada, embora se se explorar bem o jogo iremos obter muita informação perdida, o que facilita quando tentamos compreender tudo o que se passou no planeta, e quais foram aos responsáveis pela tragédia. Ao contrário de outros jogos, a história em Doom é o menos importante, visto que o importante é simplesmente matar demónios do modo que nos der mais satisfação, mostrando sempre aquela classe sanguinária que caracteriza o protagonista de Doom.

A pergunta que se impõe depois disto é, será que Doom conseguiu aproximar-se do seu original? Bom, a resposta não é simples. Existem vários pontos onde se aproximou bastante, no entanto, para se chegar às ideias de um jogo com 23 anos e criar um produto para novas gerações, é necessário alterar muita coisa. Sendo assim, vamos separar o tema por tópicos.

A velocidade é um dos pontos em que o jogo está praticamente idêntico, tanto que nos movemos quase como se tivéssemos calçados uns patins, a uma velocidade absurda. Doom foi mesmo construído nesse sentido, o que nos obriga a nunca podermos estar parados, numa acção constante, com demónios a surgirem de todos os lados, sem tempo para pensar. Simplificando, a ordem é ir para cima.

Também não existe a possibilidade de recuperar energia, nem escudo energético, outro factor em consonância com o Doom original e que caracteriza mesmo os jogos da velha guarda, sendo que a única regeneração acontece somente recolhendo determinados items pelo caminho que repõem um número fixo tanto da nossa energia ou escudo. Portanto esqueçam a ideia de ficarem escondidos até se restabelecerem, pois não vai acontecer, isto é Doom.

Os movimentos divergem do original, mas era esperado, muito mudou nos FPS entretanto e uma actualização era obrigatória, nomeadamente na inclusão do salto. Era óbvio tinha de sofrer algumas alterações, mas intensidade/velocidade do jogo estão boas, que é o mais importante.

As armas constituem um dos pontos fortes de Doom e tal como nos anteriores temos quase todos os tipos de armas que possamos imaginar. Um autêntico regalo para o nosso Marine, e sim, temos a famosa BFG ou como muitos gostam de chamar Big Fucking Gun, sem esquecer a nossa querida e Motosserra. De referir também a possibilidade de agora se poder melhorar as armas, o que é sempre um aspecto interessante.

Agora vamos à parte que mais me impressionou em Doom e a que também mais me divertiu, por sinal, e usando uma expressão de Mortal Kombat, os variadíssimos “Finish Him” que podemos fazer ao inimigo. Em uma palavra: fantásticos! Enchem-nos as medidas e são a verdadeira cereja em cima de toda esta enorme carnificina.

Uma das novidade existe sob a forma de Runas, que nos dão alguns extras, como aumentar o tempo de atordoamento dos demónios, entre outras coisas, e para isso terão de completar os desafios propostos e tudo concebido de uma forma interessante.

Claro que Doom sem “Bosses” não é a mesma coisa, e claro, também os temos por aqui. Ainda que diferentes, mas com um ponto em comum, cada um com a sua estratégia, o que nos força a ser mais pacientes e perceber primeiro os movimentos e assim saber quando atacar, o que marca a diferença para o resto do jogo cujo objectivo é não parar por um segundo e estar sempre ao ataque.

Também os demónios têm semelhanças com o original e podemos mesmo encontrar alguns demónios do primeiro Doom, todos com as características diferentes.

Chegando ao Multiplayer não vale a pena nos alongarmos muito, é simplesmente mais do mesmo, Team Deathmatch, Domination, Clan Arena, Soul Harvest, Freeze Tag e Warpath, os Modos mais comuns na maioria dos jogos. Na minha opinião, claramente um dos pontos negativos, uma vez que a Id Software já nos mostrou em outros jogos aquilo de que é capaz, especialmente no mercado dos FPS, criando referências que revolucionaram o mundo dos vídeo-jogos.

A implementação do SnapMap foi uma excelente ideia, um editor que nos permite construir os nossos próprios mapas e partilhá-los com a comunidade, e podem até ser jogados em modo cooperativo com os vossos amigos. O que significa que nunca faltarão mapas e novos desafios.

Graficamente o jogo está fantástico, é um regalo para os olhos, os cenários estão muito bem desenhados, o jogo é passado tanto na superfície de Marte e nas instalações da UAC, como no Inferno. Em qualquer uma das situações os cenários estão com um detalhe acima da média, enquadrando-se perfeitamente no jogo.

A banda sonora como já é habitual em qualquer Doom é rock puro, num ritmo poderoso, o que ajuda a entrar rapidamente na onda do jogo, e qualquer uma das músicas corresponde bem às respectivas situações. A herança aqui foi seguida à risca e muito bem, porque o Rock e o Metal sempre foram uma das imagens de marca de Doom.

Todavia, nem tudo são rosas, o estilo bastante “arcade” do jogo faz com que muitos jogadores possam não se identificar com esta versão, principalmente os mais fieis ao anterior, Doom 3.

Aparenta ser também algo repetitivo, com cerca de 10 a 15 horas de jogo, e neste estilo bastante “arcade”, é possível que se torne aborrecido eventualmente. Não é propriamente um jogo para todos os fãs de FPS.

No geral podemos dizer que o regresso de Doom é bom para toda a comunidade, nota-se claramente que foram buscar algumas das características do original, mas também abraçaram muitas ideias de outros jogos onde a id Software já teve muito sucesso, como Quake 3 Arena. Posso mesmo dizer que Doom é uma mistura dos dois, acompanhado de um grafismo brutal e uma banda sonora que assenta que nem uma luva neste jogo. Não trazendo nada de novo, porém e sem atingir o impacto que o primeiro teve no mercado, sendo no entanto sempre bom reviver um jogo tão nostálgico.

 SimENaoDoom

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