Talvez por causa do hype que foi gerado através da apresentação na E3 o ano passado, e do consequente hype que foi gerado desde então e alimentado até certo ponto pela Ubisoft, temos que começar esta review por uma questão que será deveras importante para o entendimento desta. Recentemente na apresentação do jogo na véspera do seu lançamento na Fnac do Colombo e junto dos meus camaradas Pedro Romão da Escape Rope e Ricardo Correia da Rubber Chicken, abordámos até que ponto Watch Dogs não estaria já influenciado em demasia devido ao hype já gerado, ao adiamento e às comparações gráficas que demonstravam um verdadeiro downgrade. Ora bem nessa mesma conversa em tom generalizado esperávamos que a história pudesse suplantar todos os pontos gráficos que poderiam precisar ainda de ser limados. Mais ainda, esperávamos que a jogabilidade e o mundo aberto apresentado aliado à componente online desse uma longevidade e uma diversidade que apenas pudesse ser comparado a um monstro como o GTA V. Mas mais importante do que tudo isto, seria ver como um poder tão grande e imenso como é hoje o controlo da “Rede” poderia ser aproveitado, primeiro para que a história não fosse redundante, segundo para que num primeiro momento Aiden não pudesse lançar uma ogiva nuclear e resolver o assunto (desculpem o exagero), terceiro como a co-relação entre as várias missões secundárias, objectivos, jogos, realidades paralelas e modo online se integravam e resultavam.
Pois bem depois do hype da E3, do contra hype do downgrade gráfico tornou-se difícil, para não dizer impossível não estar pronto para ver e dissecar todos os pormenores do jogo, mesmo que a minha promessa ao pegar em Watch Dogs tenha sido “não vou ser picuinhas”, bem não foi bem esta a expressão, mas a ideia foi.
Posso dizer que a primeira coisa que fiz antes de entrar em jogo foi aproveitar os pontos que ainda tinha na Uplay para ficar com uns bónus no jogo, desde logo um carro de alto rendimento em formato stealth, o Papavero e ainda uma Pistola Automática dourada 050. O que me deu alguma vantagem, mas nada demasiado substancial, apenas alguma pinta a Aiden. Já que falámos em pinta outra das primeiras coisas a fazer foi mudar de vestimenta. A oferta é mais do que muita, com várias cores e tecidos e camuflados, apesar de não podermos abandonar o nosso casaco ¾ e boné militar. Parecia o Alfaiate Lisboeta não parecia? Só faltava falar de tendências…
WATCH_DOGS™_20140602203051
Falemos antes da história de vingança que move Aiden 11 meses depois de um assalto que correu mal e que fez da sua sobrinha vítima em vez dele próprio. Carregando esse fardo, Aiden tentará chegar até aos culpados tentando no fundo o “closure” para seguir a sua vida. A história vai sendo alimentada por perguntas que questionam as motivações de todos os envolvidos até chegarmos à intriga final. Não é uma narrativa tão bem construída como Assassin’s Creed e facilmente nos esquecemos da história, ou porque não é de facto assim tão surpreendente ou que mantenhamos uma grande ligação às personagens, ou porque andamos a fazer side missions e a jogar poker e esquecemo-nos do que estávamos a fazer.
WATCH_DOGS™_20140602223527
Esse é o lado bom de Watch Dogs, a quantidade de coisas que podemos fazer e a facilidade com que vamos encontrando missões para fazer torna o jogo muito mais longo do que as 20 horitas para completar o modo história. Se perderem horas, como eu, a jogar poker, vão passar semanas nisso. Um dos meus maiores medos em relação ao Watch Dogs desvaneceu-se, de facto, existe bastante variedade, corridas, abater alvos, hackar sistemas, apanhar gangues, evitar potenciais crimes e depois os vários mini-jogos que vão desde corridas a pé numa realidade paralela em formato trips digitais, quer seja comandarmos uma aranha gigante biónica e termos que destruir tudo à nossa volta, ou um atropelar almas com um carro do demónio, andar a voar e a saltitar de flor em flor ou derrotar os robots que controlam o mundo numa espécie de Terminator. Isto tudo para além dos jogos de poker, de apostas ou de xadrez.
WATCH_DOGS™_20140602225234
Para ajudar ainda a longevidade temos a componente multiplayer que está inserida na single player onde de repente alguém está a tentar entrar no nosso telemóvel, e estamos no modo online a defendermo-nos de um outro jogador real. É uma sensação muito interessante porque nos faz desconfiar de toda a gente e se algo mais estranho acontece como um condutor mais agressivo ou alguém a correr pela rua faz-nos logo pensar que é outro jogador que entrou no nosso mundo. E entrar noutro mundo é como acontece que se procurarmos uma missão no modo online, porque entramos no mundo de outro jogador para tentarmos alcançar o objectivo proposto, pode ser vigiar e segui-lo, pode ser hackar o seu telemóvel, juntarem-se em equipa e derrotar outra, tentar recolher um ficheiro primeiro que todos os outros ou corridas online, onde competimos contra outros jogadores.
Poderemos ainda entrar numa fuga à polícia, onde o jogador que estamos a defrontar está online mas no seu smartphone a enviar patrulhas e helicópteros e a criar obstáculos para impedir a nossa fuga. Pareceu-me de longe o ponto alto deste jogo, este seu multiplayer integrado.
Por mais que fechasse os olhos ou tentasse dar uma abébia aos gráficos, não posso estar aqui a dar baile aos leitores do nosso site e dizer que não é perturbante olhar para o reflexo num vidro e não ver a nossa personagem, mas mais do que isso ver uma coisa completamente diferente. No motel onde Aiden tem um quarto se saírem e olharem para um reflexo em vez de verem o céu, o sinal do motel, a parede, vão ver uma estrada… e nós estamos num primeiro piso… Nesta altura do campeonato isto não me parece aceitável, mas mais inacreditável são alguns glitches e problemas de iluminação. Num dos níveis, lá fora é de dia, estou a sair de um escritório, sou abordado por um inimigo e rapidamente tenho que descer escadas abaixo para perseguir um sujeito e qual é a minha surpresa quando a fazer a curva para descer as escadas, de repente é de noite, não vejo nada à minha frente. Quando consigo chegar ao piso inferior, a bater com a cabeça nas paredes, a sala está iluminada com luz interior e é de dia lá fora… Nope, isto não pode mesmo acontecer. Podemos dizer que as texturas em várias situações estão fraquinhas, especialmente quando é de dia, até nas cutscenes, o cabelo parece que tem cola de papel e facilmente nos remonta para o Heavy Rain na PS3, mas o problema é que eu estou a jogar o Watch Dogs na PlayStation 4 e “apenas” 4 anos de tecnologia depois. Ele corre a 900p a 30fps mas parece pouco trabalhado, e ao pé de INFAMOUS está a léguas de distância. Sugestão? Metam o despertador para Aiden acordar às 20h00, para jogar de noite, é mais “simpático”.
WATCH_DOGS™_20140531181652
Passemos então para a mecânica, as missões de Watch Dogs apresentam nos um sentido mais stealth, tal como acontece em Assassin’s Creed, podemos e teremos que utilizar a camâras de segurança para eliminar os nossos amigos ou criar distracções para podermos chegar ao nosso objectivo. A verdade é que se traçarmos muito bem a nossa estratégia podemos nem sequer ter que sujar as mãos ou entrar em confronto. Mas quando tal acontece entramos num modo de cobertura onde temos que nos abrigar e tentar eliminar os nossos inimigos ao bom velho estilo de um Uncharted, aqui abonados de um sistema de Focus, onde basicamente o tempo desacelera, não percebi muito bem o porquê disto, mas agora está na moda…  Quanto à Inteligência Artificial pareceu-me bem, astuta, não vêm tudo nem sabem de tudo, até porque são humanos e isso dá um carácter real à coisa. Organizam-se, abrigam-se, pedem reforços, etc. O que me fez ainda alguma confusão foi como é que num jogo onde somos hackers o mini jogo de desbloquear servidores é tão básicos e sempre igual? Pensei que teríamos mini-puzzles que demorasse uma eternidade a chegar a uma conclusão, até mesmo no estilo do Paper Trail do INFAMOUS e não, ficaram pelo básico.
Já a condução… o que dizer da condução… Quando fizemos o streaming do jogo, a única coisa que lia no chat, era: tu não sabes conduzir ou é mesmo bera a condução no jogo?! A minha resposta é: não sei conduzir, não tenho carta, mas a condução é mesmo bera. Melhora com a habituação e determinados carros são mais fáceis do que outros, mas para curvar parece que temos que comer um bife ou que não temos direcção assistida, o melhor é mesmo travão de mão para qualquer curva. Sendo uma das partes mais importantes do jogo a condução, seria importante que Ubisoft lançasse um patch que corrigisse muitos dos glitchs já verificados, mas que desse uma atenção à condução. Ahhh e não podem disparar dentro do veículo…Great bummer!
Para finalizar temos que falar dos vários pormenores que abrilhantam Watch Dogs. A interactividade com o telefone, faz-nos crer que estamos a mexer efectivamente num telemóvel, com a hipótese de fazermos a nossa playlist, vemos as capas dos álbuns, podemos utilizar uma espécie de “Shazam”, para além de acedermos às componentes online e multiplayer, assim como às trips digitais e aos nossos carros. Todas as pequenas estórias que vamos encontrando através dos perfis e das side missons, no fundo o universo de pessoas e as estórias que habitam Chicago, o facto de podermos quase como no “foursquare”, marcar os locais históricos ou importantes que pertencem à cidade, os gadgets que podemos criar, a skill tree que nos vai desbloqueando habilidades físicas, de combate e criação de engenhocas, ou a dinâmica que a a cidade nos proporciona com toda a interactividade que podemos ter nos elementos que hackamos. Por outro lado a componente gráfica, os reflexos, a iluminação, os glitchs, a condução e a falta de customização das armas e dos veículos deixa algo a desejar num jogo que parecia ter uma óptima ideia e um óptimo multiplayer, mas que na sua concretização acaba por nos dar apenas um bom jogo e não um jogo que nos marcasse e que até marcasse a nova geração.
P.S: Um agradecimento especial ao Pedro Romão que fez com que esta Review fosse possível.