Durante uns largos anos, entre o fim dos anos 90 e os inícios da década que agora decorre, parecia que os jogos de aventura gráfica, ou “point and click” estavam pela hora da morte. A Sierra que tinha publicado algumas das séries mais emblemáticas no género de aventura gráfica (King’s Quest, Space Quest, Gabriel Knight etc.) fecha em 1999 e a LucasArts, que tinha publicado a série Monkey Island, os jogos do Indiana Jones e outros clássicos como Loom, Sam & Max, Full Throttle e Day of the Tentacle, pára de desenvolver jogos deste género em 2000 com o falhanço do grande Grim Fandango (um jogo brilhante mas um desapontamento no que diz respeito às vendas) e do último capítulo de Monkey Island.

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Em 2004 aparece a Telltale Games, fundada por ex-elementos da LucasArts que produz jogos com um orçamento baixinho que tentam continuar a tradição que a sua casa-mãe tinha deixado para trás. Isto levou a novos jogos de Sam & Max e Monkey Island, que embora modestos davam uma ideia do potencial da nova companhia. No entanto o grande crescimento da Telltale Games começa com um acordo com a Universal que leva a jogos de aventura do Back to the Future e Jurassic Park, bem recebidos pela crítica. Isto criou uma bola de neve que levou a acordos com a Warner Bros. que lhes deu agora o direito de fazer jogos de Walking Dead (2012) e agora de Fables e finalmente a uma nova explosão de popularidade nos jogos de aventura como não se via desde os anos 90.

Fables

Fables é um comic publicado pela Vertigo, uma subdivisão da DC Comics (Superman, Batman) que por sua vez é uma subsidiária da Warner Bros. A Vertigo é orientada para um público mais “adulto”, ou seja são comics com temas mais complexos e frequentemente para maiores de 16 ou 18. Depois de vários sucessos com comics como Sandman, Preacher ou Transmetropolitan, Fables é um dos únicos comics publicados pela Vertigo neste momento com um número significativo de seguidores, sendo um comic de culto.

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É do universo desta série de comics – Fables – que nos aparece o novo jogo da Telltale Games, The Wolf Among Us. A premissa base da história é que as fábulas e lendas desde o Lobo Mau à Cinderella são exilados em Nova Iorque, devido a uma guerra extremamente destrutiva no mundo das fábulas, mantendo-se entre nós em segredo. Como a Telltale já nos habituou, esta é uma release episódica, ou seja esta crítica só se pode centrar no primeiro quinto do jogo, já que o resto vai saindo nos próximos meses. Ainda assim há muito por onde pegar no jogo e felizmente é quase tudo bom. É também particularmente bom para quem já leu os comics, não porque quem não tenha lido se possa perder na história (é bastante independente dos comics), mas porque é a primeira vez que os fãs desta série que vai fazer 12 anos podem ver algumas das suas personagens favoritas com voz e movimento. Nesse aspecto o jogo está muito bem conseguido, os actores de voz são excelentes, conseguindo trazer à vida personagens que soam como sempre as imaginámos.

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O gameplay é semelhante ao de Walking Dead, point and click como alguns quick time events, em que o jogador tem de carregar rapidamente em teclas nas cenas de mais acção. Em termos gráficos também é excelente, reproduzindo o ambiente e estilo dos comics na perfeição, se bem que com um estilo mais filme noir, apropriado à história que é contada. Nesta história o jogador assume o papel de Bigby, o xerife de Fabletown. Bigby é nada menos que o Lobo Mau das fábulas (Bigby = Big Bad Wolf), que deixou o seu papel de vilão e o seu aspecto animal, redimindo-se como xerife mas não deixando de lado a sua agressividade. Como xerife, o jogo começa com algo tão simples como ir resolver um desacato doméstico na casa do Mr. Toad, senhorio e vizinho do Lenhador, (o qual matou o Bigby na história do Capuchinho Vermelho, o que causa alguma tensão natural na história), que está a agredir uma prostituta no andar de cima; daqui partimos para conspirações, assassínios e alguma intriga política.

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Descrever o enredo mais do que isto é problemático, não só para evitar spoilers mas porque, como é normal nos últimos jogos da Telltale, a história é diferente de jogador para jogador dependendo das decisões tomadas, o que é um bom incentivo para re-jogar o episódio até a história ser como a queremos. É aqui que aparece o único senão do jogo, o primeiro episódio joga-se numa noite- temos de esperar meses até sair o segundo episódio (de momento previsto para o primeiro trimestre de 2014). É um jogo altamente recomendável para quem é fã ou não dos comics, mas para alguns jogadores que queiram algo mais substancial talvez seja boa ideia esperar pela conclusão dos 5 episódios para jogar tudo seguido.

About The Author

É de Lisboa, com um desvio por Évora. A primeira cassette que teve foi o Man-Machine dos Kraftwerk porque gostava do espaço e de robots. Ainda gosta do espaço e de robots, e de comics, e de jogos de computador e de cenas fantásticas e tal... o vulgo "nerd". É Licenciado, Mestrado e Doutorado em Religiões Comparadas pela University of Manchester (onde esteve 9 anos). É Professor de Filosofia das Religiões na Universidade Nova. Ganha sempre ao Trivial Pursuit. Passa demasiado tempo no World of Warcraft. Nunca jogou Fifa nem Pro Evo nem Madden NFL ou lá o que é, e tem orgulho nisso. Uma vez jogou o Itália 90 que tinha numa disquete que lhe emprestaram e que funcionava no Intel 80-88 que tinha na altura.

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