Numa altura em que jogos como Mafia 3 ou Watch Dogs 2 surgem como exemplos de jogos open world em terceira pessoa, Yakuza 0 vem desafiar muitos dos moldes e trazer algum classicismo ao género.

O jogo passasse em 1988 e vem com a tarefa de descrever a origem das duas personagens principais da série, Kazuma Kiryu e Goro Majima, duas das mais fortes personalidades dos videojogos, que se vêm envolvidos numa autêntica guerra entre gangues rivais. Se Yakuza 5 se perdia com 5 estórias diferentes, Yakuza 0 ganha e muito por se focar nas suas duas personagens centrais e as suas respectivas famílias, numa estória que acaba por convergir no final.

Devemos recordar que o jogo sai simultaneamente na nova geração de consolas mas também na versão PS3 no Japão, e isso pode explicar em parte o facto de por vezes sentirmos que as personagens e o seu controle pode ser algo “rijo”, mas se falávamos de Watch Dogs ou Mafia, a verdade é que se Yakuza 0 não pode competir em termos de escala dos seus mapas, fica claramente a ganhar em termos de densidade que tem, com todos os pequenos detalhes das ruas Tóquio e Osaka, os dois cenários do jogo.

Pormenores é algo que não falta no jogo, logo de início vamos perceber isso, com os néons que vemos por todo o lado, com as lojas cheias de tralha até ao tecto, com os bares de strippers, ou mesmo com todas as actividades que podemos fazer ao longo do jogo, que nos vão fazer perder horas a fio. E quero destacar esta parte antes de seguir em frente porque é talvez uma das causas principais do jogo ser tão bom. Podemos jogar bilhar, basebol, cantar no karaoke, jogar Out Run ou Space Harrier nas máquinas arcade, ou mesmo gerir os nossos negócios quase como se fosse um simulador de estratégia.

Nenhum jogo nos diverte tanto com estes mini jogos, que no fundo já são parte integrante da série, mas no entanto nenhum o faz como Yakuza 0, de uma forma descomplicada, divertida ao ponto de podermos jogar apenas esses mini-jogos com amigos em casa ou online. É na verdade esta quantidade de de acções fora da história e todas as side quests que podemos fazer, que faz que o jogo possa ser jogado horas a fio, para além das 30 horas de jogo da estória principal. Vão ter que resgatar pessoas, ou até mesmo lidar com jovens que querem o mesmo videojogo, vão pescar malas, vão ensinar como ter pinta e ser um bad ass numa banda de rock, vão ter os desafios mais estapafúrdios que possam imaginar, mas todos eles nos entusiasmam porque a construção das personagens e dos seus diálogos são hilariantes, e fazem com que tudo valha a pena.

Se já perceberam que vão ter muito que fazer ao longo do jogo na forma de side quest, imaginem o que terão de fazer na estória central, que se foca numa parcela de terreno que os gangues rivais querem, para além de assumir uma posição como líder supremo. A mecânica do jogo é bastante simples vamos andar com a nossa personagem para trás e para adiante a tentar pagar estes fogos e perceber como sobreviver a esta autêntica guerra. No início pode parecer bastante chato, porque vamos andar atrás das pessoas para perceber a mecânica do jogo e o sistema de combate do qual já falarei. Os diálogos são bastante extensos e o jogo não se preocupa se um cut scene demora 5 minutos a desenrolar, tal como acontece com a saga Metal Gear, a SEGA achou que deveria desafiar o género e introduzir diálogos longos com uma forte interpretação das suas personagens, com um detalhe gráfico brutal na versão que testámos (PS4), demonstrando que Yakuza 0 vive dessa forte componente.

Mas e apesar de Yakuza 0 demonstrar que é diferente pela forte interpretação das suas personagens e pelos diálogos super bem escritos e densos, existe um equilíbrio que é conseguido pela sua mecânica de combate. Não consigo explicar de outra maneira a não ser dizer que é um autêntico brawler, isto é, quando defrontamos os nossos inimigos entramos num sistema de socos e pontapés executado fundamentalmente por dois botões, fazendo combos à parva e com finishers que nos deliciam. Desde esmagar cabeças no chão ou contra caixotes do lixo, partindo narizes, voando qual luchador libre, tudo é possível e exagerado como seria de esperar num jogo japonês.

Neste sistema de combate podemos livremente através dos direccionais do nosso comando mudar entre os vários estilos, baseado mais na força e nos finishers, ou mais na rapidez. É verdade que o comabte não é tão fluído como podemos ver em jogos como a série Arkham de Batman ou Shadow of Mordor, mas é super divertido. Podemos ainda ir aperfeiçoando as nossas técnicas através de uma skill tree que vamos desbloqueando ao longo do jogo e também com o dinheiro que vamos sacando. Eu diria para apostarem algum do vosso tempo nos fight clubs underground, (sim é claro que há), para rapidamente conseguirem subir as vossas habilidades.

Graficamente Yakuza 0 oscila entre o muito bom e o mediano, mas tal como dissemos no início, o facto de existir uma versão PS3, faz com que o jogo não use todo o potencial da nova geração por não ser desenhado especificamente para tal. Temos as animações das personagens nos diálogos e nas cut scenes com um grau de detalhe brutal e depois recuamos um pouco quando estamos no modo de jogo central, caminhando pelas ruas detalhadas de Osaka ou Tóquio, mas com NPC a fundirem-se em pano de fundo.

Yakuza 0 é um jogo diferente, a SEGA não poderia pensar em enfrentar de cara jogos como Watch Dogs ou Mafia, mas baseou-se numa estória super densa e interessante, com diálogos incríveis e numa moldura de combate muito mais smasher e brawler que nos faz recordar os bons tempos de um Streets of Rage. A diversão que podemos encontrar em todos os mini jogos é impossível de encontrar em outros jogos, não me lembro de outro jogo onde possamos jogar corridas de carros telecomandados, é simplesmente genial. Pode não ser para todos, devido aos seus diálogos extensos, e o sistema de combate não ser refinado como outros títulos como Batman Arkham, mas a verdade é que é divertido. É um misto de seriedade e densidade típico de um jogo “japonês”, com a diversão de um brawler.

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Fundador do Site - Salão de Jogos, o Commodore Amiga 500 foi o seu melhor amigo durante décadas e ainda hoje sabe de cor a equipa principal do Benfica do Sensible Soccer 94/95. Nos tempos vagos ainda edita as botas dos jogadores do FIFA e do PES.

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