Não há grandes dúvidas que Championship Manager 01/02 marcou uma geração de jogadores que têm agora entre os 30 e os 35 anos. O jogo da Sports Interactive, mais conhecido como CM01/02, comemorou esta semana, no dia 12 de outubro, os 20 anos da sua existência que se revelou transversal ao seu tempo e foi passando de geração em geração. É dos poucos, para não dizer o único, que passou por oito sistemas Windows diferentes, vários portáteis e computadores de secretária e ainda se mantém instalado, pronto para se jogar a qualquer momento.

A Franquia CM-FM

Pode parecer estranho o sucesso de CM 01/02, até porque não foi nenhuma revolução na franquia em relação aos seus jogos anteriores. Desde 1992 que a série Championship Manager surgiu como um jogo ideal para nos colocar no papel de treinador de uma equipa. Seguiram-se CM 93/94, CM 2, CM 96/97 e depois surge outro dos jogos mais populares da franquia, o CM 97/98. Nos anos seguintes surgiram mais três edições, o CM 3, o CM 99/00, o CM 00/01 e finalmente o mítico CM 01/02 em 2001, o último grande jogo da franquia, antes da Sports Interactive começar a trabalhar em Football Manager, o conhecido FM, em 2005.

O visual simples, o crescimento da existência de computadores em casa das pessoas e um maior acesso à informação com a internet a crescer – recordo que estávamos em 2001 – são alguns fatores que certamente ajudaram a potênciar esta edição do jogo em que éramos um treinador. Na altura havia também uma comunidade ligada ao jogo em Portugal. O site do cmportugal, que ainda hoje se mantém ativo, ajudava-nos a descobrir bons jogadores, as melhores táticas e até a perceber melhor o editor que vinha em conjunto com o jogo.

A lenda Tó Madeira

É através desses fóruns e também do passo a palavra entre amigos que se descobriu uma das maiores lendas da história dos videojogos: o enorme Tó Madeira. Jogava no Gouveia FC, na terceira divisão Nacional, não era nada caro e era considerado o melhor jogador do jogo devido ao seu enorme potencial. O engraçado desta história é que o jogador não existia na realidade, pelo menos com aquele nome e a jogar naquele ano.

A sua criação foi feita por António Lopes, um português que se comprometeu a ajudar a equipa da Sports Interactive a criar base de dados. Era comum haver várias pessoas espalhadas pelo mundo a inserir as estatísticas de jogadores mais locais que a empresa não tinha forma de conseguir de outra maneira. Hoje isso já não acontece, mas em 2001 aconteceu magia na equipa do Gouveia FC. António Lopes andava ocupado com uma Licenciatura e como forma de compensação, criou-se a ele próprio com o nome Tó Madeira. Acabou por fazê-lo com um grande potencial, apesar de ter jogado apenas futebol quando era mais novo.

É claro que pensou que havia um algoritmo que não permitisse tal coisa, mal sabia ele que tinha acabado de criar uma lenda para o futuro e que ainda hoje falamos dele. Essa equipa tinha ainda dois dos seus primos que também eram bons jogadores, André Paralta e João Paralta, uma dupla temível de avançados. Se pensam que era só em Portugal que conheciam este fenómeno, digo-vos que em 2011 um grupo de colaboradores da Sports Interactive criaram o F.C. Tó Madeira para jogar numa Liga Amadora com sede em Londres. O lema da equipa era “Tó is back”.

Tó e mais dez

Nem só de Tó Madeira viveu CM01/02. Inúmeros jogadores passaram a ser mais conhecidos pelo jogo do que pelo o seu real valor dentro do campo. Era possível fazer uma bela equipa com pouco orçamento sem jogadores muito conhecidos. Uma das primeiras contratações era Taribo West a custo zero, numa lista onde estava também Guardiola, mas sinceramente não era lá grande coisa. Havia melhores soluções.

Alguns dos nomes que não podiam faltar na equipa eram o Hugo Pinheiro, Mark Kerr, Nikiforenko, Okoronkwo ou Maxim Tsigalko, o avançado bielorrusso que se fartava de marcar golos  e que , infelizmente, faleceu o ano passado. Para quem, como eu, ainda tem o jogo instalado e quiser criar uma equipa forte à partida, pode apostar neles, à confiança. Não me posso esquecer de Artem Milevsky, também Pawel Brozek ou Aghahowa. Tudo grandes máquinas.

Havia ainda uma bela maneira de atrair jogadores de renome para a nossa equipa com os contratos Mês a Mês. Podia dar certo, mas se ficássemos sem dinheiro, o jogador ficava livre para assinar por outros. Lembro-me de ter tido o Rivaldo no Vitória de Setúbal durante uns meses, mas depois não houve dinheiro para o manter. Muitas das negociatas faziam-se desta forma, o que tirava um pouco de verdade às transferências. Se quiserem criar uma equipa à CM01/02 não pensem muito. Liguem o jogo, metam a tática 4-1-3-2 e componham o vosso 11: (é claro que há mais hipóteses para cada posição):

GR: Hugo Pinheiro

DE: Artem Milevsky, DD: Mike Duff, DC: Taribo West, DC: Isaac Okoronkwo

MC: Mark Kerr, MOE: Julius Aghahowa, MOD: Pawel Brozek, MOC: Sergey Nikiforenko

PL: Tó Madeira, PL: Maxim Tsigalko

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Um legado

Já perceberam que ainda hoje se joga CM01/02, mas o mais impressionante é que continua todos os anos a existir novas atualizações com as transferências e os jogadores atuais. É de salientar todo o trabalho dedicado que a comunidade faz ao jogo e a disponibilidade que a Sports Interactive teve para colocar o jogo gratuito desde há uns anos para cá.

Continuo a preferir o original, com os jogadores que mencionei anteriormente e até vos conto que no início da pandemia, em março/abril de 2020 consegui jogar uma liga online com mais dois amigos. Um processo que demorou e até foi bastante penoso, porque ia abaixo vezes sem conta. Ainda assim, e como havia tempo, lá se tentou e até deu para passar um bom bocado e recordar os dias inteiros que se passavam em casa uns dos outros a fazer ligas entre nós.

Championship Manager 01/02 vai continuar instalado no meu PC, quem sabe por mais 20 anos, nem que seja para, de vez em quando, numa daquelas tardes chatas sem nada para fazer, jogar uma época e talvez descubra ainda mais algum talento escondido além do fenómeno Tó Madeira. Uma tarefa difícil, mas a ver vamos.