Developer: Nihon Falcom, PH3 GmbH
Plataforma: Nintendo Switch 2, Nintendo Switch, PlayStation 4, PlayStation 5, PC
Data de Lançamento: 15 de janeiro de 2026

Desde o seu início em 2004, a série Trails, integrada no universo de The Legend of Heroes, onde construiu algo raro na indústria dos videojogos, isto é, uma narrativa contínua, interligada e coerente ao longo de dezenas de títulos, personagens e regiões. Ao contrário de muitas franquias de JRPG que optam por histórias autocontidas, Trails sempre apostou numa abordagem quase literária, onde cada jogo funciona como um capítulo de uma obra maior. O continente de Zemuria tornou-se, ao longo de quase duas décadas, um espaço vivo, politicamente complexo e em constante mutação, moldado por conflitos ideológicos, avanços tecnológicos, forças ocultas e escolhas humanas com consequências reais.

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Essa ambição narrativa sempre foi acompanhada por temas surpreendentemente maduros. A série aborda de forma consistente questões como corrupção política, manipulação mediática, desigualdades sociais, o impacto da tecnologia no equilíbrio do poder e o papel das instituições num mundo à beira da mudança. Organizações como Ouroboros, os governos das várias nações e figuras históricas como o Professor Epstein nunca serviram apenas como dispositivos narrativos, mas como símbolos de um mundo que avança rapidamente sem compreender totalmente o preço desse progresso. É neste equilíbrio entre fantasia e comentário social que Trails construiu a sua identidade e conquistou uma grande base de jogadores.

The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon surge precisamente num momento decisivo dessa longa jornada. Inserido no arco de Calvard e apresentado-se como um dos passos finais rumo ao encerramento da história de Zemuria, o jogo carrega um peso histórico difícil de ignorar. Aqui, a Falcom não se limitou a continuar narrativas passadas, procura convergir linhas narrativas, reunir protagonistas de diferentes eras e preparar o terreno para um desfecho que promete redefinir tudo o que os jogadores pensavam saber sobre este mundo. A própria premissa, centrada na exploração espacial e na ideia de “ir além do horizonte”, funciona tanto como elemento narrativo como metáfora para o fim de um ciclo.

No entanto, esta ambição tem um custo. Trails Beyond the Horizon não é apenas mais um capítulo acessível dentro da franquia, mas sim uma obra profundamente dependente do seu legado. É um jogo que recompensa o conhecimento acumulado ao longo dos anos, exige atenção constante aos seus temas, e desafia-nos a acompanhar uma narrativa densa, fragmentada e deliberadamente complexa.

A história decorre num momento particularmente delicado para o continente de Zemuria, com a República de Calvard no centro de uma série de acontecimentos que sugerem uma mudança irreversível no equilíbrio do mundo. A promessa de um ambicioso programa espacial, apresentado publicamente como um símbolo de progresso e esperança, rapidamente se revela envolta em suspeitas, levantando questões sobre interesses ocultos, manipulação política e forças que operam nas sombras. Este ponto de partida serve como catalisador para uma narrativa que, embora assente num evento concreto, se expande de forma constante para temas muito mais vastos, ligados ao passado do continente e ao seu possível fim.

A estrutura narrativa do jogo aposta numa divisão clara em múltiplas rotas, acompanhando três protagonistas distintos: Van Arkride, Rean Schwarzer e Kevin Graham. Cada um segue o seu próprio percurso, com grupos diferentes e objectivos aparentemente autónomos, ainda que todos acabem por convergir para um mistério comum. Esta abordagem permite observar os acontecimentos de diferentes ângulos e reforça a escala global da narrativa, mas também fragmenta o avanço da história, obrigando-nos a alternar entre linhas narrativas num ritmo imposto pelo próprio jogo. A intenção de criar uma visão abrangente do conflito é clara, mas também estraga um pouco a sensação de progressão.

Van assume o papel central do enredo, sendo a sua rota aquela em que conseguimos ver um maior desenvolvimento da história principal e também das grandes revelações. O seu percurso explora de forma eficaz os dilemas morais associados à verdade, à responsabilidade e às consequências das escolhas individuais num mundo à beira do colapso. Rean e Kevin, por sua vez, funcionam como peças complementares, oferecendo perspectivas diferentes sobre os mesmos eventos e aprofundando elementos históricos e espirituais. Ainda assim, a desigualdade no tempo de exposição faz com que algumas rotas pareçam mais impactantes do que outras.

O ritmo da narrativa é um dos aspectos mais controversos de Trails Beyond the Horizon. Grande parte do jogo é construída através de diálogos extensos, interacções com NPCs e missões secundárias obrigatórias, o que cria uma cadência lenta, especialmente nas fases iniciais de cada acto. Embora este método seja consistente com a tradição da série e contribua para obtermos um conhecimento do mundo de maneira extremamente detalhada, também dilui a sensação de urgência em momentos em que a história sugere que o tempo é um factor crítico. O jogo raramente permite que os acontecimentos ganhem impulso por longos períodos sem interrupções, o que na verdade é um pouco frustrante em alguns momentos.

No que toca às personagens, continua a demonstrar mestria na escrita de elencos vastos e interligados. As interacções entre personagens de diferentes arcos da série são frequentemente um dos pontos altos da experiência, proporcionando diálogos carregados de história partilhada e desenvolvimento emocional subtil. O sistema de eventos de ligação reforça esta dimensão, permitindo aprofundar relações específicas e humanizar ainda mais figuras que, de outra forma, poderiam perder-se no meio de um elenco tão numeroso.

A enorme quantidade de personagens e referências ao passado contribui para uma sensação constante de informação relevante. Nota-se claramente um esforço para reintroduzir conceitos, organizações e figuras importantes, mas confesso que a densidade da informação é demasiada, o que faz com que por vezes seja difícil acompanhar tudo com clareza. Este excesso de contexto, embora enriquecedor, nem sempre é utilizado para desenvolver conflitos no imediato, ficando muitas vezes à espera de resolução em capítulos futuros.

Em termos de gameplay, The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon representa o ponto mais refinado da filosofia híbrida que a Falcom tem vindo a desenvolver desde o início do arco de Calvard. O jogo volta a combinar combate em tempo real com batalhas por turnos de forma fluida, permitindo-nos abordar cada confronto de maneira mais dinâmica. A transição entre os dois estilos não é apenas um artifício estético, mas uma decisão estratégica que recompensa a leitura do campo de batalha, o controlo do posicionamento e o uso inteligente de estados como o stun, criando um ritmo de combate que raramente se torna monótono.

As mecânicas de combate atingem aqui um nível de complexidade elevado, oferecendo uma enorme liberdade na construção das personagens. Sistemas como Boost, S-Crafts, Shard Commands e Awakening interligam-se de forma profunda, criando um sistema onde cada decisão pode ter impacto imediato no fluxo da batalha. Para quem consegue dominar este sistema, é evidente que poderá usar isso de maneira muito satisfatória, conseguindo rapidamente criar estratégias extremamente poderosas, e sendo este um dos pontos mais interessantes no que toca ao combate.

Fora do combate, podem esperar o que já é tradição na série, isto é, uma quantidade impressionante de conteúdos secundários. As missões secundárias vão muito além de tarefas triviais, funcionando como extensões narrativas que exploram conflitos sociais, dramas pessoais e o quotidiano de Zemuria. Muitas destas missões apresentam histórias completas, com início, desenvolvimento e conclusão, mostrando mais uma vez que este é um mundo vivo e coerente. Aqueles que muitas vezes podem ignorar este conteúdo, vão certamente perder não só recompensas relevantes, mas também momentos importantes da narrativa e da construção do universo.

O Grim Garten assume um papel central enquanto espaço opcional, mas altamente recomendado, servindo simultaneamente como desafio de combate, área de progressão e palco para eventos narrativos próprios. A sua estrutura incentiva a experimentação de diferentes formações de equipa e estratégias, libertando-nos das restrições impostas pelas rotas da história principal. Ao mesmo tempo, introduz um ciclo de risco e recompensa que complementa na perfeição o sistema de combate, tornando-se um dos elementos mais viciantes do jogo.

A exploração, especialmente nos ambientes urbanos como Edith, continua a ser um dos pilares da identidade de Trails. O jogo incentiva constantemente a interacção com NPCs, muitos dos quais possuem diálogos que evoluem ao longo da história e reagem aos acontecimentos globais. Este cuidado com o detalhe transforma a exploração num acto quase narrativo, onde cada conversa pode revelar novas informações, pequenas histórias paralelas ou pistas sobre o que está para vir. Diria mesmo que é um jogo que deve ser jogado com tempo, de maneira a adquirirmos o máximo de informação durante os momentos de exploração.

Graficamente, é fácil perceber uma clara evolução, apostando numa apresentação mais cinematográfica e expressiva. Sem abandonar o estilo bem conhecido da serie, nota-se uma modernidade que tem definido esta fase da franquia. Além disso, o jogo beneficia de uma encenação bastante mais cuidada nas cenas narrativas, quer nos movimentos, nas cenas e em pequenos detalhes. As animações durante os momentos de acção são mais fluídas e impactantes, e mesmo nas sequências mais simples de diálogo existe uma atenção ao enquadramento e ao espaço envolvente que ajuda a dar vida ao mundo. Ainda assim, é bom ter noção que não se trata de um enorme salto tecnológico.

No que toca à componente sonora este continua em muito bom nível, com uma banda sonora que equilibra temas novos e recorrentes de forma eficaz. As faixas acompanham bem tanto os momentos de introspecção como as sequências mais intensas, ajudando a estabelecer o tom certo para cada situação. O trabalho de vozes é maioritariamente competente, embora infelizmente continue a existir as tradicionais cenas parcialmente dobradas, algo que podia ser dispensável e estraga a fluidez de certos momentos.

The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon é ambicioso, meticulosamente construído e profundamente comprometido com a sua própria história. Não é um jogo que procure agradar a todos, nem tenta sequer ir buscar novos públicos, preferindo recompensar todos aqueles que desde há muitos anos acompanham a série. Entre um sistema de combate no seu ponto mais refinado, uma quantidade avassaladora de conteúdo narrativo e um mundo que continua a crescer em densidade e significado, o jogo estabelece-se como uma peça fundamental no caminho para o encerramento da saga de Zemuria.

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Rui Gonçalves
Desde o tempo do seu Spectrum+2 128k que adora informática. Programador de profissão nunca deixou de lado os jogos, louco por RPGs e jogos de futebol. Adora filmes de acção e de ficção científica, mas depois de ver o Matrix nunca mais foi o mesmo.
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