Developer: Remedy Entertainment
Plataforma: PlayStation 5, PlayStation 4, PC, Xbox Series X|S, Xbox One
Data de Lançamento: 05 de Outubro de 2021

Começo já por dizer que não me devia perdoar por ter deixado escapar Alan Wake tanto tempo. Já tinha percebido, pelo que se dizia, que esta aventura da Remedy Entertainment, lançada originalmente em 2010, era uma obra de arte, mas na altura eu era jogador apenas e só da PlayStation (felizmente isso já mudou) e não ligava muito ao que se fazia na Xbox ou no PC. Foi desta maneira, quase sem querer, que esta aventura me passou completamente ao lado. Uma falha grave que só agora foi reparada graças a esta remasterização. O que posso dizer é que concordo com todos os elogios que fui ouvindo nos últimos anos a um dos jogos mais brilhantes da história.

Antes de entrar nos detalhes de Alan Wake Remastered, começo por explicar a narrativa que nos é apresentada. A mesma não mudou só porque sim, a história mantém-se fiel às origens e ainda bem porque é nela que está grande parte da essência do jogo. Alan Wake é um escritor que vai andar à procura da sua esposa que desapareceu misteriosamente. A história é contada por episódios, tal como se estivéssemos a ver Twin Peaks ou outra série do género. Mesmo quando entramos num novo capítulo aparece um “Previously on Alan Wake”, para não nos perdermos no enredo e saber o que se passou até ao ponto em que vamos recomeçar a jogar. Verdade seja dita que raramente consegui parar de jogar a meio dos episódios. Preferi sempre terminar cada um deles para quando voltasse, me lembrasse do que é que se estava ali a passar e começar um novo capítulo.

Nesta busca incessante pela sua mulher, Alan descobre páginas soltas de uma história de terror que supostamente escreveu, mas não se lembra de o ter feito, o que vai colocar à prova a sua sanidade mental, sem distinguir muito bem o que é real e o que afinal se passa na sua cabeça. Esta confusão passa para nós jogadores e isso faz com que nos entreguemos a Alan Wake de alma e coração, tal como se fossemos nós o escritor, aparentemente louco. Pelo caminho vamos encontrar várias folhas escritas em que o que lá está parece estar a acontecer diante dos nossos olhos. Há uma beleza estranha nisto tudo.

A narrativa passa por diversas ramificações e vão aparecendo várias outras personagens que se revelam importantes para desvendar esta história que se passa em Bright Falls, no mesmo universo paralelo que a Remedy criou para Quantum Break ou para o mais recente Control. Aliás, uma das curiosidades é que há ligação entre os jogos, nem que seja pelo ambiente criado ou pelos livros de Alan Wake que encontramos nas outras duas aventuras. 

A tensão é corpo presente neste thriller que à boa maneira das obras de David Lynch está cheio de reviravoltas. Há também algum terror no jogo, mais do lado psicológico pelo que não se vê diretamente no ecrã. Eu chamo-lhe o terror que me faz arrepiar e aconteceu bastantes vezes, principalmente quando fui confrontado com os inimigos em formato de vultus com diversas habilidades diferentes. São estes os nossos maiores inimigos durante todo o jogo. Alan Wake tem ao seu dispor uma lanterna que precisa de ser recarregada várias vezes que pode usar para apontar a estes corpos estranhos. Definitivamente não gostam de luz, ao contrário de nós que mesmo em dificuldade, se encontrarmos um foco podemos ir até lá e aproveitar para repôr energias. 

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Há vultos mais fracos que andam ali feitos zombies atrás de nós, mas depois há uns mais evoluídos que são capazes de nos atirar objetos à cabeça. Há outros que não param e uns bem fortes difíceis de derrubar. O sistema que temos para combater com eles é muito engraçado e desafiante. Apontar a luz para a cara deles dá-nos uma vantagem que depois pode ser aproveitada para disparar causando maior dano. Além disso, se acharmos melhor e já não tivermos armas, podemos fugir, ou tentar, até porque Alan Wake não parece muito dado ao exercício físico e cansa-se após alguns segundos a correr. Isto dificulta a nossa vida e até pode tirar alguma cadência ao jogo, mas gostei da ideia mais realista. Além das armas, há uns foguetes que podemos usar para afugentar os inimigos e noutros casos aproveitar para destruir os pássaros que atormentam uma das casas por onde vamos passar na floresta. A parte má disto é que não há grande evolução de armas ou habilidades. Desde cedo estamos logo aptos para tudo o que der e vier.

O processo de combate pode parecer um pouco repetitivo ao longo dos episódios, mas tem várias nuances que me agradaram. Em alguns casos estamos equipados apenas com lanternas ou foguetes luminosos e o melhor é fugir, noutros, até temos uma shotgun ou uma rifle, mas pela frente há inimigos que custam a ultrapassar. há desafio e diversão em qualquer uma das situações. Alan Wake Remastered está no limite de ser quase repetitivo. Acredito que seja para alguns jogadores, mas eu não senti necessariamente isso. Há sim uma linha quase comum nos episódios que se pode dividir em parte de história no início, depois temos de chegar a algum ponto e pelo meio apanhamos uns quantos inimigos. Não há um boss específico em cada um, mas há algumas batalhas que percebemos que é como se fosse isso mesmo. 

No campo visual, Alan Wake Remastered está bom em alguns momentos e deixa a desejar noutros, principalmente nas cutscenes que ficam muito aquém dos gráficos a que nos estamos a habituar nestes últimos tempos. Felizmente quando jogamos, as texturas estão bem feitas e aí sim houve um grande salto evolutivo. É certo que beneficia do jogo ser muito escuro e com isso poder esconder algumas falhas, mas aproveita isso bem e na luz, nunca as trevas pareceram tão brilhantes. A sonoridade, em alguns casos, parece esquizofrénica, mas combina na perfeição com o ambiente em que estamos inseridos e ajuda na envolvência com a história.

Esta edição vem ainda com os dois episódios expansivos extra lançados posteriormente, The Signal e The Writer que nos enquadra melhor na história mistério do jogo. Além disto, há agora uns QR codes escondidos que podemos ler com o telemóvel e ver como somos encaminhados para vídeos com as visões de Alan Wake. Isto dá uma maior interatividade com um jogo que já nos agarra do início ao fim. Para quem gosta de colecionar, pode explorar mais o jogo para encontrar todos os “rádios”, os termos de café ou as folhas soltas que ainda faltam para completar todo o livro que o escritor não se lembra de ter feito.

Não pensem duas vezes antes de se atirar a Alan Wake Remastered. É mais um dos trabalhos da Remedy que vai ficar na história dos videojogos. Já o era, agora só ficou mais brilhante. Para quem nunca teve a oportunidade de o jogar, diria que é obrigatório fazê-lo, principalmente se forem daqueles jogadores que gostam de séries misteriosas, sinistras, complexas e repletas de surpresas. Quero ver uma continuação disto no futuro e algo me diz que tal vai acontecer. Talvez a expansão de Control: AWE tenha sido só um prenúncio do que aí vem. Alan Wake merece.