Developer: Obsidian Entertainment, Xbox Game Studio
Plataforma: PlayStation 5, Xbox Series e PC
Data de Lançamento: 17 de fevereiro de 2026

Quando Avowed foi lançado inicialmente para Xbox Series e PC, há cerca de um ano, representou o ápice da ambição da Obsidian Entertainment até à data, consolidando-se como o RPG mais oneroso do estúdio em toda a sua trajetória. Desde o seu lançamento, o título destacou-se por permitir aos jogadores uma abordagem personalizada ao combate, à progressão de personagens e à interação com os vários sistemas que compunham o seu mundo.

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A Obsidian sempre teve um talento único para a criação de narrativas envolventes, e ficaram particularmente conhecidos por títulos como Pillars of Eternity e The Outer Worlds, e Fallout: New Vegas. Em Avowed não foi diferente, sendo que a dimensão do mundo, a liberdade oferecida e a atenção aos detalhes eleveram Avowed a um patamar onde cada decisão, cada movimento e cada momento de exploração é sentido como uma escolha significativa dentro de um cenário cuidadosamente projetado.

Agora, com a chegada à PlayStation 5, Avowed ganha uma nova dimensão. A estreia na consola da Sony é muito mais do que uma expansão de plataforma, sendo também o ponto de partida para uma versão significativamente enriquecida através do Anniversary Update. E esta actualização não se limita a ajustes técnicos, visto trazer uma série de melhorias, refinamentos e adições pensadas para tornar a experiência ainda mais profunda, intuitiva e envolvente.

É uma demonstração de que a Obsidian, uma vez mais, entendeu o equilíbrio entre tradição e inovação, mantendo a essência que conquistou os jogadores no ano anterior, mas simultaneamente introduzindo elementos que acrescentam à experiência-base. É uma versão ampliada e uma reafirmação da visão da Obsidian de criar RPGs que respeitam a inteligência do jogador, promovem escolhas significativas e permitem experiências que variam de jogador para jogador.

A narrativa de Avowed decorre no universo de Pillars of Eternity, mais concretamente no vasto e espiritualmente complexo mundo de Eora — um cenário já conhecido dos fãs da Obsidian, marcado por conflitos religiosos, tensões políticas e uma constante disputa entre fé, poder e identidade. Ao transportar este universo tradicionalmente associado a RPGs isométricos para uma perspetiva na primeira pessoa, Avowed não abandona a densidade temática que caracterizou os seus antecessores; pelo contrário, aumenta a sua dimensão, aproximando o jogador de um mundo onde cada decisão ecoa num tecido social frágil e profundamente marcado pela intervenção divina.

O jogador assume o papel do Envoy, um emissário do Império de Aedyr enviado para as Living Lands, uma região distante e culturalmente diversa que se encontra sob crescente influência imperial. O contexto político é fundamental: Aedyr é uma potência expansionista, com ambições claras de consolidar o seu domínio além-mar, e a presença do Envoy simboliza tanto autoridade como vigilância. Contudo, o protagonista não é apenas um representante imperial — é também um godlike, alguém tocado por uma divindade, ainda que a natureza dessa ligação permaneça envolta em mistério.

O ponto de partida da narrativa é a investigação da Dreamscourge, uma doença enigmática que assola as Living Lands, conduzindo os seus afetados à loucura e à violência. Mais do que uma simples praga, a Dreamscourge funciona como catalisador narrativo, expondo fissuras sociais, alimentando a paranoia e intensificando tensões entre colonizadores, habitantes locais e diversas facções com interesses divergentes. A doença não é apenas um problema médico ou mágico, mas um sintoma de algo mais profundo, um desequilíbrio que ameaça tanto o tecido espiritual quanto o político da região.

À medida que o Envoy explora as várias zonas das Living Lands — desde portos vibrantes a territórios selvagens e comunidades isoladas — a narrativa revela-se multifacetada. Cada local apresenta as suas próprias dinâmicas de poder, crenças e ressentimentos. A escrita privilegia diálogos densos e escolhas que raramente se limitam a dicotomias simplistas de “bem” ou “mal”. Em vez disso, Avowed convida o jogador a navegar por zonas cinzentas, onde decisões pragmáticas podem colidir com convicções morais, e onde a lealdade ao Império pode entrar em conflito com a empatia pelos povos locais.

Os companions desempenham um papel crucial neste percurso. Cada um possui motivações próprias, histórias pessoais e posicionamentos ideológicos que frequentemente interagem — e por vezes chocam — com as decisões do protagonista. O sistema de diálogo permite que essas relações evoluam organicamente, com comentários contextuais e intervenções que reforçam a sensação de que o Envoy não caminha sozinho. Mais do que meros aliados em combate, os companheiros funcionam como espelhos narrativos, refletindo e questionando as escolhas do jogador.

Outro elemento central da narrativa é a presença constante dos deuses de Eora. Tal como em Pillars of Eternity, as divindades não são abstrações distantes; são entidades com agendas próprias, capazes de influenciar eventos de forma direta ou indireta. A condição de godlike do protagonista implica que nos questionemos sobre quem — ou o quê — realmente guia o nosso destino? A história explora esta dualidade entre livre-arbítrio e predestinação, levantando questões sobre identidade, propósito e responsabilidade.

A estrutura da narrativa combina uma linha principal coesa com inúmeras histórias paralelas que enriquecem o mundo. Missões secundárias frequentemente abordam temas como fanatismo religioso, exploração colonial, preconceito racial e conflitos culturais, ampliando o alcance temático da experiência. Mesmo quando não estão diretamente ligadas à Dreamscourge ou à missão imperial, estas histórias contribuem para a construção de um mundo credível e interligado, onde cada comunidade possui memória, tradição e feridas próprias.

Importa também salientar que Avowed privilegia a consequência. Escolhas feitas em diálogos ou decisões tomadas durante missões podem alterar o destino das personagens, modificar alianças e influenciar a perceção que diferentes grupos têm do Envoy. Esta abordagem dá-nos uma sensação de agência, permitindo que a narrativa se molde ao perfil do jogador — seja ele um representante fiel do Império, um mediador diplomático ou alguém que questiona ativamente as ordens recebidas.

O sistema de character creation em Avowed já oferecia, na versão original, uma base sólida para moldar o Envoy de acordo com diferentes estilos de jogo e preferências estéticas. No entanto, com o Anniversary Update, esta componente ganhou mais opções, tornando-se mais flexível e alinhada com a riqueza do universo de Eora. Mais do que um simples ajuste, estas adições ajudam a consolidar Avowed como um RPG mais completo e de acordo com as expectativas de quem procura imersão e personalização num mundo de fantasia tão detalhado.

Uma das principais novidades é a introdução de novas raças jogáveis. Para além de Humanos e Elfos — as opções disponíveis no lançamento inicial — o update passa a permitir criar personagens Orlan, Dwarf e Aumaua. E é algo que vai para além daquilo que é puramente cosmétic, dado que cada raça apresenta atributos iniciais distintos, incentivando abordagens variadas ao combate e à progressão. Por exemplo, os Aumaua destacam-se fisicamente, sendo ideais para builds mais focadas em resistência e força bruta, enquanto os Orlans e Dwarves oferecem perfis estatísticos que favorecem outras especializações.

O Anniversary Update também amplia as opções visuais e de personalização facial. Foram adicionados novos presets, mais variações de rostos pré-definidos e opções extra para os traços godlike — um elemento central da identidade do protagonista. Isto significa que tanto jogadores que preferem uma criação rápida quanto aqueles que gostam de ajustar cada detalhe encontram agora maior liberdade. O sistema equilibra profundidade e acessibilidade: é possível investir tempo na construção minuciosa de um visual único ou selecionar rapidamente uma base convincente e seguir para a aventura.

Outra novidade particularmente relevante é a introdução de um Magic Mirror no Party Camp, que permite alterar a aparência do personagem a qualquer momento durante o jogo. Agora, o jogador pode adaptar o visual do Envoy ao longo da jornada — seja por razões de roleplay, coerência narrativa ou simples preferência estética. Sem esquecer a integração do New Game+, que nos permite começar uma nova campanha com acesso a equipamentos e progressão previamente adquiridos (com algumas exceções narrativas específicas).

No seu todo, o gameplay de Avowed constrói-se sobre uma base de ação em primeira pessoa (ou na terceira pessoa, para quem preferir), com forte ADN de RPG, combinando um combate dinâmico, exploração estruturada por zonas amplas e um sistema de progressão pensado para ser acessível sem deixar de oferecer espaço para especialização. O Anniversary Update não altera radicalmente esta fundação, mas reforça-a com melhorias e novas opções que aprofundam a experiência e tornam o conjunto mais flexível e coeso.

O combate assume um papel central e é marcado por uma abordagem direta e ativa. Ao contrário de RPG’s excessivamente técnicos ou dependentes de gestão complexa de menus, aqui o foco está na fluidez: bloquear, desferir golpes, lançar feitiços e alternar entre armas acontece em tempo real, com impacto imediato. O jogador pode optar por combinações clássicas como arma e escudo, armas de duas mãos ou armas de fogo, mas também por abordagens mais mágicas com a varinha e armas similares.

As árvores de habilidades seguem uma organização tradicional — Fighter, Ranger e Wizard — assumindo uma estrutura simples, mas funcional. Cada uma oferece habilidades ativas e passivas que podem ser melhoradas em vários níveis, permitindo construir personagens focadas num único arquétipo ou híbridas. A progressão é clara e compreensível, privilegiando decisões práticas em vez de complexidade excessiva. Não é possível desbloquear tudo numa única campanha, o que incentiva escolhas ponderadas, mas a possibilidade de redistribuir pontos por um custo acessível encoraja experimentação sem penalizações permanentes.

O Anniversary Update acrescenta um elemento particularmente interessante ao arsenal: o quarterstaff. Esta nova arma corpo-a-corpo encaixa naturalmente em builds com inclinação mágica, funcionando como uma extensão orgânica de um estilo de combate mais arcane. Com bom alcance e uma cadência satisfatória, permite alternar entre feitiços e confrontos diretos sem quebrar a identidade da personagem. Não substitui outras armas, mas amplia as possibilidades, especialmente para quem prefere uma abordagem de guerreiro-mago. A atualização traz ainda novos stun finishers e ajustes ao sistema de equipamento, acentuando a variedade dos confrontos.

A progressão não se limita às habilidades. Os atributos-base influenciam diretamente dano, resistência e até certas opções de diálogo, enquanto o equipamento é organizado por tiers que determinam a eficácia contra inimigos específicos. Este sistema pode, por vezes, condicionar o ritmo da exploração, mas também reforça a importância de preparar adequadamente cada zona. Com o update, surgem ainda sliders de dificuldade altamente personalizáveis, permitindo ajustar parâmetros como o dano recebido e causado, saúde máxima, regeneração, economia e até experiência adicional associada a modificadores mais exigentes.

Quanto aos companions, não são meros acompanhantes narrativos; têm um papel ativo e determinante nas batalhas. Cada um possui habilidades próprias — ativas e passivas — que podem ser desbloqueadas e melhoradas ao longo da progressão. Embora atuem de forma relativamente autónoma no terreno, o jogador pode atribuir algumas das suas habilidades aos atalhos disponíveis, integrando-as na rotação de combate. Isto cria uma dinâmica fantástica: por um lado, o confronto mantém-se imediato e em tempo real; por outro, existe uma faceta tática que depende da coordenação entre o protagonista e os seus aliados.

Determinados companions funcionam melhor na linha da frente, absorvendo dano e criando espaço, enquanto outros contribuem para o crowd control ou dano adicional. A escolha de quais levar para cada zona não é somente temática, e pode alterar significativamente a abordagem aos combates, sobretudo em dificuldades mais elevadas. Assim, o sistema incentiva sinergias entre builds: um personagem focado em magia pode beneficiar de um aliado mais resistente que fixe a atenção dos inimigos, enquanto uma build mais marcial pode explorar habilidades de suporte para maximizar o dano ou o controlo.

E é aqui que entra o sistema de pausa através do menu radial. Avowed disponibiliza um número limitado de atalhos rápidos para habilidades, tanto do protagonista como dos companions. Quando esses espaços estão preenchidos, o jogador precisa de aceder ao menu radial para selecionar outras capacidades. Essa pausa momentânea pdoe parecer que quebra o fluxo direto da ação, mas na verdade acrescenta uma dimensão estratégica mais próxima das raízes táticas da Obsidian no universo de Pillars of Eternity.

Este sistema cria um equilíbrio curioso: o combate é claramente orientado para a ação em primeira pessoa, com bloqueios, esquivas e gestão de stamina e essence em tempo real, mas a necessidade ocasional de parar para escolher uma habilidade transforma alguns momentos em decisões ponderadas. Em situações mais intensas, especialmente quando múltiplos inimigos pressionam de diferentes ângulos, essa pausa permite reorganizar prioridades — ativar uma habilidade de controlo de grupo de um companion, lançar um feitiço decisivo ou recuperar o controlo da batalha antes que a situação se torne caótica.

No global, os companions e o sistema de pausa trabalham em conjunto para dar ao combate de Avowed uma identidade própria: não é tão puramente estratégico como os RPGs isométricos da Obsidian, nem totalmente arcade como alguns action RPG contemporâneos. Situa-se num meio-termo onde ação e gestão convivem, sublinhando a importância da composição do grupo e da escolha cuidadosa de habilidades em cada confronto. Quem valoriza decisões táticas e coordenação de equipa, funciona como uma ferramenta essencial para elevar o combate acima de um simples RPG de ação.

A estrutura do mundo mantém-se segmentada por áreas abertas interligadas pela progressão narrativa. Não se trata de um mundo totalmente contínuo, mas cada zona oferece liberdade suficiente para exploração, descoberta de segredos, recolha de materiais e obtenção de armas únicas. O Anniversary Update introduz o respawn de certos inimigos, mitigando a sensação de vazio que podia surgir após a limpeza completa de determinadas áreas. Não reinventa o jogo, mas torna-o mais completo, mais ajustável e mais convidativo a regressos prolongados, consolidando uma base que já era competente e expandindo as suas possibilidades de forma significativa.

A componente gráfica de Avowed é, desde o lançamento original, um dos seus traços mais distintivos. O jogo aposta numa direção artística vibrante e estilizada, afastando-se dos tons excessivamente cinzentos que marcaram muitos RPGs ocidentais da última década. As regiões exploráveis apresentam uma identidade visual muito própria, com um estilo cromático forte, vegetação exótica, formações rochosas imponentes e uma utilização expressiva de iluminação que reforça a atmosfera de cada zona.

Mais do que procurar um realismo fotográfico puro, Avowed destaca-se pela saturação controlada das cores e pela construção de cenários que parecem quase pintados à mão. Há uma sensação constante de exotismo nas Living Lands, seja através de paisagens costeiras banhadas pela luz dourada, pântanos envoltos em névoa ou áreas marcadas por corrupção fúngica que alteram subtilmente a geometria e o tom do ambiente. Esta abordagem confere personalidade ao mundo e ajuda a diferenciá-lo de outras propostas do género.

No que diz respeito ao desempenho técnico, a versão PlayStation 5 mantém os modos gráficos já conhecidos — Performance, Quality e Balanced — permitindo ao jogador optar entre maior fluidez ou maior fidelidade visual. O Anniversary Update introduz uma novidade particularmente bem-vinda nesta vertente: o Photo Mode. Esta adição encaixa de forma natural num mundo que já se destacava pela sua direção artística. A possibilidade de ajustar ângulos, profundidade de campo e enquadramento permite capturar a riqueza cromática das paisagens, a imponência das criaturas e até momentos de combate congelados em pleno impacto mágico.

Sonoramente, Avowed mantém o elevado padrão associado à Obsidian. O voice acting é um dos seus pontos mais fortes: personagens principais e secundárias apresentam interpretações convincentes, com entoações que reforçam tanto o peso político das conversas como os momentos de humor ou tensão. As interações com companheiros ganham especial vida graças à naturalidade das vozes, contribuindo para uma sensação de camaradagem e presença constante durante a exploração.

A banda sonora, por sua vez, aposta numa composição atmosférica que mistura elementos orquestrais com tonalidades mais etéreas. A música adapta-se às diferentes regiões, sublinhando a estranheza e o misticismo das Living Lands. Em exploração, tende a ser mais subtil e ambiental; em combate, intensifica-se com maior carga dramática. O design de som em combate merece igualmente destaque: o impacto metálico de armas, o crepitar de feitiços e os efeitos mágicos possuem peso e clareza suficientes para tornar cada confronto mais satisfatório.

Avowed pode não reinventar a fórmula do género, mas compensa com uma narrativa sólida, um worldbuilding consistente e sistemas que equilibram acessibilidade com profundidade suficiente para sustentar dezenas de horas de jogo. O Anniversary Update — que acompanha a estreia na PlayStation 5 — reforça essa base, tornando a experiência mais completa, flexível e polida do que no lançamento original. Entre várias adições e melhorias, novas opções de personalização e ajustes, esta actualização surge agora como a versão definitiva desta excelente aventura.

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Rui Gonçalves
Desde o tempo do seu Spectrum+2 128k que adora informática. Programador de profissão nunca deixou de lado os jogos, louco por RPGs e jogos de futebol. Adora filmes de acção e de ficção científica, mas depois de ver o Matrix nunca mais foi o mesmo.
analise-avowed-anniversary-update<h4 style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #339966;">SIM</span></strong></h4> <ul> <li style="text-align: justify;">Excelente worldbuilding e diálogos bem escritos</li> <li style="text-align: justify;">Combate dinâmico com múltiplas abordagens</li> <li style="text-align: justify;">New Game+ incentiva replayabilidade</li> </ul> <h4 style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #ff0000;">NÃO</span></strong></h4> <ul> <li style="text-align: justify;">Photo Mode menos robusto do que em outros AAA</li> </ul>

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