Developer: Warcave
Plataforma: Xbox One, Xbox Series X|S, PlayStation 4, PlayStation 5, PC, Nintendo Switch
Data de Lançamento: 25 de Março 2021

O cenário de Black Legend era perfeito para o regresso de D. Sebastião, ou não fosse ele o rei, que um dia, segundo o mito, há-de voltar numa manhã de nevoeiro. Isto porque a cidade de Grant está sob um nevoeiro cerrado que é mortal para os habitantes que restam na cidade que já conheceu tempos melhores. 

O nosso objetivo é o de acabar com essa neblina, mas para isso é preciso encontrar Mephisto, o alquimista que produziu tudo isto para acabar com as várias guerras que assolavam a cidade em pleno século XVII. Com isto, as coisas foram acalmando e os soldados desertando, enquanto um remédio era distribuído à população para não adoecerem. Acontece que, à semelhança de D. Sebastião na célebre Batalha de Alcácer Quibir, Mephisto desaparece sem deixar rasto e agora vamos ter de o procurar. Ou era isso ou a pena de morte, pelo menos foi assim que o rei lá da zona colocou as coisas aos mercenários perdedores da guerra que estava a ser travada em Grant

Com esses mercenários, lá vamos nós à procura de fazer magia, encontrar o alquimista e salvar a cidade, ou o que resta dela. Claro que isto não era possível se os soldados não tivessem algum do antídoto que sobrou, de modo a não ficarem debilitados com a demasiada exposição ao nevoeiro. Black Legend tem uma boa história e é na sua essência, um RPG bastante tático que nos faz a cabeça em água em alguns momentos.

A jogabilidade aparenta ser simples quando no início criamos o nosso soldado para partir para esta nova batalha, mas as coisas vão se complicando com a chegada do combate por turnos e com a falta de um mapa. Pelo menos para mim que sou um desorientado com caminhos. Black Legend não nos dá essa orientação e confesso que perdi algum tempo a pensar se já tinha passado em determinado lugar ou não. Alheios a estas desorientações estão os soldados que vamos encontrar por Grant e que vamos ter de os eliminar.

As lutas por turnos à boa maneira de jogos como X-COM permitem-nos mover os nossos homens, colocá-los mais longe para atirar pedras ou mais perto para atacar os inimigos com um golpe mais rude. No entanto, isto já se sabe que estar perto, acarreta para nós um maior perigo porque ficamos mais expostos, conforme a classe do nosso combatente. Normalmente eu usava dois elementos mais afastados para atirar objetos e dois mais na frente de batalha. A estratégia vale o que vale até porque não me considero o maior estratega, nem sequer num tabuleiro de xadrez. Como é tradicional nestas lutas, há pontos de movimentação e também de ataque para cada personagem. A ordem é definida por uma linha que podemos ver para conseguir planear melhor os nossos golpes.

Outro dos fatores que influencia a batalha, e este é talvez o principal diferenciador, é o sistema de alquimia que o jogo classifica como “Humourism”. Na prática, ele define qual o dano que vamos poder causar, ou se é possível fazer combos com os nossos homens. A dificuldade está em combinar estes elementos todos, pelo menos numa fase inicial em que a informação é pouca. As cores que simbolizam quatro elementos da alquimia, como o sangue, a bílis amarela, a bílis negra ou a fleuma, ajudam-nos a perceber que itens usar, de forma a causar mais dano nos soldados inimigos. A forma como nos apresentam estes “ataques” mais ferozes deixa bastante a desejar por não estar tão explícito. 

Paga-nos o café hoje!Black Legend cumpre as bases de um bom RPG com a evolução dos nossos mercenários à medida que se vamos derrubando inimigos e com a imensidão de classes que podemos atribuir aos nossos homens a qualquer altura, desde que não estejam em batalha. Podemos criar duelistas especialistas no combate corpo-a-corpo, executores equipados com uma capa dura e prontos para matar rapidamente com um machado ou ainda mestres em humorismos, capazes de usar a alquimia de forma exemplar e até letal. Há 15 classes jogáveis, embora nem todas estejam disponíveis no início, mas é muita fruta, acreditem. Isto dá a cada jogador a sua própria experiência de jogo e de batalha o que é ótimo para quem gosta de andar a brincar e a fazer experiências com os seus mercenários. 

Se este é o lado bom do jogo, há coisas que foram deixadas de parte. É terrível sair de uma batalha completamente de rastos e não conseguir curar os nossos homens a não ser no início de outra batalha. Melhor, é possível, mas isso ia custar os olhos da cara e nem sempre temos recursos para andar a gastar. A envolvência com as personagens é nula, não nos fazendo agarrar emocionalmente à nossa equipa. Faz falta umas sub-histórias mais individualizadas que podiam ajudar nesse sentido. É este tipo de coisas que podem fazer qualquer um esquecer Black Legend, daí eu dizer que é para quem gosta mesmo deste tipo de jogos com estas dificuldades todas e mais algumas.

A nível gráfico, o jogo está longe da perfeição, mas em ambiente sombrio causado pelo nevoeiro consegue fazer inveja a muitos e bons jogos que andam por aí. A dificuldade inicial, um interface mediano e alguns bugs na câmera não ajudam na imersão desta experiência que tem boas bases na sua ideia inicial. 

Black Legend explora o combate tático por turnos e dá aos fãs de RPG um desafio enorme até que consiga ser dominado. A cidade sombria sempre envolta em nevoeiro é cativante, mas a certa altura nem é bem isso que interessa. A premissa é boa, mas toda a narrativa é muito superficial e isso estraga um pouco a envolvência com um jogo que se arruma facilmente se não tiverem muita paciência, nem engenho para criar uma boa estratégia de combate.

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