Developer: SIE London Studio
Plataforma: PlayStation 4 (PSVR)
Data de Lançamento: 28 de maio de 2019

Luzes, câmera, ação. Blood & Truth parece um filme onde nós somos parte integrante do mesmo, no qual desempenhamos o papel de personagem principal chamado Ryan Marks. Um ex-soldado que se vê embrulhado numa situação típica de James Bond ou algo do género, onde terá de salvar a sua família que está a ser ameaçada pelo líder do crime na cidade de Londres. O jogo é um first person shooter jogado em realidade virtual desenvolvido pela London Studio, os mesmos da experiência London Heist que está disponível no VR Worlds. Podemos jogar com o comando normal ou com os moves a funcionar como se fossem as nossas mãos e com isso criar uma maior sensação de liberdade na ação. No início, podemos escolher entre o modo cinematográfico ou a dificuldade normal. No primeiro, não nos faltaram munições a meio dos combates e jogamos mais pela experiência. Na segunda, as coisas tornam-se mais sérias e além da experiência estamos a jogar pela nossa sobrevivência o tempo todo. Como a história tem entre cinco a seis horas, recomendo jogar primeiro no modo cinematográfico para aprender todos os truques do jogo e depois completar este autêntico filme num nível mais difícil.

A experiência de jogar Blood & Truth é fantástica. Sentimos que fazemos parte de tudo aquilo que se passa ali à nossa volta. Olhamos para todo o lado para perceber todas as situações. Logo no início, por exemplo, estamos numa espécie de armazém a ser interrogados por um indivíduo que naquela altura não sabemos bem quem é. Só com o avançar da aventura é que vamos descobrindo, mas também não vos vou aqui estragar as surpresas. O que é certo é que enquanto ele fala connosco, podemos ver tudo o que nos rodeia e até agarrar na nossa ficha que está em cima da mesa e aproximá-la dos nossos olhos para ler o que lá está escrito e depois mandar a ficha para meio da mesa. Os cenários são muito interativos. Além do óbvio, vamos ter papéis na secretária que podemos agarrar e mandar para o lixo, vamos ter uma sala que nos permite pintar as armas e treinar os disparos contra os alvos que temos ao nosso dispor e até os podemos ajustar. Podemos ligar o rádio da nossa casa e ao longo dos capítulos, podemos ainda ir colecionando coisas que vamos encontrando e que vão parar à nossa despensa, onde depois podemos ver esses objetos expostos, agarrá-los e observá-los com maior detalhe.

A história é então um ponto alto de Blood & Truth que está muito bem balanceado entre situações de tiroteio, perseguições, furtividade e outros tipos de interatividade como subir escadas, trepar andaimes, abrir fechaduras e entre outras coisas, as ditas cutscenes. Algumas bastante grandes, mas que ajudam a criar alguns laços com as personagens. O drama é repleto de reviravoltas ao estilo de Hollywood e as surpresas boas e más que nos deixam às vezes com um sabor amargo com a situação ali vivida, mas temos de seguir em frente. As personagens de todo o enredo não são muitas, mas souberam usá-las no ritmo certo, de maneira a não cansarem, nem tornando ninguém demasiado superficial. Depois da morte do nosso pai, vamos ter a ajuda da nossa mãe, do nosso irmão e da nossa irmã, entre outros personagens que surgem. Talvez o nosso maior inimigo, o líder de todo o crime pudesse ter um papel mais ativo, mas estão desculpados porque numa das últimas cenas do jogo, uma espécie de confronto final torna-se num momento inesquecível, mas que deixo para vocês próprios descobrirem quando chegarem lá.

Vamos então à parte mais alucinante de todas que é mesmo a jogabilidade. Não se deixem enganar pelo início, quando estamos a calibrar o comando e aparece no ecrã uma frase a dizer “sente-se confortavelmente”. Esqueçam, não vai acontecer. Vamos andar para um lado e para o outro, espreitar por cima de uma mesa para ter um melhor ângulo de combate e disparar, levantar as mãos para elevar a arma, agarrar numa granada e fazer o movimento de a atirar, entre muitas outras coisas que de certeza fazemos sem nos aperceber. O que é certo é que quando tirava os Óculos de Realidade Virtual não estava nem de perto nem de longe no lugar onde tinha começado a jogar. Talvez se jogasse num sofá isto já não acontecesse, mas se calhar a experiência não era tão satisfatória.

Os tiroteios arcade estão muito bem conseguidos. A certa altura lembrei-me do velhinho Point Black, mas aqui, claro, está noutro tipo de campeonato bem mais avançado. As nossas mãos podem controlar duas armas de menor porte ou uma arma maior que necessite de ser manuseada com as duas mãos. O R2 dispara a arma da direita e o L2 a da esquerda. O R1 e L1 são usados para carregar a respetiva arma de cada mão. Tudo isto se torna ao longo do tempo muito intuitivo e fácil de manusear. Os inimigos aparecem tanto de um lado como do outro para nos fazer disparar para tudo quanto é lugar e às vezes criar grandes mossas nas paredes sem sequer acertar nos adversários. Se tivesse gravado os movimentos que fiz com a cabeça, provavelmente ainda me estaria a rir de mim próprio, mas vão mesmo ser necessários. Matamos um de um lado e rapidamente aparece outro noutro lugar e temos de nos livrar deles. Nos tiroteios vamos poder usar um poder muito comum nestes jogos que é a da visão focada. Ela abranda a imagem e dá-nos mais capacidade para disparos certeiros. Podemos usar isso por tempo limitado apenas, por isso convém guardar para quando aparecem inimigos mais fortes com capacetes, coletes e escudos protetores. Os movimentos dos nossos adversários estão muito bem feitos. Não acho que estão no ponto, mas também nunca vi ninguém levar um tiro a sério, por isso, a julgar pelos filmes, posso considerar que estão bem recriados. Vão cair se acertarmos nas pernas, vão morrer logo com o tradicional headshot e vamos vê-los a cair de zonas mais altas para o chão se forem atingidos por uma explosão, onde a imagem até fica em câmera lenta para podermos ver bem e ficarmos ainda mais dentro da ação. Quando somos atingidos vamos sangrar e ver escorrer sangue junto dos nossos olhos como se a nossa cabeça estivesse aberta. Pena não podermos ir com a mão à cabeça e depois olhar para ela cheia de sangue, mas fica para a próxima.

As perseguições são mais um ponto alto deste Blood & Truth que se revela cada vez mais incrível à medida que avançamos. Vamos estar no carro a disparar contra motas, carros e a apontar para o depósito de gasolina para ver os carros voar com as explosões e aqui parei mesmo de disparar para olhar para trás e ver os autênticos desastres que se criavam com cada situação. É nestes pequenos aspetos que o jogo é muito bom. Numa segunda vez que joguei apercebi-me de outras coisas que na primeira vez não reparei, porque por um motivo ou outro nao me deu para olhar para ali. Outra das situações espetaculares é quando visitamos um museu. Parece que estamos mesmo numa visita a ouvir a senhora e a explorar as atividades que nele há para fazer. Vão pintar paredes com pistolas de tinta, destruir obras de arte e não se vão livrar de alguns sustos numa sala sinistra, toda escura, onde manequins luminosos olham para telemóveis. É uma das cenas mais marcantes e só temos de andar ali. Fora dos tiros temos então as já faladas situações que nos vão cansar os braços. Subir escadas, andar em condutas (felizmente não aparecem ratos), desbloquear fechaduras e andar sobre andaimes, são tarefas que nos vão fazer mexer bastante.

A parte menos boa de tudo isto  é mesmo o movimento predefinido do nosso personagem, ou seja, não podemos decidir andar livremente pelos locais onde passamos, mas sim “enviá-lo” para os lugares predefinidos pelo jogo e ele próprio sabe se vai estar agachado, se vai fugir a correr ou saltar de uma grande superfície, deixando-nos até com a sensação de vertigem em alguns saltos que considero suicida. A sonoridade nos auscultadores está bem equilibrada embora alguns diálogos com o irmão não se oiçam tão bem como esperado. A música que nos acompanha também está bem conseguida, parece mais uma vez um filme do 007 ou algo assim parecido. De salientar que o jogo está todo em português e os personagens bem dobrados, ao nível que a Playstation já nos tem vindo a habituar. No final de tudo, vamos poder jogar novamente cada capítulo para completar o que faltou em cada um deles. Num dos separadores até aparecia a informação de “conteúdo disponível brevemente”, o que deixa em aberto um possível DLC. A história, essa também deixa no ar a ideia de que esta aventura foi só o início. A ver vamos o que se segue.

Blood & Truth sobe assim a parada para o futuro. É claro que tem falhas, mas consegue fazer o que nenhum outro jogo conseguiu até aqui. Pode até daqui a uns anos não ser tão bom como o desenhamos agora, mas terá para sempre o trunfo de ter sido o primeiro grande jogo em Realidade Virtual. Esse mérito ninguém lhe tira. O London Studio está de parabéns. Esta é a melhor experiência do PSVR.