Developer: Gust, Koei Tecmo Games
Plataforma: PlayStation 4, Nintendo Switch e PC
Data de Lançamento: 9 de Novembro de 2021

Embora a lista seja extensa no Japão, e o seu sucesso seja inegável, os JRPG são quase como um nicho no ocidente. Ainda há um apreciável número de jogos que vão saindo nesta parte do globo, mas não é comparável com a oferta que existe por terras nipónicas. O motivo não é a falta de interesse, antes pelo contrário, uma vez que muita gente é completamente apaixonada por este tipo de jogos. A razão é a necessidade de alguma aproximação cultural que nem sempre compensa o investimento, a começar pelo processo de tradução, que é sempre rigoroso.

Nesse sentido, cada vez que um JRPG dá entrada na Europa, há sempre um enorme interesse por parte dos fãs do género em descobrirem o que tem para oferecer. Foi assim em 2017, com o lançamento de Blue Reflection na PlayStation 4, PlayStation Vita e PC, inspirando até spinoff em forma de anime que nos chegou este ano, e que tem o nome de Blue Reflection Ray. Era o sinal de que uma sequela ao jogo originalmente lançado estava em andamento, e confirmou-se, sendo anunciada cerca de um mês depois.

Blue Reflection: Second Light é o título que se segue, e apesar de continuar a explorar o complicado mundo dos sentimentos dos adolescentes, decide optar por uma abordagem diferente, e em parte, muito mais interessante. Se no primeiro jogo, três raparigas tinham um conjunto de habilidades mágicas que eram usadas para proteger as emoções dos seus colegas de escola, agora, uma menina, chamada Ao, vê-se transportada para um mundo estranho, sem ter ideia de como foi lá parar.

Neste local rodeado de mar, além de uma escola, a protagonista encontra igualmente outras raparigas que, tal como ela, não têm uma única recordação do seu passado. A única coisa que sabem, é que têm estranhos poderes e que serão bastante úteis para enfrentarem os vários perigos que têm pela frente durante tão difícil jornada.

Como é de esperar, o progresso na história irá levar a desbloquear todos esses mistérios, e ajudar-nos-ão a desvendar o que aconteceu para nos encontrarmos naquela situação bizarra. Escusado será dizer que a história sabe como cativar imediatamente o jogador, sobretudo quem jogou o seu antecessor, ainda que não seja obrigatório jogar um para entender o outro.

Boa parte do jogo será em custscenes, numa espécie de modo filme, onde além da opção de pausar, podemos consultar todos os diálogos até ao momento e reproduzi-los novamente. É um jogo que, mais do que tudo, se foca na narrativa, e todos os restantes elementos servem de muleta para que tudo se possa ir materializando ao ritmo do jogador.

Rapidamente somos apresentados a outras personagens, ou seja, a Kokoro, Rena, e Yuki, que serão essenciais para entendermos a intenção da mensagem. E é fácil concluir que, tal como em Blue Reflection, a história é mais uma vez sobre a amizade e como existem circunstâncias em que apenas podemos contar uns com os outros para atingirmos um propósito em comum. Todavia, também reflecte a passagem pela fase da adolescência, onde quase tudo é desconhecido.

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 Engane-se quem pensar que é o típico jogo de acção. Longe disso. Na verdade, é mais uma viagem do que um jogo, onde nos é apenas permitido interagir em certas alturas. É sobre laços e sobre os obstáculos que as personagens terão de ultrapassar, cujas criaturas, particularmente aqueles que surgem sob a forma de minibosses, podem mesmo ser interpretados como metáforas de períodos das suas vidas, e das transformações que estão a viver.

A dinâmica de jogabilidade é similar a tantas outras que temos noutros JRPG’s, apesar de aqui ter uma maior incidência na componente cinemática. Entre cutscenes teremos alguma exploração para completar tarefas e encontrar ingredientes fundamentais para a missão, combates, e até temos um pequeno sistema de craft em que podemos usar para cozinhar para as nossas amigas, por exemplo. Pode parecer um gameplay algo ligeiro, mas o objectivo de Blue Reflection: Second Light não é o de tentar convencer pelo combate e pela violência, mas pela substância do enredo.

Ainda assim, temos intensas batalhas por turnos que certamente despertarão o interesse de quem gosta deste tipo de pelejas. São combates que em parte fazem lembrar a saga Atelier, onde inicialmente, Ao apresenta-se com uma vistosa foice, Kokoro com uma espécie de espingarda de canos longos e Rena com um arco de ginástica rítmica. Como podem ver, o estilo está garantido.

Os combates não são propriamente inovadores e usam da fórmula que podemos encontrar em muitas batalhas por turnos. Ether é o nome de uma energia que habita o mundo de Faraway, e será esta energia que utilizaremos para chamar as nossas habilidades e usar o poder dos sentimentos. As habilidades são muito variadas, e alternam entre o ataque – na sua maioria – e o suporte. E quando os inimigos são mais fortes, não teremos grandes hipóteses senão recorrer aos combos, onde as personagens terão de coordenar esforços para um maior dano.

Cada skill gasta uma determinada quantidade de Ether que está devidamente representada, de maneira a podermos decidir a estratégia adequada para a batalha. Mas não se preocupem, porque a Ether vai carregando ao longo do combate, e essa recuperação é acelerada quanto mais habilidades usarmos. É uma forma de encorajar o jogador a não poupar no uso de skills, tornando cada batalha única e espetacular.

Para quem preferir jogar apenas com a protagonista pode fazê-lo, dado que há a opção de deixarmos as companheiras a lutar em modo automático quando chegar às suas vezes de agir. É uma alternativa para quem não é verdadeiramente fã de batalhas por turnos, e quer antes uma abordagem mais prática ao combate, sem ter de perder muito tempo.

Pode não ser um jogo deslumbrante do ponto de vista gráfico, pelo menos quando olhamos para a execução, no entanto, artisticamente tem o seu apelo. Faraway é um local bonito e que dá vontade de descobrir, especialmente pelas paisagens à sua volta, o que torna a exploração sempre interessante e enigmática. Tenho quase a certeza que os jogadores vão aproveitar o Photo Mode que está incluído, visto terem bastante material para os mais belos screenshots.

 Os efeitos visuais dos combates estão igualmente muito bem pensados, levando a que o jogador se sinta normalmente empolgado no momento de enfrentar um novo inimigo. Seja nas habilidades, ou nas animações e coreografias das personagens, nota-se que foi um ponto onde o estúdio Gust caprichou, para que nos pudéssemos sentir envolvidos na tensão das batalhas.

A banda sonora encaixa bem no contexto da história e da acção, com o estilo característico que podemos encontrar nestas produções japonesas. O voice acting tem alguns problemas, não sei se de forma propositada, mas em várias ocasiões só surge o texto em vez do áudio. O próprio movimento da boca das personagens não acompanhada de todo o som das vozes, o que se torna esquisito ao fim de algum tempo.

Contudo, é uma experiência recompensadora para quem é fã de JRPG’s e da franquia Blue Reflection, especificamente. Uma digna sequela de uma sequência de histórias que vale a pena descobrir, e quem sabe se não estará aqui a abrir-se a porta a outra grande saga de culto.