Developer: Sledgehammer Games, Treyarch, Activision
Plataforma: PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series e PC
Data de Lançamento: 5 de Novembro de 2021

Poucos jogos conseguem igualar a intensidade que uma campanha de Call of Duty é capaz de atingir. E quando falamos de experiência cinematográfica nos videojogos, este foi um dos franchises que mais contribuíram para que jogabilidade e a narrativa aprendessem a combinar de uma forma bastante natural, transferindo o jogador para o centro de todos os acontecimentos.

Na verdade, sendo um jogo que praticamente todos os anos tem uma nova edição, tornou-se um dos melhores barómetros para medirmos a evolução nos videojogos. Não só no aspecto gráfico, mas em tudo o que é agora fundamental nos jogos mais modernos. Foi longo o caminho que nos levou até à exigência que temos actualmente ao nível da história, diálogos, atenção aos detalhes, e à magnitude que as bandas sonoras ganharam para prossibilitarem uma maior imersão.

Se compararmos o original, lançado em 2003, com Call of Duty Vanguard, a diferença é abismal, no entanto, foi ali que a verdadeira revolução dos shooters na primeira pessoa, tal como os conhecemos hoje, começou. Em vários sentidos, Call of Duty Vanguard é um excelente exemplo de como os videojogos progrediram, oferecendo uma história carregada de acção e momentos memoráveis. A identidade da franquia está bem vincada neste último exemplar, propiciando todos os elementos que nos fizeram apaixonar por Call of Duty.

Não há dúvida de que o estúdio Sledgehammer Games é especialista em recriar a atmosfera da Segunda Guerra Mundial. Foi assim com Call of Duty: WWII, e mais uma vez mostraram estar à altura com Call of Duty Vanguard. Um dos seus méritos é a forma como, sem fugir a uma jogabilidade de acção com inevitáveis exageros, tem a capacidade de, ainda assim, provocar as emoções mais cruas face aos horrores e ao desespero da guerra.

Neste último título, a cruzada contra as forças nazi une-se às operações especiais de um grupo de personagens que estão longe de ser os heróis tradicionais. De facto, uma das qualidades que mais se destaca nesta história é mesmo a quantidade de personagens interessantes que a transportam até ao fim. A narrativa tem uma construção diferente daquelas a que estamos habituados na franquia, e a espaços faz lembrar as War Stories de Battlefield 1 e Battlefield V, porém, ligadas mais homogeneamente.

Tudo começa perto do fim da guerra, numa missão que corre mal, levando a que os membros desta subdivisão sejam detidos para interrogatório. À medida que cada um vai sendo chamado, somos lançados em retrospectiva para um tempo marcante da guerra e da vida desse personagem. Será pela voz do tenente Arthur Kinglsey, o líder do grupo, que seremos guiados pelas memórias dos seus camaradas, e perceberemos como por consequência, estes momentos foram primaciais para agora estarem juntos.

Não é uma única história, nem se situa apenas num ponto cronológico. Percorre diversas alturas relevantes no percurso das personagens, baseando-se em acontecimentos e algumas personalidades reais, como a tenente russa Polina Petrova, cuja personagem se inspirou na célebre sniper Lyudmila Pavlichenko, igualmente conhecida por Lady Death. Aproveitando este exemplo, é, em parte, uma homenagem a estas figuras secundárias que embora menos lembradas, não tiveram uma menor influência no desfecho da guerra.

Além das duas personagens já citadas, os tenentes Wade Jackson e Lucas Riggs têm os outros dois papeis mais importantes na história, compondo o núcleo da força especial Vanguard. É um grupo que tem uma incrível taxa de sucesso nas suas missões, e que conquistou inclusivamente uma reputação de medo e respeito junto das mais altas patentes do exército nazi. Curiosamente, a diversidade de temperamentos e talentos é talvez aquilo que melhor define este conjunto, mas também o que faz deles tão temíveis.

Os diálogos nos interrogatórios são do melhor que já vimos em toda a série. Jannik Richter, o interrogador representado por Dominic Monaghan, oferece uma forte interpretação da personagem, e cada cena em que ele intervenha ganha um brilho adicional. A qualidade da narrativa relaciona-se muito com momentos como este, em que emprestamos as dores dos heróis, e reclamamos por retribuição antes do final chegar.

Juntando todas as histórias e linhas temporais, teremos a oportunidade de visitar os quatro cantos do mundo, entrando nas icónicas batalhas de El Alamein, em África, e de Midway, no Pacífico Sul, e passando por Estalinegrado, ou pela Normandia, na famosa largada das forças aerotransportadas e infiltrando as linhas inimigas, horas antes do Dia D. É uma autêntica viagem para quem gosta de estudar a história da Segunda Guerra Mundial, e uma campanha impar na saga COD, dada a maneira como foi estruturada.

Tem uma jogabilidade que nos deixa frequentemente à beira do assento. A adrenalina é constante, e a partir do instante em que começamos a jogar, não dá mais para parar. Por vezes, quase nos sentimos a viver uma experiência que o realizador idealizou para a sua mais querida obra de cinema, escolhendo todo e qualquer detalhe que nos deixará cada vez mais vidrados em saber mais.

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 Muitos factores contribuem para isso, seja a atmosfera que encaixa sempre de forma perfeita nos diferentes contextos, como certos elementos do gameplay que se fundem com as cutscenes nas alturas mais precisas. A profundidade das personagens também ajuda a tornar tudo mais dramático, e cada uma das missões proporciona uma jornada única, especialmente aquelas relacionadas com as histórias pessoais.

O ritmo da jogabilidade é sempre alto, e cada pormenor foi pensado para criar algum tipo de emoção no jogador. O comportamento imprevisível da inteligência artificial torna tudo bastante genuíno, e várias das animações são aparatosas propositadamente para que atentemos nelas. Estou claro a incluir os assaltos, o manuseamento de armas e os sons, que estão mais reais do que nunca, sendo sem dúvida o Call of Duty mais autêntico já feito nesses particulares.

Saltando para a componente online, temos outra vez um jogo recheado de conteúdo. Call of Duty: WWII já tinha conseguido trazer uma das melhores experiências multiplayer de todo o franchise, e ainda é jogado e preferido em relação ao Modern Warfare e ao Black Ops Cold War, que são mais recentes. Essa aprendizagem foi importante para que a Sledgehammer Games pudesse refinar ainda mais o que traz para Vanguard, com um enorme catálogo de modos e opções centradas num gameplay frenético e divertido.

Utiliza o mesmo motor de jogo de Modern Warfare, e apesar de manter a velocidade de WWII, acrescenta um lado ligeiramente tático em certas ocasiões, combinando o melhor dos dois mundos. Temos 16 mapas para já: Berlin, Bocage, Castle, Das Haus, Decoy, Demyansk, Desert Siege, Dome, Eagle’s Nest, Gavutu, Hotel Royal, Numa Numa, Oasis, Red Star, Sun Pens, Tuscan e Shipment. E sim, os mapas Castle e Dome são regressos do longínquo Call of Duty: World at War, para que os mais saudosistas possam reviver estes dois clássicos.

Os mapas são agora destrutíveis, e é uma das grandes novidades do título deste ano. Sendo honesto, não tem o impacto que à partida julgava, mas não deixa de ser mais um elemento que melhora a jogabilidade e traz desafios que antes não existiam. E olhando para os principais modos (Free For All, Team Deathmatch, Patrol, Domination, Kill Confirmed, Hardpoint e Searh & Destroy), é igualmente uma maneira de evitar que se torne repetitivo, visto que assim cada sessão parece singular e diferente da anterior.

Um novo sistema de operadores faz parte do pacote, seguindo a tendência mais em moda quando se trata de multiplayer FPS’s. Está bem elaborado e funciona no geral. São 12 operators no total (Arthur, Wade, Polina, Lucas, Daniel, Halima, Solange, Shigenori, Roland, Beatrice, Constanze e Padmati) que vão sendo desbloqueados através de conquistas. Cada um deles tem uma arma de eleição, que nos dá XP extra se optarmos por usá-la. Nesse sentido, convém escolhermos os operators consoante os diferentes tipos de jogabilidade que procuramos, de forma a progredirmos mais rapidamente.

O modo Zombies veio para ficar. Iniciado com a Treyarch em Call of Duty: World at War, é já quase impensável um novo COD sem Zombies. Novamente, o apetite dos nazis pelo oculto lança-nos num pesadelo infestado de mortos-vivos, onde podemos esperar pequenas novidades. Não pretende ser inovador, até porque nunca foi uma prioridade e o propósito é apenas oferecer uma forma alternativa e mais descontraída de fazer uma pausa dos outros modos.

Estamos em 1944, em Estalingrado, e onde a história continua a partir de Black Ops Cold War. Depois de ter sido aberto o portal de Dark Aether, quatro soldados altamente treinados vêem-se completamente isolados e somente com um objectivo: sobreviver. Der Anfang é o nome do próximo capítulo, e onde a acção se vai desenrolar, com a possibilidade de jogarmos em co-op até 4 jogadores. Teremos de fazer frente às forças do mal comandadas por Wolfram von List, completando diversos objectivos que desbloquearão outras zonas da cidade russa de maneira a progredirmos na história – vaga, após vaga.

Tanto a vertente gráfica, como sonora, entregam o COD mais imersivo alguma vez criado. É aquele que nos apresenta uma perspectiva mais next-gen, com uma incrível qualidade visual, sendo fácil ficarmos absolutamente boquiabertos com os detalhes que nos reservaram. Por vezes, é praticamente uma experiência de cinema, à qual nos vamos entregando a cada novo cenário e ambiente, que têm o poder de quase fracturarem a realidade.

A banda sonora está incrível, particularmente no lado musical. O tema principal sabe mexer connosco nos tempos certos, empolgando-nos nos momentos de maior emoção. Os restantes efeitos sonoros também estão fantásticos, seja no ruido das balas, ou nos sons relacionados com a destruição. Infelizmente, encontrei alguns problemas de dessincronização nas cutscenes, e mais precisamente na altura dos diálogos, o que provavelmente será corrigido brevemente.

Call of Duty: Vanguard tem uma campanha excepcional, e vem acompanhado de um sólido conteúdo online, com um sempre divertido Zombie Mode, que são sempre óptimos complementos a um jogo cheio de propostas. É mais uma entrada digna nesta já longa série, e uma boa amostra do que COD poderá ser daqui para a frente.

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