Developer: Snapshot Games
Plataforma: PC, PlayStation 5, Xbox Series X|S
Data de Lançamento: 26 de agosto de 2025
Existem jogos altamente realistas e existem aqueles que assumem, sem qualquer vergonha, uma abordagem leve, colorida e totalmente cartoonesca. Chip’n Clawz vs. The Brainioids encaixa claramente neste segundo grupo. Com o selo de qualidade de Julian Gollop, o criador da série X-COM, o jogo segue um caminho bastante diferente, apostando numa experiência declaradamente divertida, acessível e recheada de humor. As personagens são exageradas em tudo o que fazem e dizem, os inimigos alienígenas são extremamente caricatos e, ao contrário de X-COM, não existe qualquer ação por turnos. Aqui, tudo acontece em tempo real, com bastante ação e uma abordagem aparentemente simples. Ainda assim, bastam alguns minutos para perceber que este é um jogo muito mais ambicioso do que o seu visual inicial deixa transparecer.
Para quem não conhece o título, estamos perante uma fusão bastante particular entre ação na terceira pessoa e estratégia em tempo real. Longe de ser um RTS clássico ou um jogo de ação pura, Chip’n Clawz vs. The Brainioids consegue interligar estes dois géneros de forma surpreendentemente natural. É precisamente essa mistura que lhe confere uma identidade muito própria, obrigando-nos, por um lado, a tomar a iniciativa direta no combate e, por outro, a pensar estrategicamente para ultrapassar os obstáculos que surgem constantemente. Esta dualidade está sempre presente e acaba por definir exatamente o que o jogo nos quer oferecer.
No que diz respeito à narrativa, é simples e tem como base um recurso extremamente valioso chamado Brainium. Este material atrai uma raça de alienígenas obcecada pela sua exploração, que acaba por arrancar partes do planeta e transportá-las para enormes esferas flutuantes. Cabe então a Chip, um jovem inventor, e a Clawz, o seu inseparável gato robótico, recuperar essas áreas e expulsar os invasores. A história está longe de ser densa ou carregada de drama, funcionando sobretudo como um fio condutor para introduzir novas missões e mecânicas, sempre num tom bem-humorado e funcional. Algo que se mantém consistente ao longo de toda a campanha é essa leveza narrativa, quer nas cutscenes, quer durante as próprias missões, apostando mais no carisma e na comédia do que em reviravoltas narrativas complexas.
Mas é na jogabilidade que o jogo realmente se distingue. Ao contrário de um RTS tradicional, não observamos o campo de batalha de cima, mas sim a partir de uma perspetiva na terceira pessoa. Controlamos diretamente Chip ou Clawz, percorremos o mapa, combatemos inimigos, recolhemos recursos e ativamos estruturas. Em simultâneo, somos responsáveis por estabelecer uma base funcional, construir edifícios, produzir unidades e gerir o fluxo de Brainium necessário para sustentar todo o esforço de guerra.
A simplicidade do sistema de recursos é enganadora. O Brainium é o único recurso do jogo e funciona como o verdadeiro motor para praticamente tudo. A sua recolha, a produção de unidades, a construção de defesas e a ativação de novas opções tecnológicas competem constantemente pela mesma reserva. Rapidamente percebemos que o jogo incentiva o gasto contínuo deste recurso, obrigando-nos a tomar decisões rápidas e a adaptarmo-nos em tempo real às ameaças que surgem. Não existe espaço para acumular recursos de forma confortável durante muito tempo, e isso contribui para um ritmo acelerado e, por vezes, bastante exigente.
As missões decorrem em mapas relativamente compactos, mas muito bem desenhados, oferecendo espaço suficiente para exploração, flancos inesperados e múltiplos pontos de ataque. Cada nível apresenta objetivos claros, normalmente centrados na destruição da base inimiga, mas introduz variações que nos obrigam a ajustar a abordagem, seja através da defesa de estruturas específicas, da gestão de vagas de inimigos ou de limitações iniciais nas opções estratégicas. A progressão está bem calibrada, introduzindo novas mecânicas, unidades e desafios de forma gradual, permitindo-nos aprender sem sermos esmagados logo desde o início.
Algo também interessante é que os dois protagonistas oferecem abordagens ligeiramente diferentes ao nível da jogabilidade. Chip está mais vocacionado para potenciar a produção e reforçar as unidades, enquanto Clawz destaca-se pela maior mobilidade e pelas capacidades de reparação no terreno. Embora ambos possam desempenhar tarefas semelhantes, as suas habilidades específicas acabam por influenciar a forma como lidamos com determinadas situações. Em modo cooperativo, esta diferença torna-se ainda mais evidente, incentivando uma divisão natural de responsabilidades entre os jogadores.
O combate, apesar de simples, é competente e funcional. Apesar de não oferecer uma acção sem precedentes, consegue entreter-nos de maneira satisfatória, para isso também contribuem os controlos responsivos, as armas e os gadgets que oferecem variedade suficiente para criar um ritmo animado graças à pressão constante dos inimigos. A diversidade das forças alienígenas, cada uma com comportamentos e prioridades distintas, obriga-nos a reagir e a ajustar tanto a estratégia como a atuação direta no campo de batalha. Não basta atacar indiscriminadamente, é fundamental perceber quais os inimigos que ameaçam as estruturas, quais pressionam os recursos e aqueles que funcionam como suporte. Conhecer bem os vários tipos de inimigos torna-se essencial para sobreviver nas fases mais avançadas.
A dificuldade é um dos aspetos mais marcantes de Chip’n Clawz vs. The Brainioids. Apesar do visual acessível e do tom humorístico, o jogo não hesita em exigir atenção, planeamento e capacidade de adaptação. Existem momentos em que o desafio aumenta de forma abrupta, obrigando-nos a repetir missões e a repensar completamente a abordagem. Este aumento de exigência pode ser frustrante para alguns jogadores, sobretudo para quem não está habituado a jogos de estratégia, mas faz parte da identidade do título. O jogo recompensa claramente a aprendizagem, a experimentação e a melhoria constante, sem recorrer a soluções fáceis.
A campanha oferece uma duração equilibrada, variando entre oito a catorze horas, dependendo da atenção dada aos objetivos secundários, desafios opcionais e colecionáveis. Estes elementos incentivam uma exploração mais profunda dos mapas e, por vezes, a repetição de níveis. Não são meros extras, já que desbloqueiam melhorias e novas possibilidades que influenciam diretamente a eficácia nas missões seguintes. Existe uma clara sensação de progressão, tanto em termos de ferramentas disponíveis como na compreensão dos sistemas do jogo.
O modo cooperativo é, sem dúvida, um dos maiores pontos fortes do jogo. Jogar a campanha a dois transforma completamente a dinâmica, permitindo uma divisão eficaz de tarefas e criando momentos de caos controlado e situações genuinamente divertidas. A comunicação torna-se essencial e, apesar de o jogo funcionar muito bem a solo, é difícil não sentir que esta vertente cooperativa foi uma prioridade ao ser desenvolvido.
Para além da campanha, o jogo inclui também uma componente competitiva que funciona como uma extensão natural principais mecânicas. Nos modos Versus e Skirmish, bem como através da opção de entrar em partidas por código, podemos jogar com dois ou quatro jogadores em confrontos 1 vs 1 ou 2 vs 2. Estas partidas decorrem em arenas mais compactas, onde todas as opções estratégicas estão disponíveis desde o início, tornando cada confronto imediatamente intenso e exigente. A luta pelo Brainium cria uma corrida constante entre ataque e expansão, obrigando a equilibrar infraestruturas, produção de unidades e pressão ofensiva. Embora não seja o foco principal do jogo, esta vertente acrescenta longevidade e mostra, de forma clara, o domínio do sistema híbrido de ação e estratégia.
Algo que merece destaque é a possibilidade de jogar tanto online como localmente, quer no modo cooperativo, quer no competitivo. No jogo local, o ecrã dividido está bem implementado e funciona de forma eficaz, mantendo a legibilidade da ação mesmo nos momentos mais caóticos.
Graficamente, o jogo aposta num visual colorido e bastante apelativo, com um estilo cartoon que encaixa perfeitamente no seu tom leve e bem-humorado. Os cenários são variados, com estruturas flutuantes, ruínas e áreas naturais cheias de cor, desenhadas de forma clara para facilitar a leitura do campo de batalha. As personagens e inimigos relembram-nos claramente filmes clássicos de ficção científica, ajudando a reforçar uma identidade visual muito própria.
A componente sonora acompanha bem a ação, apoiando a jogabilidade sem nunca se sobrepor a ela. A banda sonora cumpre o seu papel ao criar uma sensação constante de urgência nos momentos mais intensos, enquanto os efeitos sonoros ajudam a identificar ataques, construções e ameaças. O trabalho de vozes encaixa bem na abordagem cartoonesca do jogo, reforçando o humor e a personalidade das personagens, ainda que a repetição de algumas falas se torne ocasionalmente perceptível.
Chip’n Clawz vs. The Brainioids é uma excelente surpresa e um ótimo exemplo de como é possível misturar géneros que à partida parecem incompatíveis. Com um grafismo leve e cheio de humor, oferece simultaneamente um jogo exigente, que pede atenção, planeamento e capacidade de reação. Não é claramente um jogo pensado para agradar a todos, mas é uma proposta criativa, desafiante e cheia de personalidade, especialmente recomendada para quem procura algo diferente no panorama atual dos videojogos.



