Developer: Toys For Bob, Activision
Plataforma: PlayStation 4, Xbox One
Data de Lançamento: 02 de outubro de 2020

Bem longe vão os tempos em que devorava Crash Bandicoot. Os primeiros jogos na PlayStation 1 fizeram as minhas delícias de criança a tentar bater todos os níveis várias vezes para obter as esmeraldas e as relíquias. Os três primeiros Crash Bandicoot chegaram pela mão da Naughty Dog, no final dos anos 90, mas depois disso, a empresa afastou-se da franquia. A série continuou com jogos, alguns de sucesso como Crash Team Racing, ainda Naughty Dog ou Crash Bash mas os outros jogos que foram criados, de níveis, não foram assim tão marcantes quanto isso durante a década seguinte. Nestes últimos tempos, felizmente surgiu a Toys For Bob que agarrou na série e lhe deu uma nova roupagem gráfica. Lançou um Crash N’ Sane Trilogy com os três primeiros jogos, mas com gráficos atuais já antevendo o trabalho que estava a fazer para trazer de volta, 22 anos e três gerações depois um Crash Bandicoot 4 e nem a propósito com um  título sobre o tempo: “It’s About Time”.

Se costumam ler as minhas análises sabem que prefiro sempre jogos originais e novos, do que remakes ou remasters de jogos que marcaram outros tempos e por isso, uma continuação da franquia Crash é sempre bem vinda. Em Crash Bandicoot 4: It’s About Time voltei a sentir aquela nostalgia de jogar com um dos personagens mais fantásticos alguma vez criados. Mas não é só de Crash que podemos falar neste jogo. Há outras personagens bastante familiares que vamos poder jogar com elas. Funcionam como se fossem skins, mas resulta numa nova maneira de jogar cada nível.

Crash Bandicoot 4: It’s About Time começa depois dos acontecimentos de Crash Bandicoot 3 quando Neo Cortex e a Nefarious Tropy abriram uma fenda no tempo que nos levam em portais para outras dimensões. Num registo muito cómico a história desenrola-se a bom ritmo e vai juntando ao elenco algumas caras bem conhecidas da franquia. Os gráficos mantém-se excelentes como já tinha acontecido em N’ Sane Trilogy. As texturas bem definidas e o colorido bem vivo fazem deste Crash um autêntico jogo digno desta geração. A variedade dos níveis é enorme, bem como os diferentes desafios que vamos encontrar, desde as formas mais convencionais, até novas maneiras de jogar. Correrias contra a câmera a fugir de alguma coisa, andar a saltar entre plataformas que ora aparecem ora desaparecem, andar sobre slides a deslizar ou agarrados pelos braços, baloiçar sobre cordas qual Tarzan qual quê são só alguns exemplos do que vão poder encontrar.

É este um dos pontos chave de Crash Bandicoot 4, a introdução de novas formas de jogar associado ao que se fazia no passado, sem perder a identidade e a nostalgia que carrega, dá-nos uma sensação de novidade, novo vício e claro, também algum desespero. Uma das grandes inovações são as máscaras que vamos encontrar. Elas fazem modificações nos níveis e cabe-nos a nós saber usá-las da melhor maneira. Há máscaras diversas. Umas que substituem cenários e nos obrigam a saltitar entre um e outro, por exemplo saltar para uma plataforma que não está visível é agora possível, mas é necessário mais astúcia para saltar e a meio do salto mudar o cenário com um simples toque no R2, no caso de jogarem na PlayStation 4, onde preparei a análise. Isto não é nada fácil e requer alguma prática, principalmente quando começa a incluir mais elementos que nos oferecem bastante perigo de vida. Além desta máscara há outras que param o tempo, para permitir a nossa passagem em algumas partes, outra ainda que invertem a gravidade e teremos de lidar com isso e ainda outra que é usada como poder de rodopiar até não conseguir mais. Isto altera toda a maneira mais tradicional de jogar Crash, mas aumenta o nível de satisfação quando conseguimos ultrapassar certos desafios. 

Associando isto às diferentes personagens com as quais vamos poder jogar, primeiro temos disponíveis Crash e Coco e só depois, à medida que vamos concluindo os níveis e acomulando cristais necessários, vamos desbloqueando novos personagens jogáveis em jeito de máscara, mas que como é óbvio altera a maneira de jogar. Pelo caminho encontramos também Cortex, Tawna e Dingodile que terão os seus níveis específicos especialmente desenhados e talhados para se jogar com eles. A variedade que este Crash 4 oferece é algo que deve orgulhar os pioneiros criadores da série que a vêem agora ser remodelada de uma forma exímia e sempre com aquele toque retro. Tal como no passado, para concluir os níveis ao máximo terão de o jogar várias vezes. As relíquias do tempo estão de volta para completar os níveis o mais rápido que se conseguir, os diamantes são necessários acumular apanhando todas as caixas que existem, procurar o cristal escondido em cada nível que parecem ter atalhos onde menos se espera e ainda apanhar as Flashback Tapes que abrem níveis extra para explorar. 

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Mas não pensem que isto são tudo favas contadas. O jogo é bastante difícil até, mas felizmente permite-nos escolher se queremos jogar no modo clássico, onde quando perdemos as vidas começamos do início, ou se por outro lado podemos morrer infinitas vezes e começamos sempre do checkpoint mais próximo. Esta opção é viável nos primeiros tempos. Até porque um dos objetivos dos níveis é o de morrer apenas três ou menos vezes. Assim permite a todos desfrutarem da aventura conforme o grau de dificuldade que acharem estar a ter. Isto leva por vezes, como disse há pouco, a alguns momentos de desespero. Há partes muito complicadas, não só pelo uso das máscaras que alteram a jogabilidade, mas também pelo nível de profundidade que achamos ter de Crash. Às vezes parece que estamos a cair no lugar certo, mas acabamos a aterrar fora de uma plataforma o que nos faz perder uma preciosa vida. Felizmente há uma sombra quando crash salta que nos indica onde ele vai aterrar, mas nem sempre é fácil também. Podem até desativar, mas dá algum jeito. Outro aspeto que me deu alguma frustração em alguns momentos foi a forma de Crash andar. Parece muitas vezes que está controlado, mas depois há uma falta de sensibilidade que com um pequeno toque a mais no analógico, lá perdemos. Em bastantes situações até preferi usar os botões direcionais, à boa maneira antiga. É claro que nos habituamos a isto tudo e passado umas horas isto já nem é bem um problema, mas não deixa de poder ser desesperante em alguns momentos.

A longevidade do jogo é assinalável. Além da aventura e de todos os extras que podemos conseguir, o jogo acrescenta ainda o modo de mundo invertido, o N.Verted onde mudam os níveis de cima para baixo ou em cores e nos dá a sensação de serem outros novos mundos. Podem fazer a aventura com mais jogadores no modo Pass N’ Play, onde a cada morte ou checkpoint joga o outro e assim permitir jogar em família com regras específicas. Há ainda o modo Bandicoot Battle que permite até 4 jogadores estarem localmente a competir. Podem fazer uma corrida pelos níveis onde é contado o tempo entre checkpoints e no final quem vencer mais é coroado com o título. Além deste Checkpoint Race há ainda o Create a Combo que funciona também entre checkpoints, mas é a ver quem apanha mais caixas. 

Crash Bandicoot 4: It’s About Time devolve à série um merecido jogo altamente bem feito com aquela magia do passado, mas com novos elementos de atualidade e algo que nunca se viu na série. O tempo não passou por Crash que está melhor que nunca e está em forma para o futuro que se adivinha vencedor daqui a uns aninhos na nova geração. Se pensavam que depois dos primeiros três Crash a série tinha acabado, posso dizer-vos que 22 anos depois, a raposa e os amigos nunca estiveram tão bem. Um aplauso à Toys For Bob e à Activision que continua a acompanhar a franquia que certamente coloca a Naughty Dog orgulhosa da personagem que criou algures em 1996.