Developer: Dreams Uncorporated, SYCK
Plataforma: PS4, PS5, Xbox One, Xbox Series S|X, Nintendo Switch e PC
Data de Lançamento: 20 de julho de 2021

Desde 2014 que temos ouvido falar de Cris Tales, este jogo que marca a estreia do estúdio colombiano SYCK com o apoio da Dreams Uncorporated. O anúncio oficial foi feito em 2019 e com a sua data de edição marcada para 2020, mas tal como tantos outros videojogos, viria a ser adiado para este ano de 2021, com a premissa de ser ainda mais polido antes do lançamento.

Eu diria que esta estreia não poderia ter corrido melhor, de toda a maneira e feitio estes estúdios conseguiram entregar um jogo de combate por turnos, com uma narrativa super densa e interessante, com uma forte componente RPG, e com um estilo gráfico único e fascinante. É verdadeiramente impressionante, e por isso mesmo, achei que deveria começar assim esta análise. Agora vamos desbravar isso mesmo.

Com a forte inspiração nos clássicos JRPGs como Persona e Chrono Trigger, Cris Tales apresenta um mundo fantasioso, no qual a órfã Crisbell depara-se com um sapo falante chamado Matias que vai alterar o rumo da sua vida. Ao entrar numa catedral enquanto seguia esse sapo misterioso, a protagonista descobre que tem poderes adormecidos e a sua busca para perceber porque é que foi escolhida começa nesse momento.

Com o auxílio do mago do tempo, Willhelm, assim como o guerreiro Cristopher, os três partem para os diferentes reinos do planeta na tentativa de saber mais sobres os poderes de Crisbell e a profecia que os murais das catedrais dos reinos indicam. Ao longo da viagem e perante os poderes de Crisbell de conseguir ver o passado, presente e o futuro, vão tentar consertar os erros nos vários espaços tempo para tentar prevenir as catástrofes que vão acontecer no futuro. É com essa ambientação centralizada na viagem pelo tempo, que o jogo introduz um combate repleto de profundidade, além de exploração de cenários com três diferentes linhas do tempo.

É claro que tem que existir uma antagonista e neste caso é a Time Empress que está a tentar despedaçar Crystallis e os restantes 4 reinos da região. Para a pararmos, como já referi, percorremos estes reinos, não só fazendo amizades, como recrutando membros e ficando a conhecer todo o potencial de Crisbell e a capacidade dos nossos amigos que se juntaram nesta epopeia, aprendendo como podem combinar as suas habilidades e poderes para dar cabo dos lacaios desta Imperatriz do Tempo. No entanto vão ter que pensar muito bem nas decisões que vão tomar, pois em cada reino há 3 caminhos diferentes que podem percorrer que vão influenciar o futuro de cada um deles, e também o desenrolar do jogo em si. Este é mais um fator de interesse do jogo e também de repetibilidade, sendo que com a história principal e as side-quests, estamos a falar de cerca de 40 horas de jogo.

O grande destaque de Cris Tales encontra-se na viagem no tempo, como já perceberam, e se este elemento segue a narrativa e a exploração dos cenários, ainda se torna mais incrível nos combates. Nessa exploração dos cenários e da narrativa a tela fica dividida em 3, o passado é disposto no canto esquerdo, o presente no centro numa forma triangular e o futuro no canto da direita. Para além dessa visualização da linha temporal é nos concedida uma habilidade para avançar nestas eras através do nosso amigo sapo, Matias, aí a personagem realiza os saltos temporais e o mesmo até é representado com variações de suas etapas de vida, sendo um sapo pequeno no passado e um maior no futuro, podendo ele realizar também tarefas ou dialogar com personagens para recolhermos informações e executar ações.

Contudo é nos combates por turnos que esta componente temporal ganha uma maior dimensão. Comecemos pelo básico, como é tradicional neste tipo de jogos, a nossa party vai executar movimentos de ação perante o adversário, um de cada vez, com os oponentes a fazerem o mesmo. Na barra superior do ecrã vão poder ver a ordem pela qual se seguem os ataques, para conseguirem implementar a melhor estratégia, assim como para preparem a vossa defesa, se for o caso. Vamos ter ao nosso dispor um leque de opções, o ataque físico, o uso de habilidades para o qual precisamos de mana, e o de invocação que vai gastar crystal power. O ataque físico será assim o ataque básico, sendo que neste jogo, temos a particularidade de tentarmos duplicar o ataque ao carregar mais uma vez na tecla de ataque. As habilidade variam de personagem para personagem, mas para dar um exemplo, Cristopher ao inicio pode invocar bola mágicas de água, enquanto Wilhem pode invocar Tundras venenosas para atirar aos adversários. Conforme vão evoluindo as vossas personagens, mais habilidades surgirão, assim como efeitos mais devastadores e novas possibilidades de estratégia. Para além disso terão também as tradicionais opções de passar a vossa vez, defender durante um turno ou de tentar fugir da batalha, sendo que isso só é possível nas batalhas inferiores e de percurso.

No entanto, o que torna Cris Tales único é a questão da manipulação temporal de Crisbell, através da Invocação do Cristal do Passado ou do Futuro, toda a nossa estratégia, ou as possibilidades que passamos a ter ao dispor multiplicam-se. Para vos dar um exemplo, e para não spoilar até pegando numa batalha inicial, quando defrontamos um oponente de metal que tiver sofrido ataques de água, e depois invocarmos o Cristal do Futuro, o que vai acontecer é que a sua armadura vai ficar enferrujada e por isso, com um defesa muito inferior. O mesmo acontece ao usarmos as Tundras que Wilhem atira, se atirarmos uma semente, e depois invocarmos o Cristal do Futuro, essa tundra vai rebentar debaixo dos pés dos adversários e colocá-los todos sob o efeito de veneno. O mesmo acontece com a invocação do Cristal do Passado, onde, por exemplo, um lobo feroz, se pode tornar num pequeno lobito praticamente inofensivo, e assim, conseguirmos o derrotar facilmente.

Isto são apenas alguns exemplos mais simples e iniciais do jogo, porque a grande diferença entre perder e vencer vai estar precisamente aí, na capacidade de montar uma estratégia para usar todos os elementos da party como um só, aproveitando esta possibilidade de manobrar o tempo, assim como recolher informações sobre todo o tipo de inimigos durante as nossas viagens pelos reinos e ao conversar com o NPC’s, para saber que elementos usar contra determinados inimigos, ou mesmo o que não usar para não os fortalecer.

Conforme progridem, os jogadores podem melhorar os seus equipamentos, alterar efeitos das suas armas e aprender novas habilidades para os protagonistas. Para além disso, são introduzidas novas mecânicas, como a possibilidade de alterar o fluxo do tempo para certos objetos, o que nos faz querer aprofundar cada vez mais o jogo. Outro dos pontos que nos faz colar a Cris Tales, é o facto de não ter medo de arriscar e colocar o dedo em algumas feridas sociais que ainda hoje se vivem e se veem. Provavelmente, o facto de estarmos a falar de um estúdio colombiano, e que se nota nãos só na palete de cores utilizada, mas também na estilização de personagens e cenários; não será de estranhar que questões sociais prementes neste país não acabem por sobressair no jogo também. Estamos a falar de um dono de uma fazenda que vê o governante local a mandar monstros para acabar com as suas colheitas para depois comprar os terrenos ao desbarato, discussões de classes, entre aqueles que vivem nos subúrbios e os que detêm o poder financeiro a viverem à larga nos seus palácios, longe dos problemas e das catástrofes naturais; a questão da imigração também é debatida, entre outros exemplos. É apenas mais um ponto em Cris Tales se aventura, e ganha, pelo menos para mim, mais um ponto a favor nesta minha análise.

No entanto nem tudo é um mar de rosas e temos que demarcar aqui duas ou três questões que prejudicam o desenrolar do jogo. O primeiro é o uso do Matias nas várias linhas do tempo, seja porque se torna num pequeno sapinho, ou num sapão gordalhufo, a sua velocidade de deslocação é lentíssima e torna a ação chata e que só queiramos o usar quando estritamente necessário. O segundo passa pelo facto de não termos acesso a mini-mapa, sem dicas, ou pontos estratégicos para irmos no mapa do mundo em si. As dicas que surgem é dentro dos reinos, e demasiadamente vagas, para além de nos perdermos com facilidade tanto ao percorrer os cenários, como no mapa dos reinos em si. O último passa mesmo pelo facto de muitas vezes só querermos chegar a um determinado local e aparece sempre mais um inimigo para derrotar, e eu sei que existe o Flee para isso, mas eu não sou de virar a cara a uma luta, e por vezes torna-se só aborrecido.

Cris Tales em jeito de conclusão, é um excelente trabalho da SYCK, um estúdio colombiano a dar os primeiros passos, mas que acerta em cheio nesta primeira grande aventura de massas e que vai agradar a toda a gente que o jogar. Não tenho dúvida desta minha afirmação, porque o grafismo é impressionante e muito peculiar, a qualidade de execução está ao nível de uma série de desenhos animados da Cartoon Network, a introdução da mecânica temporal é incrível, e de uma grande originalidade, e os combates, até por isso mesmo, estão super interessantes porque necessitam de estratégia, de astúcia e de destreza também, portanto eu diria que dificilmente não vão gostar deste jogo. E por fim a narrativa é super densa e interessante, o que vai animar todos os fãs de JPRG e portanto eu diria que tem tudo para ser um dos títulos obrigatórios deste ano, e até está no Game Pass, portanto aproveitem.