Developer: CD Projekt Red
Plataforma: Xbox One, Xbox Series, PlayStation 4, PlayStation 5 e PC
Data de Lançamento: 10 de Dezembro de 2020

Após oito anos desde o seu anúncio, três adiamentos, e expectativas altíssimas, Cyberpunk 2077 chegou finalmente às mãos do público. Um lançamento sem igual, já que a juntar ao estrondoso número de 8 milhões de reservas, logo no seu primeiro dia, ultrapassou a barreira de 1 milhão de jogadores em simultâneo no Steam, superando reis da popularidade como Dota 2 e CS:GO.

Esta é a incrível dimensão de Cyberpunk 2077.

E não é para menos, já que é o mesmo estúdio que nos trouxe a saga de The Witcher, e que tomou a decisão ousada de explorar mecânicas e temáticas completamente antagónicas no seu projecto seguinte.

Seria tão mais fácil a CD Projekt Red encostar-se à sombra do sucesso e materializar mais um RPG de fantasia na terceira pessoa, porém, o estúdio polaco não simpatiza com zonas de conforto, e seguiu sem receios, confiando no ímpeto criativo que sempre os destacou.

“Wake up, Neo…”

A sugestão que deu início à defluência de claridade do protagonista de Matrix, e uma frase que várias vezes recordei enquanto me deixava absorver pelo universo ímpar de Cyberpunk 2077. E se tivesse de descrevê-lo, é como a sensação de uma realidade paralela que palpita sob a nossa pele, roubando-nos a noção do tempo.

Sim, o novo título da CD Projekt Red consegue ter esse poderoso efeito.

Chega com a promessa de ser algo completamente diferente de qualquer outra coisa que já tivéssemos jogado, e é precisamente isso que entrega. E embora possa beneficiar das diversas referências de um tema que não é propriamente novo, nunca a atmosfera cyberpunk foi tão palpável para os jogadores.

Foi idealizado e construído para oferecer uma viagem. Sendo provavelmente por esta proposta única que se tornou o fenómeno que conhecemos, muito antes sequer de se conhecer a sua data de lançamento.

As virtudes de Cyberpunk 2077 são muito variadas, mas o seu mundo extraordinariamente imersivo é um dos parâmetros que mais sobressai. Night City tem vida própria e alberga um ecossistema cheio de personagens, enredos e missões secundárias que ansiamos descobrir a cada esquina.

A representação de um futuro dominado e assombrado pela tecnologia foi brilhantemente executado, porque além de sentirmos que está a um alcance que nos parece familiar e de se inspirar em filmes como Blade Runer, Minority Report, Zero Theorem e jogos como Deus Ex, Fallout e Half Life, consegue, ainda assim, ter uma linguagem própria.

Todavia, é a sua narrativa que mais reluz. Seja nos diálogos, na genialidade da história, ou nos plot twists que têm a capacidade de nos apanhar sempre de surpresa, quando nos envolvemos, é quase impossível deixar de jogar devido ao desejo insaciável de querermos saber mais.

Existem três Lifepaths para escolher (Nomad, Streetkid e Corpo), que servem para definir o passado do protagonista, a quem chamam de “V”. Não confundir com classes, uma vez que não interfere nas características da nossa personagem, e será apenas importante no sentido do role play. No fundo, é para que o jogador ganhe algum contexto inicial e tenha alguns traços de personalidade para se identificar.

As backstories de cada uma são bastante diferentes, sendo que o Nomad optou marginalizar-se da sociedade e radicou-se no deserto, afastando-se dos hábitos da cidade; o Streetkid, como o nome indica, vem das ruas, crescendo no meio de gangues e moldado pela cruel vivência de quem nada tem; já o Corpo é o completo oposto, criado no cínico e pouco escrupuloso meio empresarial.

Cada uma destas linhas é apenas um mote para o começo da história, no entanto, terão igualmente influência em alguns diálogos e outras circunstâncias.  Dado o conhecimento e a experiência de vida que as suas origens lhes conferiram, uns terão mais sucesso do que outros em determinadas situações, dependendo de com quem estiverem a lidar.

Tudo o resto sobre a personagem cabe a nós decidir, particularmente o seu aspecto, que pode ser totalmente personalizado, desde a cor das unhas, a outras coisas mais íntimas. Parecendo que não, mas esta abundância de opções, além de nos possibilitar criar a aparência exacta do que pretendemos, vai também fazer com que nos sintamos perfeitamente integrados num circulo repleto de figuras bizarras.

Pode ser apenas um pequeno pormenor, mas demonstra bem a enorme rede de interacções existentes na história, dado que a quantidade de personagens interessantes é espantosa. Começa com Jackie Welles, a quem nos afeiçoamos imediatamente e que será o guia que nos apresentará aos encantos, às rotinas e aos trabalhos disponíveis em Night City.

E é precisamente num desses serviços que tudo se descontrola, lançando a história para um inesperado revertério, e colocando-nos não só um prazo de validade, como também perante a aparição do carismático Johnny Silverhand, interpretado por Keanu Reeves.

O ritmo torna-se imediatamente vertiginoso, e camada-a-camada, ver-nos-emos cada vez mais nas entranhas do submundo excêntrico e sombrio da cidade, e que no final se traduz numa simples questão: o que restará da nossa humanidade?

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 A qualidade da narrativa é verdadeiramente notável. Aliás, basta olhar para a maneira brilhante que os argumentistas encontraram para nos deixar desvendar elementos-chave na história: as Braindances.

Em Cyperpunk 2077 há uma importante componente de investigação, e é experienciada através de uma percepção extra-sensorial à qual chamam Braindance. Quem viu o filme Strange Days saberá exactamente do que falo, mas resumidamente, é uma forma de degustar clips de momentos das vidas de outras pessoas, tal como se fossem nossos; o que nos permitirá deslindar pistas fundamentais para podermos avançar na história.

Mas além de tudo isso, ainda temos as quests secundárias, recheadas de variedade e complexidade. Raros são os enredos aborrecidos, em razão de termos sempre algo a retirar de cada missão; e o mesmo sucede com os diálogos, onde existe sempre uma margem para colocar um pouco de nós em cada conversa.

De facto, reflecte bem as oportunidades de Night City. E é quando começamos a explorar a cidade que compreendemos bem a dimensão do jogo. Há sempre algo a acontecer e muito para descobrir, com uma diversidade de cenários que somente jogando é que podemos entender.

Felizmente, para nos deslocarmos até às diferentes zonas do mapa, além do fast travel, temos igualmente os veículos que frequentemente usaremos como transporte, e que podemos invocar remotamente até à nossa localização. A sua multiplicidade é copiosa, e teremos acesso aos mesmos por meio de missões, comprando, ou simplesmente “pedindo emprestado”.

Cyberpunk 2077 foi desenhado para essencialmente oferecer opções. Será o próprio jogador que estabelece como será o gameplay, e a ampla skill tree é a prova disso. Há lugar para todas as práticas, e tanto podemos priorizar uma abordagem tipicamente mais shooter, como uma mais focada no melee; ou, se preferirem um estilo mais silencioso, investir maioritariamente no stealth.

Existem 5 atributos-base que funcionam como skills passivas (Reflexes, Body, Technical Ability, Intelligence e Cool) e cada vez que subimos de nível, ganhamos 1 Atribute Point (para somar às categorias referidas) e 1 Perk Point para distribuirmos como acharmos melhor. As perks são subconjuntos (igualmente passivos) relacionados com cada um desses atributos, e uma das duas formas de manipularmos realmente a nossa build.

A outra face da skill tree tem o nome de Cyberware, que são modificações cibernéticas que efectuamos ao nosso corpo. Estas mods irão facilitar a delinear a direcção que queremos dar à jogabilidade, especialmente em situações de combate, e dividem-se em três tipos de skills: Active, Passive e Triggered.

Não surpreenderá ninguém quando digo que as possibilidades no domínio das builds são imensas, o que torna o combate absolutamente fenomenal, em particular quando identificamos as armas da nossa preferência. E neste campo, apesar de não ser um Borderlands 3, temos, mesmo assim, uma porção de escolhas muito razoável, onde ainda se juntam atachments e mods.

O sistema de crafting é relativamente simples, e pode ser feito em qualquer altura, acedendo ao separador correspondente. Podemos craftar quase tudo o que é relevante, assim como fazer upgrades a equipamento já na nossa posse, algo que será muito útil numa fase mais avançada do jogo.

Mas passemos então ao assunto mais controverso, ou seja, o estado em que chegou às consolas-base da Xbox One e PlayStation 4. É a minha interpretação de que a CD Projekt Red se viu numa encruzilhada; por um lado, a pressão insustentável para lançar sem mais adiamentos – em que até houve ameaças de morte –, por outro, mesmo com a noção das dificuldades que um jogo tão ambicioso teria para correr no hardware das mesmas consolas, o cancelamento era impossível devido aos milhões de pre-orders já consumadas.

E sendo completamente honesto, sim, esse não é o único caso no que a bugs diz respeito. Antes fosse. Na verdade, a lista de bugs é actualmente tão extensa que é até despropositado falar apenas de um em específico. E se nos lembrarmos, o mesmo aconteceu no lançamento do The Witcher 3 e tudo foi depois corrigido, tornando-se numa das grandes referências dos RPG’s.

Nesse sentido, independentemente de compreender a frustração de quem tanto esperou e pagou para ter o jogo no primeiro dia, os updates já começaram a rectificar muitos dos problemas, e mais actualizações estão programadas para as próximas semanas.

Porque se formos justos, Cyberpunk 2077 está lindíssimo do ponto de vista gráfico no PC, e mesmo na PlayStation 5 e Xbox Series X tem desempenhos muito sólidos, e nem as respectivas optimizações receberam ainda.

Conduzir por Night City à noite, numa cidade carregada de neons e reflexos, é uma experiência à parte, e que só mesmo o novo título da CD Projekt Red consegue proporcionar. Não esquecendo a banda sonora, que é um dos ingredientes que mais ajuda a toda esta locomoção, contribuindo com uma das melhores playlists de 2020 e possivelmente dos últimos anos.

Ultrapassado este lançamento complicado, e certamente que Cyberpunk 2077 eventualmente terá o reconhecimento que tanto fez por merecer. E digo mais, não tenho dúvidas de que marcará a geração seguinte e ficará na história como uma das narrativas mais ricas e imersivas que já tivemos nos videojogos.