Developer: Supermassive Games
Plataformas: Xbox One, PlayStation 4 e PC
Data de Lançamento: 29 de Agosto de 2019

E após o estrondoso sucesso com Until Dawn, a Supermassive Games decidiu largar a exclusividade da PlayStation 4 e aventurar-se nos jogos multiplataforma com Dark Pictures: Man of Medan.

Dark Pictures é nome de uma nova e inédita antologia do terror – a primeira a chegar aos videojogos –, e que se assemelha a séries de culto como The Twilight Zone e The Tales From the Crypt.

Estreia-se com Man of Medan, o primeiro de oito episódios, cujas referências tornam evidente a inspiração no popular estilo slasher que tanto marcou o cinema dos anos 80 e 90. Friday the 13th, A Nightmare on Elm Street e Halloween são apenas alguns nomes de um género que ficou particularmente conhecido por se guiar sempre pela mesma receita e que consistia normalmente num pequeno grupo de adolescentes que tentavam desesperadamente sobreviver a um inesperado e surreal evento de puro terror.

Construir uma antologia, adaptando este conceito à jogabilidade que fez de Until Dawn um dos melhores títulos de narrativa que já tivemos o prazer de jogar, não só é uma ideia fantástica, como é inexplicável que só agora tenha sido feito.

Contudo, não é somente mais uma cópia de Until Dawn com uma nova história, já que introduz algumas mecânicas brilhantes, principalmente a nível do multiplayer, com os modos Shared Story e Movie Night.

Ambos num contexto cooperativo, Shared Story é um modo de jogo online para duas pessoas, onde iremos dividir a experiência com outro amigo. Simultaneamente e paralelamente, vamos contribuindo para a história nas perspectivas das personagens em cena, significando que enquanto um está a ver uma coisa, muitas vezes o parceiro está a ver outra. Um co-op que tira o máximo partido da sensação de esquizofrenia e dúvida que nos acompanham por todo o jogo.

Quanto a Movie Night, é um modo de jogo também ele cooperativo, porém com a diferença de funcionar localmente e podendo ir até cinco jogadores. Cada pessoa escolhe a sua personagem e vai jogando por turnos, com o comando a passar por todos os participantes. Um modo que proporciona muitos sustos e gargalhadas e ideal para uma reunião de amigos numa sexta-feira à noite.

Mas vamos ao que mais importa: a história. Num jogo de narrativa, escusado será dizer que o enredo é o seu elemento mais fundamental, especialmente quando estamos no começo de uma antologia. Sabendo isso, a Supermassive Games preparou uma história cheia de familiaridades, sendo a mais evidente com Ghost Ship. Tal como a longa-metragem de 2002, Man of Medan tem como cenário um navio fantasma, que será o inevitável destino de Conrad (desempenhado por Shawn Ashmore: actor protagonista em Quantum Break), Alex, Brad, Julia e Fliss (Ayssa Issa, com actuações em Polar e Warm Bodies).

Alex e Julia, além de uma relação amorosa, têm também outra forte paixão em comum: caçar tesouros no fundo do mar. Certo dia, decidem levar Conrad (o descontraído e arrogante irmão de Julia) e Brad (o introvertido e inseguro irmão de Alex) a bordo de uma pequena embarcação capitaneada por Fliss (a capitã de personalidade sisuda e pouco dada a brincadeiras). Tudo corria bem, até que um imprevisto os conduz ao abandonado navio militar americano da Segunda Guerra Mundial, que irá testar a sanidade mental deste mal-aventurado grupo de jovens. Os papéis são desempenhados de forma credível e tal como um bom slasher, vai alternando o suspense com momentos de verdadeiro humor.

A jogabilidade é muito similar a Until Dawn, numa mistura muito natural entre as cutscenes e as ocasiões em que exploramos e interagimos com os pontos realçados no cenário. Numa progressão que toda ela é linear, o objectivo é distrair-nos com as pequenas coisas e evitar os quebra-cabeças, de forma a que não nos afastemos do envolvimento e da tensão que são constantes.

E quando menos esperamos, o coração pula!

A proposta passa precisamente por aí, não sabermos com o que contamos. O caos é essencial neste jogo, porque entre a inquietação e o medo, há a atrapalhação hilariante dos quick time events, numa procura desesperada pelos botões certos.

A grande inovação está provavelmente relacionada com as perspectivas enquanto investigamos os escuros e desertos corredores do navio. Tudo muito próximo do que podemos ver no cinema, parecendo que estamos perante os planos escolhidos pelo realizador, que os pensou com todo o cuidado e intenção. Tal e qual um filme.

Mas existem mais aspectos igualmente interessantes. Um deles é que apesar de cada personagem ter a sua própria personalidade, esta vai sendo moldada a cada decisão tomada e podemos até ver os traços que distinguem cada uma delas. E quando consultamos os perfis de Alex, Julia, Conrad, Fliss e Brad é também possível verificar os níveis de proximidade que têm entre si, assim como o registo das decisões responsáveis por achegar ou afastar os personagens.

As Premonições são outra mecânica muito curiosa e embora inicialmente possa parecer pouco relevante, eventualmente percebemos que faz todo o sentido do ponto de vista psicológico. Mas no que se traduz? Vários quadros estão espalhados pelo navio, pinturas tenebrosas que quando vistas de perto, dão-nos um vislumbre de algo que está para acontecer. Nesta conjuntura de paranóia incessante, acreditem, é algo que nos coloca imediatamente a sofrer por antecipação.

Graficamente, Man of Medan está absolutamente fantástico. O ambiente sombrio e macabro é perfeito na construção de um estado de ansiedade crescente. Os vultos, a neblina, a luz intermitente, ou seja, todos os princípios clássicos que constituem as películas de terror.

E não sejam medrosos, joguem com auscultadores. Um bom título de horror assim o exige e aqui não é diferente. Sim, a óptima banda sonora e os arrepiantes sons sinistros que ecoam pelas paredes metálicas do navio vão deixar-nos em constante sobressalto. Mas o propósito é esse, certo?

A história curta e os sérios problemas de performance prejudicam ligeiramente a experiência, todavia não é o suficiente para que não fiquemos a contar os dias até ao lançamento de Little Hope, o próximo episódio de Dark Pictures que foi entretanto anunciado.

Completamente obrigatório para os fãs do género.