Developer: Bend Studio
Plataforma: PlayStation 4
Data de Lançamento: 26 de abril de 2019

A primeira vez que ouvi falar de Days Gone foi na E3 de 2016. Na altura, as imagens do gameplay deixaram-me com água na boca. Ainda via a série The Walking Dead e aquele conjunto de zombies todos atrás de uma personagem era algo que me deixava inquieto. Lembrava-me o Resident Evil ou o Last Of Us, mas aqueles eram zombies a mais, vinham aos molhos. A pergunta que eu fazia era: como nos vamos safar de algo assim? É impossível matá-los todos. Foram precisos quase três anos para eu ter uma resposta e depois de alguns adiamentos Days Gone vê agora a luz do dia . Será capaz de cumprir as expectativas? Já lá vamos, comecemos pelo início da aventura.

Deacon está com a sua esposa Sarah e com Boozer, do seu grupo de motoqueiros no meio de um apocalipse. Estão a ser atacados por pessoas totalmente descontroladas que parecem zombies, mas na verdade são Freakers. Ao longo do jogo percebemos que esta espécie é atraída pelo barulho e pelo fogo, que se alimentam, que existem diferentes classes entre eles e que têm alguns comportamentos previsíveis como sair à noite para procurar comida e juntar-se de dia em esconderijos que vamos poder destruir. Sarah e Boozer estão feridos e há um helicóptero que talvez salve algum deles. Deacon pede ajuda a um tal de O’Brian, que vai ser importante para o resto da história, mas não queremos estragar surpresas. Ele diz ser apenas estagiário e que só pode levar dois deles. Acaba por levar apenas Sarah, ficando Boozer e o personagem que vamos controlar, o Deacon St. John. Dois anos passam e Deacon pensa que a sua esposa morreu, juntamente com todos os que seguiram naquele avião.

É precisamente esse o ponto de partida para começarmos a desvendar o mundo aberto de Farewell, localidade fictícia nos Estados Unidos, onde decorre a ação de Days Gone. Uma zona que está totalmente destruída e onde há perigo em todo lado, quer seja pelos Freakers ou pelos Rippers. Estes são humanos como nós que admiram os Freakers e entendem que estar infetados com o vírus que parece ter criado tudo isto é uma dádiva da vida e por isso são capazes de nos torturar ou armadilhar estradas para sermos apanhados. Há ainda lobos que aparecem subitamente e até me assustaram em alguns momentos, corvos e imaginem, ursos infetados. Depois existem também as chamadas Hordas que são um conjunto enorme de Freakers a vaguear por ali. São pelo menos 300 ao mesmo tempo e metem medo, mas é a parte mais desafiante de Days Gone. O melhor é evitar ser visto, se não o mais certo é morrer em pouco tempo. Há Hordas em missões, mas também as encontramos ao descoberto enquanto andamos por ali sabe-se lá a fazer o quê, normalmente é a fugir de algo. A escassez de recursos também nos vai inquietar. Há alguns carros por abrir e áreas que têm mais recursos que outras, mas no final são poucas as coisas que temos em mãos para fazer frente a tanto perigo. É fundamental gerir o que se tem, mas não raras vezes vão ficar sem balas, ligaduras ou outras coisas que vão necessitar. É este mundo que vamos enfrentar no papel de Deacon, um vadio com coração mole que parece ter tanto de boa pessoa, como de má, capaz de salvar e de matar sem ficar com remorsos.

A boa notícia é que não estamos sozinhos. A mota será a nossa maior aliada na luta pela sobrevivência. Vamos ter de andar com ela grande parte do tempo. Para nos levar onde queremos ou até mesmo para fugir dos Freakers, Rippers ou Hordas. Vamos ter de a tratar bem, se não corremos o risco de ter de andar a pé. Isto porque sem combustível não vamos a lado nenhum, portanto é bom ter isso em conta quando partimos para uma missão. Sem o depósito cheio correm o risco de ter de parar para procurar combustível. Normalmente aguentam 2 Km sem abastecer. Teremos de ter em conta também por onde andamos, porque na mota há peças que se vão estragando com saltos mal calculados ou quando vamos contra árvores, carros ou até inimigos. Para tratar desse problema é necessário acumular alguma “sucata” para depois a reparar. Também podemos fazer melhoramentos à mota nos acampamentos espalhados pelo mapa, mediante pagamentos claro. Há um vasto leque de alterações que podemos fazer como colocar novos motores, mudar de farol, pneus, escape, tamanho do depósito e até pintar a mota com alguns símbolos do jogo.

É nesses acampamentos que também vamos andar a explorar e a fazer missões para cada um dos seus líderes. Com isto ganhamos experiência e a sua confiança, o que nos dará acesso a armas e materiais melhores. Days Gone tem um vasto leque de opções de tarefas para fazer mas são bastante repetitivas no final de algum tempo. Podemos preocupar-nos em seguir a história principal que tem mais de 30 horas ou explorar mais as missões secundárias que vão desde queimar ninhos onde estão os Freakers, até restaurar eletricidade em alguns campos do NERO, uma organização nacional de resposta aos desastres que aconteceram em Days Gone. Todas as missões vão dar-nos experiência e pontos de habilidade para depois evoluir vários aspetos da nossa personagem. Ataques de longo alcance, melhorias no combate corpo a corpo são alguns exemplos. Entre as missões que temos para fazer destaco as que recordamos como Deek (é assim que os amigos lhe chamam no jogo) conheceu Sarah e as coisas que fizeram juntos. Até vamos poder jogar algumas partes desse passado romântico, mas até fica a ideia que podíamos jogar mais um bocado. Outras das missões que adorei fazer, são as que temos de andar escondidos a ouvir o que um grupo de cientistas do NERO estão a descobrir. É assim que ficamos a perceber mais da história de Days Gone que nos vai desvendando alguns segredos e colocando mais perguntas sobre o sucedido. Estas são missões que fazemos em modo furtivo para que ninguém nos veja. Depois também há as típicas missões de ir matar este ou aquele, ou buscar isto ou aquilo. Na primeira parte da história, o número de missões deste tipo até me parece exagerado e andamos ali feitos baratas tontas a andar de um lado para o outro sem ver a história andar para a frente.

Também temos algumas armas que vamos poder utilizar. Tábuas com pregos, tacos de basebol, marretas ou machados que são muito úteis na luta com os Freakers que se aproximam de nós no combate corpo a corpo. No entanto estas armas têm curta duração e depois de matarmos dois ou três, o melhor é procurarmos outros objetos. Podemos usar garrafas ou pedras para distrair os inimigos, à boa maneira de Last Of Us e podemos fabricar cocktail molotov que vão ser muito úteis para colocarmos fim a alguns esconderijos de Freakers. No nosso círculo de armas podemos ter três de cada vez, uma principal, uma secundária e até a besta que serve para atirar flechas. Disparar contra um inimigo não é uma tarefa tão simples quanto isso porque o sistema parece que foi pouco optimizado e é mais manual que automático. Não esperem carregar no L2 e esperar que a mira esteja no ponto certo, podemos e devemos é com a preciosa ajuda do R3 entrar no modo foco e atirar certeiro nos adversários. O sistema de vida tem duas barras. Uma de energia a azul, que se esgota conforme vamos correndo (não há sensação pior que acabar essa energia quando temos uma Horda atrás de nós) e uma outra barra de saúde, a verde, que podemos melhorar ao criar ligaduras ou usar kits medicinais que vamos encontrado em ambulâncias abandonadas. É importante dizer que em Days Gone vão encontrar um clima dinâmico conforme as estações do ano. Vamos passar temporadas mais chuvosas que outras, grandes nevões e dias mais solarengos que outros. Isto não tem influência direta no que vestimos, nem na vida de Deacon, mas é importante para o tratamento da nossa mota que no inverno vai estragar-se mais rapidamente devido às chuvas e terrenos lamacentos que vamos encontrar.

Os gráficos estão em grande nível e as cutscenes quase se confundem com a ação de jogo, no entanto sempre que entra ou sai uma parte de vídeo, a imagem vai a negro para diferenciar as coisas, coisa que não acontece por exemplo em God Of War 4 onde a acção é quase toda seguida. As cutscenes são boas e os diálogos também, mas a emoção que os personagens colocam nas coisas não é tão notório como noutros jogos exclusivos Playstation. A Bend Studio que criou o saudoso Syphon Filter até fez um bom trabalho, mas dá a ideia que está ali muito potencial que não foi aproveitado a 100%. Há cutscenes bastante longas, mas eu até gosto disso desde que tenham ritmo.

Apesar dos gráficos e texturas brilhantes, vamos ter alguns problemas de framerate, principalmente quando há muitos Freakers no ecrã. Há alguns erros que também prejudicam a experiência, tais como estarmos a andar e de repente aparecer um veículo que não estava ali e nos espalhamos de mota e morremos sem mais nem menos. Também em algumas missões a inteligência artificial de quem nos acompanha deixa a desejar. Foram raras, mas houve algumas missões que tive de reiniciar um ponto de gravação intermédio porque a outra personagem bloqueou e começou a andar em círculos ou ficou parado sem fazer nada. Problemas que provavelmente serão resolvidos numa futura atualização. O tempo de loading quando recarregamos o jogo também é muito demorado, mas também não é por aí que o jogo é pior ou melhor. A banda sonora está excelente. Os sons que ouvimos enquanto viajamos dá-nos uma sensação de perda e tristeza e está bem relacionada com o drama que se vive ali. Tanto que às vezes não contrasta com a maneira como Deacon fala. A tradução para português está muito bem feita, mas é na feição do personagem que falta algo.

Coisas para fazer e diversão não vos vai faltar e se quiserem parar para ver melhor as paisagens de Farewell ainda terão o modo fotografia para tirar belos retratos. Mas se querem mesmo saber vão ter pouco tempo para parar porque como já vos disse, há perigos em todo o lado.

Days Gone trás o ADN de vários exclusivos da Sony, a parte apocalíptica e o sistema de armas de Last Of Us, o sistema de seguir rastos, o mapa, a furtividade e até algum crafting de Horizon Zero Down, as cutscenes à Uncharted e por aí fora. Vamos sentir ainda a familiaridade com séries de sucesso como The Walking Dead ou Sons Of Anarchy por causa dos motoqueiros. Com tantas referências na nossa mente parece que já tínhamos jogado Days Gone em alguns momentos o torna fácil a nossa habituação à jogabilidade do mais recente exclusivo da Sony.

Com uma longa caminhada de três anos e toda a expectativa criada em torno de Days Gone, não se podia pedir mais, mas podia pedir-se melhor. Nesta longa viagem parece que faltou o combustível pelo meio. Tem muitas horas de jogo, é verdade, mas muitas horas de repetição de missões. Tem problemas técnicos que deveriam ter sido calculados e ultrapassados, mas tem o reverso da medalha com uma boa narrativa, gráficos de se lhe tirar o chapéu e uma sensação de inquietação num mundo onde não há paz. Isso é divertidíssimo e viciante.