Developer: Kojima Productions
Plataforma: Playstation 5
Data de Lançamento: 24 de Setembro de 2021

Quase dois anos depois do lançamento e da análise a Death Stranding muito se continuou a falar de um dos jogos que marcou a geração PlayStation 4. A obra prima de Hideo Kojima ganhou entretanto uma versão PC mais apurada e ainda um Photo Mode muito cobiçado pelos jogadores mais criativos que tenham jeito para a fotografia. Com a chegada da nova geração de consolas, o jogo continua a ser relançado e desta vez chega num formato Director’s Cut, em exclusivo para a PlayStation 5, para aproveitar as potencialidades da consola.

Sobre a designação escolhida para esta versão, Death Stranding Director’s Cut, eu não concordo com ela e tal como Kojima referiu, não se trata de conteúdo que foi cortado, mas sim de novas adições ao jogo. Esta é, no fundo, uma versão remasterizada e com algumas adições de mecânicas e ferramentas ao jogo, mas mantém a fabulosa história que Death Stranding tem e apimenta com mais um toque de mistério quando exploramos uma nova área que estará presente no jogo. Já lá vou.

Nesta altura do campeonato já todos devem saber do que se trata Death Stranding, mas para quem ainda não pegou no jogo vou tentar explicar de forma simples. O nosso personagem é Sam Porter Bridges, um trabalhador que é considerado o melhor na arte das entregas e que é o escolhido para voltar a unir uma América destruída de modo a evitar outra Maré de Morte, um evento que pode destruir tudo e todos. Este foi o último pedido da sua mãe antes de morrer. Bridget era Presidente e pediu a Sam para terminar o que a sua irmã Amelie começou e não conseguiu acabar, ligar a América. A história é longa e confusa e ganha contornos inesperados a certa altura. Já era o melhor do jogo e continuo com essa convicção, embora desta vez, jogado pela segunda vez, tenha sido menos surpreendente e mais compreensível. 

A nossa tarefa será então fazer as mais diversas entregas que nos pedem e ligar as várias zonas da América a uma rede quiral para que todos possam estar interligados. Existem diversos terminais espalhados pelo mapa e são eles que nos vão permitir descansar e organizar as viagens entre zonas. Há vários tipos de entrega, desde as mais perigosas, às que têm de ser feitas num determinado tempo ou de uma determinada forma, seja para levar numa mão ou até com as duas se acedermos a uma entrega de pizza, por exemplo. Sim, há muitas variedades de pedidos que podem parecer estranhos, mas têm de se fazer, pelo menos os principais. Os outros podem deixar para o fim se assim o desejarem. Isto até deu origem a vários memes pela internet fora desde o lançamento em 2019 com montagens de Sam a levar às costas uma mochila daquelas marcas mais conhecidas de entregas de comida ao domicílio. Já devem ter visto.

Para dificultar as nossas longas caminhadas vamos encontrar pelo caminho as MULAS que são um grupo de terroristas viciados em carga e que serão capazes de tudo para roubar a nossa. Dignas de seu nome, quando passarem numa dessas áreas o melhor é sair de lá o mais rápido possível. Depois quando há muita chuva do tempo, que envelhece a pele e é capaz de estragar alguma carga, as BT’s aparecem para nos sugar para o mundo dos mortos. Trata-se de um género de almas que nos tentam agarrar e levar para lá. Não se preocupem se forem arrastados por uma porque além de nos darem a oportunidade de lutar, pode-se sempre voltar ao lado dos vivos porque Sam é um repatriado e parece estar sempre entre um mundo e o outro. É estranho, eu sei, mas no jogo percebe-se. 

Para nos ajudar a evitar estas malditas almas temos o BB. O famoso bébé que está dentro de uma cápsula e que Sam carrega ao colo durante toda a viagem. BB tem um mecanismo em que parece que estamos a jogar ao quente e frio de modo a saber onde é que se escondem estas forças do submundo. Teremos ao nosso dispor exatamente todos os mecanismos e armas do jogo original e ainda algumas adições que tornam esta nova versão mais acessível a todos e as entregas mais rápidas.

Entremos então verdadeiramente nas novidades de Death Stranding Director’s Cut que está com uma imagem lindíssima. As montanhas com a neve, os vales, as cascatas e todas as texturas do jogo estão ao nível daquilo que se espera para uma imagem desta nova geração. No início nem me parecia uma evolução por aí além, mas depois de jogar um pouco da versão PlayStation 4 novamente, não há comparação possível. O jogo até parecia travar e ter um framerate inconstante. Podem jogar no modo 4K a 30fps ou a 60fps, um que favorece os detalhes gráficos e outro mais focado no desempenho. Eu prefiro este último e digo-vos que está uma maravilha. Até dá gosto.

Outra boa nova que vos quero dizer é que podem passar as gravações e os dados da versão PS4 e continuar a jogar na PS5. Espero que tenham mais sorte que eu que já tinha terminado o jogo e feito grande parte de entregas secundárias quando a minha PlayStation 4 decidiu estragar-se e levar consigo, entre outros saves, o de Death Stranding. Sabia que o tinha de jogar outra vez para completar o enorme mapa e concluir todos os caminhos do ecossistema criado de propósito para a realidade do jogo e aqui estava a oportunidade perfeita.

Voltei a começar a história e reparei logo nas novas ajudas no trilhar do caminho. Antes tínhamos de ser nós a descobrir o melhor caminho a seguir, mas agora podemos ver uma sugestão que o próprio mapa nos dá. Isto apenas facilita o processo, mas não se livram de ter de equilibrar a carga com o R2 e L2 para não caírem. É bom reviver tudo de novo, até aconselho a fazer, mesmo para quem já tenha terminado o jogo na PlayStation 4. Sem a total surpresa dos acontecimentos, percebi melhor algumas coisas do que na primeira vez que joguei. Se por um lado isto é bom, pelo outro tira o suspense e algumas surpresas.

Mesmo assim, houve situações que me suscitaram grande curiosidade neste Death Stranding Director’s Cut, nomeadamente os novos sonhos que Sam tem quando adormece no quarto privado, no qual um deles até me pregou um valente susto e a nova área no mapa chamada de “A Fábrica em Ruínas”. É aqui que está guardado o grande mistério para quem já completou a história. A primeira vez que é possível ir até lá é através de uma missão secundária, na qual também recebemos uma nova arma poderosa, a Maser Gun. Com ela podemos eletrocutar os nossos inimigos e até os carros das MULAS, deixando o caminho livre. Esta zona é jogada de forma furtiva, a lembrar Metal Gear Solid, a franquia que fez de Kojima aquilo que é hoje. Há uma série de missões para fazer lá e há que ir trilhando caminho entre ir roubar informações e voltar para as descodificar. Não vos digo mais nada sobre isto, mas certo é que para quem já jogou o original, tem aqui uma nova motivação para ir explorar.

À medida que se avança recebemos os equipamentos que nos deram tanto jeito na primeira viagem por Death Stranding, tais como as pernas esqueléticas, estabilizadores de carga para não cair e as viaturas. Podemos agora contar com mais equipamento que nos facilita a vida. Saltar de falésias sem criar dano na carga será possível mais lá para a frente com material próprio e ainda teremos acesso a um robô que é capaz de levar bastante carga e, em último caso, até nos levar a nós. O Buddy Bot, como é conhecido, será mais uma das ajudas que temos, embora às vezes se meta por caminhos complicados, mas não me posso queixar porque até me deu bastante jeito. Podemos enviá-lo para o terminal que está mais perto de nós ou para o próximo ponto de entrega da carga que levamos. Se quiserem fazer pausas e continuar a avançar no jogo, o Buddy Bot será mesmo o vosso melhor amigo.

Paga-nos o café hoje!A nível de construções também há novidades. Além das pontes normais, das tirolesas, dos abrigos, dos geradores e das proteções contra a chuva do tempo que já existiam, agora vamos poder criar rampas para dar saltos maiores com as viaturas e até instalar catapultas para lançar a carga até certo ponto. É divertido fazer isto até porque há um mini jogo para tentarmos mesmo acertar na área em que queremos deixar a mercadoria. Também podemos construir pontes quirais, onde normalmente as outras não conseguiam assentar, ou seja, podemos fazer uma ponte entre um terreno plano e uma falésia por exemplo. Se cada um já fazia o seu próprio caminho, agora ainda terão mais diversidade. Podem também customizar o BB ou a mochila que acompanha Sam ao longo da aventura.

Death Stranding Director’s Cut continua a ser um jogo social em que se pode deixar uma escada ou uma corda no caminho para outros jogadores aproveitarem e até podem colocar um “Gosto”, à boa maneira das redes sociais. É claro que também vamos beneficiar disso quando outros jogadores deixam pelo caminho algumas ajudas. Além disso, Kojima criou o jogo mais competitivo em diversos aspetos. Um deles é poder aceder quantas vezes quisermos às batalhas com os bosses para ter uma pontuação específica que nos dará um lugar no ranking a nível mundial. Não deixa de ser divertido, mas é algo que não ligo muito. 

Outra novidade deste Death Stranding Director’s Cut, também com foco na competição, é o autódromo que podemos construir com materiais necessários numa parte do mapa que não estava aproveitada, perto da base onde nos encontramos com a Mãe, junto à quinta da chuva de tempo. É lá que se pode participar em desafios de contra-relógio individuais ou competitivos se quisermos participar nos diversos eventos que vão sendo atualizados. Os veículos que podemos usar são os que temos na nossa garagem. Há vários formatos de pista que são basicamente como as estradas que vão sendo reconstruídas ao longo do jogo. Isto pode ter o seu quê de divertido, mas não fiquei fã destas corridas pela fraca jogabilidade. É certo que não é um jogo feito para este tipo de atividade, mas podia ser mais manobrável um veículo a alta velocidade. Das duas uma, ou vamos na velocidade normal que parece demasiado lento, ou aceleramos sabendo que a tarefa de virar é quase impossível e que para travar há falhas normais de um jogo que não é suposto ser para isso. Fica ainda assim mais um espaço disponível para quem quiser ter alguns momentos de diversão.

Continuando na onda da competitividade, há uma nova área de treinos que permite usar armas e aperfeiçoar a nossa arte para disparar, atirar granadas ou roubar carga aos inimigos. Os desafios vão aparecendo conforme vamos avançando na história e se chegar uma nova arma, é certo que podemos ir praticar antes de ir para o terreno. Tudo é possível exercitar nesta sala virtual que lembra os treinos VR de Metal Gear Solid. Estes treinos também se podem tornar competitivos, uma vez que a nossa pontuação conta para um ranking mundial de jogadores. Até podemos aceder a desafios que nos aparecem e tentar passar com a melhor marca. Mais um extra que dá longevidade ao jogo, mas mais um que nem me aquece nem arrefece. 

Por outro lado, bem mais agradável e que nos dá uma maior sensação de peso é jogar com o DualSense, onde Death Stranding Director’s Cut aproveita o que o comando é capaz de fazer. Cada passo é sentido nas nossas mãos, o peso que Sam carrega é perceptível com os gatilhos a ficarem mais pesados. Os sons do BB a chorar e o vento que surge das montanhas dão uma maior imersão ao jogo. Algo que me pareceu mal feito, mas certamente merecerá uma atualização futura é quando temos de embalar o BB para ele parar de chorar. Fazemos o movimento suave com o comando, mas o que se vê é Sam a agitar a cápsula. Não deixa de ser estranho e acredito que o bébé não ache assim tanta piada, embora ele no fim se ria e nos deixe todos derretidos. 

Já se sabe que Death Stranding conta com um grande elenco, mas nunca é demais sublinhar as suas participações. Norman Reedus é Sam Bridges e Guillermo Del Toro é Deadman que se dedica a descobrir, entre outras coisas, de onde surgiram os BB’s. Por cá podemos naturalmente contar com o jogo em português com destaque para Pêpê Rapazote que faz a dobragem da voz do personagem principal. 

Se já tinham umas longas 40/45 horas de história pela frente do jogo original, agora, apesar de tudo se conseguir fazer mais rápido, há ainda mais extras para explorar. A esta longevidade, podem acrescentar ainda oito novas músicas que continuam a ser uma delícia cada vez que a imagem se afasta de nós, enquanto continuamos a caminhar. São momentos cinematográficos que só se dá conta deles a jogar e tornam-se épicos.

Death Stranding Director’s Cut tem todo o conteúdo do jogo original e acrescenta uma qualidade gráfica significativa para mostrar, ainda mais, a beleza dos vales e montanhas que Sam tem de atravessar. Tem uma data de novos conteúdos extra com destaque para a nova área que esconde alguns segredos que teremos de descobrir com várias infiltrações furtivas à Metal Gear Solid. Aproveita a PS5 e o DualSense e é sem dúvida um jogo obrigatório para quem nunca pegou no jogo original. Esses terão uma experiência como eu tive na primeira vez que joguei. À segunda, não se tem tantas surpresas e já não é a mesma coisa. Não é pior, é só diferente. Continuo a considerar o jogo uma obra de arte e um dos melhores que já joguei até hoje. Está na hora de ir preparar mais uma encomenda, espero encontrar algo vosso no meu caminho.