Developer: Media Molecule
Plataforma: PlayStation 4
Data de Lançamento: 14 de fevereiro 2020

Dreams é mais do que um jogo. É uma mágica rede social de criações chamada Dreamiverso, onde a comunidade se avalia, elogia, joga, melhora, e também, claro, denúncia coisas mal feitas. A Media Molecule está de parabéns com o trabalho que conseguiu desenvolver com mais um exclusivo PlayStation, depois do aclamado LittleBigPlanet. Podemos até encontrar algumas parecenças, pelo menos no conceito, mas Dreams está muitos anos à frente e onde qualquer coisa parece ser possível de criar e jogar.

Numa só noite, Dreams fez-me viajar até ao início de Metal Gear Solid, apanhar maçãs com o Crash Bandicoot, voar com o Spyro, correr com o Sonic e jogar Pong a seguir. Pode parecer estranho, mas é possível, aliás é o normal quando se liga Dreams e se abre o modo Explorar-Sonhos. Perdi a conta à quantidade de criações que joguei, algumas melhores que outras, claro, mas o sistema de “gostos” vai ajudar-vos a distinguir o bom, do mau. Estas criações que falei foram já feitas pela comunidade de Dreams que tiveram o Acesso Antecipado há menos de um ano. E o que conseguiram fazer é algo bom e que me faz olhar para o futuro do jogo com bons olhos, porque a partir daqui é sempre a crescer e a melhorar.

Além destas criações da comunidade, a Media Molecule fez algumas para jogarmos no lançamento do jogo. Joguei o Blade Gunner, que é uma espécie de imitação de Resogun, um dos jogos que mais joguei no início da Playstation 4. Apesar de não me agarrar tanto como o original, ainda passei alguns momentos bons a disfrutar do jogo. No campo das plataformas, joguei Pip Gemwalker, que é muito inspirado em jogos como FEZ e que embora seja simples, ainda dá que pensar em alguns momentos, principalmente em níveis avançados. Depois destes fui até à grande criação que a Media Molecule preparou para nós todos com o objetivo de mostrar todas as potencialidades do jogo. “O Sonho de Art” é o modo história e foi feito de raíz no Dreams e está uma maravilha.

“O Sonho de Art” dura cerca de duas horas e que é como se fosse um filme de animação. Um autêntico musical onde Art se assume como personagem principal que teve alguns problemas com a sua banda. O objetivo da aventura é levar Art ao bom caminho para que a banda se volte a reunir. Para que tal aconteça vamos passando vários “níveis”, com diferentes personagens carismáticos criados de raíz para esta animação. A experiência é excelente e muito divertida. Tem momentos de humor únicos e claro, sendo um musical tem toda essa parte de cantar e dançar. Sem querer estragar muito as surpresas que vão encontrar, se Dreams fosse apenas e só isso, já era um excelente jogo, embora que curto. Quando olho para “O Sonho de Art” como algo criado de raíz dentro do próprio Dreams é aí que fico boquiaberto pelo potencial que há no jogo. Deu me vontade de criar também algo, mas aqui entre nós, tenho muita montanha pela frente no que toca ao modo criação que já vou falar mais à frente. Convém dizer que enquanto jogamos temos de ir coletando umas bolas que funcionam como packs de elementos criativos. Desde personagens, passando por árvores, flores, ambientes e músicas para usar nas nossas criações.

Antes de avançar para a parte mais criativa, continuei a jogar mais uns sonhos que foram criados pelos utilizadores e houve um em especial que me pareceu estar já numa boa fase de desenvolvimento que é o Silent Hills, baseado numa das demos que Kojima fez há uns anos com P.T. Nessa criação assistimos a diálogos, cenas inspiradas nessa amostra e até lutas com bosses. Até deu para me assustar em alguns momentos com a música que estava a dar que era sinistra. Também há jogos para multijogador, como por exemplo um de luta de beyblades chamado Battle Tops onde podem jogar até 4 jogadores. Além destes sonhos a que podemos chamar mini jogos, o que é certo é que ainda podem criar músicas, curtas e até simples galerias de imagem que pode ser por exemplo uma mesa com comida. E sim, vi coisas fantásticas criadas pela comunidade que é o factor chave de Dreams. Podemos seguir vários utilizadores, ou apenas a sua criação, colocar “gosto”, comentar, dar feedback e até denunciar algo menos bem feito ou ofensivo. Isto permite ao Dreams e a nós também, saber quais as criações que a comunidade mais gosta e as que mais anda a jogar no momento. No modo para Explorar-Sonhos vai ainda aparecer os que eles recomendam para cada um de nós, conforme o que vamos jogando e gostando. Quanto mais jogamos Dreams, mais o nosso nível como Sonhador aumenta e baseia o nosso estilo conforme o tempo que dedicamos a cada secção que vai desde jogar, ser curador, arte, design, animação e música. Tudo depende se criamos ou jogamos mais. Eu sou um Sonhador jogador por exemplo, pelo menos para já.

Na maior parte dos sonhos jogáveis, os comandos de jogo são relativamente simples e até mesmo quando estamos a controlar a nossa “criatura”, é esse o nome utilizado para um personagem que é escolhida e controlada por nós com os movimentos do comando. Se por acaso houver algum problema de calibração com o ecrã, basta pressionar o botão “Options” e o boneco passa para o centro da imagem. As coisas complicam-se é na parte da criação, onde usar os comandos move vai revelar-se fundamental para criar algo decente. Ainda assim, isto se tivesse um teclado e um rato é que era, mas também não se pode ter tudo. O Touchpad dos comandos também pode ser uma boa alternativa se o conseguirem dominar.

No modo criação é preciso muito investimento, para criar algo realmente bom ou aceitável, mas felizmente Dreams é quase uma escola web de como criar algo. Existem inúmeros tutoriais que explicam passo a passo como se faz as coisas e preparem se para “perder” horas a vê-los, para depois poderem avançar para a criação de algo a partir do zero. O meu primeiro tutorial foi terrível. Até saber manobrar bem e entender-me com os botões demorou algum tempo e nem fui capaz de criar nada de jeito. Noutras tentativas a coisa já correu melhor, até porque depois vamos aprendendo como fazer as coisas da melhor maneira. É quase como andar num curso que divide as aulas para iniciantes, médios e quase os profissionais mais avançados. Aos poucos vai se aprendendo, mas o processo não é rápido.

Como já vos disse podemos criar praticamente tudo o que nós quisermos. O objetivo é idealizar um jogo na nossa cabeça para depois passar para a ação. Podemos criar de raiz, tendo como ponto de partida um cenário vazio, ou podemos partir através de um template pré-feito em que modelamos as coisas à nossa maneira. Ainda é possível agarrar na criação de alguém e re-misturar com novos elementos. Isto permite enviar-lhe a nova criação e por exemplo ter um sonho com cenas de diferentes jogadores o que expande ainda mais este conceito de comunidade no Dreamiverso. A arte de copiar e colar elementos é um dos pontos chave na criação de níveis, por exemplo o chão dos níveis é mais fácil com padrões sobrepostos e colados uns a seguir aos outros para dar um ar mais realístico. Depois podemos enfeitar com vegetação, flores, árvores, colocar armadilhas, monumentos e uma data de possibilidades. Cada peça é totalmente moldável a tamanho e forma e está à nossa disposição um sistema de efeitos sonoros que podemos colocar onde quisermos ou até criar algumas músicas ambientes, personalizar a luz usada no nível e sei lá mais o quê. É repetitivo dizer que praticamente é tudo personalizável e é quase tudo possível, mas é verdade.

Para também dar um ar competitivo, Dreams vai organizar várias Jams criativas com tempo limite e dedicadas a um tema próprio e aí se verá do que cada jogador é capaz de criar com pouco tempo e condicionado pelo tema. As últimas antes de terminar a análise foram sobre comida e sobre o amor. Há coisas fantásticas a serem feitas e sem dar muito conta, começamos a fazer algo e de repente já passaram umas valentes horas. O que a comunidade de Dreams foi capaz de fazer em menos de um ano eleva a fasquia para o que ainda pode vir por aí. Uma evolução para a Realidade Virtual ou para a PS5 está claramente em cima da mesa, bem como novas atualizações com criações da Media Molecule. 

A parte má de Dreams é a mesma que nós temos nos nossos sonhos. É que não passam disso mesmo. Os sonhos não são reais embora às vezes pareçam. São apenas visões distorcidas da realidade. Quero com isto dizer que não será possível criar um Tomb Raider ou um Uncharted de nova geração, mas sim, apenas reviver alguns momentos com uma Lara Croft ou quem sabe um Nathan Drake improvisados num cenário de animação que nos faz parecer um destes jogos. Mesmo ao jogar Crash ou Sonic não é a mesma coisa, é apenas uma criação ou se quisermos chamar, uma ilusão ou imitação de algo já existente. Ainda assim com tanta criação, Dreams não é esse tipo de jogo, é um mundo de jogos que qualquer pai quer oferecer a um filho que em vez de um tem vários jogos num. Li algures um dia que Minecraft era o jogo que a Lego perdeu a oportunidade de fazer, pois não sei se aqui não está mais uma. Será que ainda vai chegar uma expansão só com Legos? Não sei responder, mas pesquisei por LEGO no Dreamiverso e apareceu logo umas quantas criações para jogar.

Se dúvidas houvessem, Dreams é mais do que um jogo, é uma plataforma de fazer jogos que nos faz puxar dos galões da imaginação e libertar os nossos dotes artísticos e criativos. É um jogo sem fim que está em constante atualização por parte da comunidade que já provou ser capaz de coisas fantásticas e únicas. Se o presente de Dreams é excelente, podemos dizer que o futuro será ainda melhor. Basta continuar a sonhar.