Developer: Electronic Arts
Plataforma: Xbox One, PlayStation 4
Data de Lançamento: 14 de Agosto de 2020

O meu gosto pelo UFC tem cerca de dez anos quando alguns combates de MMA eram transmitidos pela SIC Radical, num programa semanal que me deixava colado ao ecrã. A marca teve uma ascensão notável nesta última década, que pelo meio, viu em 2014 a EA Sports lançar o primeiro jogo da franquia. Desde aí, os títulos têm chegado de dois em dois anos, uma estratégia que me agrada bastante para jogos que atualmente são lançados todos os anos. 

Antes de jogar este UFC 4, a minha única experiência em jogos da série foi com UFC 2, numa altura em que profissionalmente até estava ligado à transmissão dos PPV´s e de programas da marca para Portugal e com a Ronda Rousey e Conor McGregor nas bocas do Mundo. O espetáculo seguiu para UFC 3 em 2018 e neste ano, muito atribulado devido à pandemia da Covid-19, chega então o esperado UFC 4, que nos faz esquecer um pouco os últimos eventos realizados sem público e sem a emoção calorosa de outros tempos com pavilhões a abarrotar para ver as estrelas no octógono.

Para quem não está muito familiarizado com estes combates de MMA explicar que estes são combates de artes marciais mistas que combinam vários estilos como o boxe, kickboxing, wrestling, jiu-jitsu, karaté, entre outras modalidades de luta. No ringue em forma de octógono, as lutas fazem-se normalmente com 3 ou 5 rounds e se não for por K.O. ou desistência devido a alguma manobra, a decisão será dos júris e aí, quem vencer mais rounds, sai como vencedor do combate.

EA Sports UFC 4 é mais um jogo de simulação do que um jogo arcade. Esqueçam jogos de luta sem grande estratégia e onde o importante é dar porrada com força a todo o momento. Aqui a história é outra. Há que controlar o cansaço, defender bem e saber atacar nos momentos certos. É preciso cansar os adversários com golpes simples para depois explorar um ou outro golpe mais forte e tentar derrubar o nosso oponente. Com tanta variedade de artes marciais é normal ter uns lutadores mais vocacionados para a luta de pé e outros que preferem levar a decisão para o chão tentando encaixar um gancho ou um mata leão capaz de provocar a desistência dos adversários. Posso dizer que a jogabilidade vai mudando conforme o lutador escolhido para combater. Miocic vai preferir estar de pé a dar murros enquanto, por exemplo o “Jacaré” Ronaldo Souza prefere a luta no chão. 

Ambos estão bem conseguidos, mas destaco a simplicidade das lutas no tapete. Um sistema onde o analógico escolhe a ação que queremos executar. Podemos tentar levantar-nos, ficar ali na luta de grapples e submissão e até finalizar. Quando conseguimos aplicar algumas destas técnicas há uns mini jogos que vão surgindo para os jogadores conseguirem escapar ou levar o outro a desistir. Isto lembrou-me algumas técnicas usadas em jogos como WWE, onde também há alguns mini jogos em momentos de submissão. Em pé, o importante é ter uma boa guarda. Proteger a cabeça e o corpo são a prioridade para ir atacando aos poucos os oponentes com combinações curtas à espera dos momentos certos. Paciência é a palavra chave para uma boa gestão de combate. Durante os meus primeiros duelos queria ir com toda a força e chegava ao terceiro round sem forças para poder discutir a vitória e muitas vezes acabava por perder por K.O. Isto fez-me ver que algo estava mal e mudar o estilo do meu jogo. Volto a reforçar e vale quase como dica para quem quiser jogar este UFC 4 bastante tempo. Controlar a nossa energia, defender e atacar com combinações curtas para cansar os adversários é meio caminho andado para termos sucesso.

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A câmera do combate tem algum impacto na maneira como jogamos. É como se estivesse dentro do octógono ao nível da base das grades o que nos faz ter uma boa experiência de luta. Os efeitos visuais, como o sangue a sair da cara ou da boca e os momentos críticos que levam quase ao K.O., são pautados com uma imagem diferente com uma cor mais escura como se costuma ver em jogos de tiros quando já nos resta pouca energia. Vida sim existe fora do octógono com o público vibrante e barulhento que nos leva a ter uma maior imersão no combate. Graficamente, este UFC 4 também está muito bom. Os lutadores estão exímios nas parecenças e isso nota-se nos duelos. A física dos murros, pontapés e as reações dos lutadores a cada golpe que sofrem está extremamente bem detalhado e dificilmente se podia pedir melhor à equipa da EA Vancover. A única coisa que não gostei foi os movimentos que às vezes pareciam ficar presos principalmente quando eramos encostados à jaula e tentamos escapar.

Nos modos de jogo há bastante variedade, mas o grande destaque é o modo carreira para quem quiser perder-se horas sem fim neste UFC 4. Para começar, criamos o nosso personagem e escolhemos um estilo de luta entre várias opções. Escolhi ser mais dotado para o boxe lembrando-me dos tempos em que era grande jogador no Fight Night Round. No início vamos ter um treinador que nos vai explicando as técnicas base para se jogar. Um autêntico tutorial durante quatro combates a abordar as diferentes fases do combate. No final de cada um, se perdermos, podemos sempre pedir a desforra e jogar novamente. 

Quando chegamos ao final destas lutas amadoras estamos prontos para abraçar a vida de profissional no mundo das lutas. Venci apenas uma das lutas amadoras e o contrato que me ofereceram foi da WFA. O objetivo é ir vencendo até poder chegar ao UFC e fazer boa figura de maneira a poder defrontar o campeão da nossa categoria. O caminho pode ser mais longo ou mais curto consoante a nossa prestação no octógono. Tal como na realidade há um ranking e vamos ter de provar que merecemos ser chamados para combater pelo título.

Os atributos do nosso lutador são evoluídos com os pontos de habilidade que vamos adquirindo ao longo das nossas lutas e conforme os nossos movimentos e boas performances utilizando bem as técnicas que nos ensinaram. A progressão faz-se com as ofertas de luta que vamos recebendo. Podemos recusar esses combates, mas isso pode influenciar negativamente os patrocinadores e será mais complicado subir no ranking porque as lutas são mais espaçadas no tempo. No entanto, se acham que não estão preparados para um duelo podem recusar e isso cria uma rivalidade interessante que depois podemos usar quase para espicaçar o nosso adversário mais tarde. É necessário estabelecer relações fora do octógono através das redes sociais, aceitar duelos para lutas, treinar com eles e até entrar em modo provocação para o combate despertar mais interesse para o público. 

Este modo está sem dúvida muito completo, demasiado até para alguns jogadores que preferem lutar sempre para combates a valer. Passo a explicar. A cada combate que aceitamos o jogo dá-nos um intervalo de semanas para nos prepararmos. Pode ser de uma a quatro semanas e aí temos 100 pontos “semanais” para distribuir da melhor forma por vários eventos que podemos fazer de forma a preparar o nosso jogador e até espicaçar o interesse do público no nosso combate. Podem optar por treinar com direito a escolha do tipo que mais se adapta. Lutar contra alguém da comunidade que esteja disponível e depois podemos promover o combate. Numa primeira fase com a distribuição de panfletos e depois mais lá para a frente também envolver os patrocinadores e posts nas redes sociais para criar hype e fazer do combate, por vezes, mais do que ele é. 

Mas o importante aqui nestas semanas antes dos combates é garantir que estamos em forma e preparados para a luta que realmente interessa. Podemos ver uma barra que nos dá essa indicação e ir descansados ou desconfiados para o combate. É o mundo do UFC dentro e fora do octógono a tentar dar o seu melhor e sinceramente acho que consegue. Isto tem o seu lado “chato” no final do 36º combate. Fazer sempre isto é repetitivo e cansativo, mesmo para os mestres da luta mais apaixonados pelo treino. Sei que faz parte, mas não era descabido um modo carreira versão mais light com menos recursos e mais virado para combates rápidos de forma a chegar ao topo mais rapidamente. 

Para quem preferir outros modos há mais coisas para fazer. Podem jogar torneios, fazer os vossos próprios eventos ou replicar os verdadeiros Pay-Per-Views com os mesmos combates. A nível online vamos ter as lutas de “Blitz” que vão diversificando os tipos de combate, podem ser combates de um minuto numa certa categoria, pode ser combates onde não é permitido usar murros e por aí fora. Podemos lutar contra amigos e podemos ainda lutar nos campeonatos mundiais que funcionam como noutros jogos de desporto, por divisões conforme a nossa qualidade. Na lista de lutadores podemos contar com os pesos pesados da modalidade e ter no ringue nomes como Miocic, Jon Jones, Adesanya, Amanda Nunes, Valentina Shevchenko e tantos outros nomes bem conhecidos do MMA.

EA Sports UFC 4 mostra toda a força dentro e fora do octógono e é bem capaz de derrotar por K.O. todos os seus antecessores com um golpe bem dado. Para os fãs de luta de MMA é um jogo absolutamente indispensável, bem como para aqueles que semana após semana vibram com os Fight Nights e PPV’s. Os curiosos talvez se aguentem algumas horas no octógono, mas os jogadores mais casuais vão bater no tapete e desistir antes do soar das campainhas. Leva tempo para dominar as técnicas, mas aprendendo, é justo dizer que estamos perante um campeão na categoria de jogos de luta.