Developer: KOEI TECMO Europe, Team NINJA
Plataforma: Nintendo Switch 2, PlayStation 5, Xbox Series X|S, PC
Data de Lançamento: 12 de março de 2025

O género de survival horror tem vivido uma fase particularmente interessante nos últimos anos. Entre remakes, novas propriedades intelectuais e o regresso de franquias clássicas, o terror voltou a ocupar um lugar de destaque na indústria dos videojogos. No meio desta nova vaga de produções, a Koei Tecmo decidiu revisitar uma das obras mais marcantes da sua história. Fatal Frame II: Crimson Butterfly, lançado originalmente em 2003 para PlayStation 2, sempre foi visto como um dos jogos mais assustadores do seu tempo. Mais de duas décadas depois, o título regressa numa nova versão completamente modernizada, mantendo a essência do original enquanto introduz melhorias visuais, mecânicas refinadas e conteúdos adicionais.

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Quem conhece a franquia sabe bem que Fatal Frame foge bastante daquilo que normalmente esperamos de um survival horror. Longe do estilo gore e grotesco que muitos jogos do género gostam de apresentar, aqui encontramos algo muito mais subtil e psicológico. É um terror que não depende de sangue ou criaturas monstruosas, mas sim daquela sensação incómoda que nos percorre a espinha quando algo parece simplesmente… errado. Nesse aspeto, este remake está verdadeiramente bem conseguido, dado que logo nos primeiros minutos de jogo sentimos essa atmosfera. Aquela tensão constante, aquele arrepio repentino que surge sem aviso, muito semelhante às histórias de assombrações que todos nós já ouvimos em algum momento da vida.

Sendo eu do Algarve, lembro-me perfeitamente de ouvir essas histórias desde muito novo. Histórias de casas abandonadas, lugares onde as pessoas evitavam entrar por causa de acontecimentos misteriosos. Basta pesquisar um pouco e rapidamente aparecem nomes como a história da Floripes ou do Menino dos Olhos Grandes, lendas da zona de Olhão que ainda hoje continuam a ser contadas. Talvez seja por isso que jogos como Fatal Frame acabam por tocar de forma diferente; não dependem do choque visual para assustar, mas sim de algo mais próximo daquilo que imaginamos quando pensamos em fantasmas e lugares assombrados.

E é precisamente por isso que este remake vai muito além de uma simples atualização estética ou técnica. Claro que existem melhorias visuais e mecânicas, mas o que encontramos aqui é algo mais profundo, uma tentativa clara de reconstruir e revitalizar uma experiência que marcou profundamente muitos jogadores. Ao regressarmos à misteriosa e amaldiçoada Vila Minakami, voltamos a sentir aquela atmosfera pesada que tornou o original tão memorável. Cada cenário, cada corredor escuro e cada encontro sobrenatural dá-nos sempre a impressão que nunca estamos verdadeiramente seguros.

A história continua a acompanhar Mio e Mayu Amakura, duas irmãs gémeas que regressam a uma montanha onde costumavam brincar durante a infância. Aquilo que começa como um momento aparentemente nostálgico transforma-se rapidamente num pesadelo quando Mayu segue uma misteriosa borboleta vermelha que surge entre a neblina. Ao tentar alcançá-la, Mio acaba por entrar numa vila abandonada que parece existir fora do tempo e do espaço. É exatamente assim que começa a nossa jornada: uma experiência marcada pelo mistério, por momentos sobrenaturais e por uma forte ligação à tragédia humana.

A Vila Minakami é muito mais do que um simples cenário assombrado, visto tratar-se de um local marcado por um passado sombrio e por acontecimentos que moldaram o destino de todos aqueles que ali viveram. À medida que exploramos casas abandonadas, templos antigos e caminhos envoltos em névoa, começamos a descobrir fragmentos de uma história profundamente perturbadora. Documentos esquecidos, memórias espirituais e relatos de antigos habitantes revelam que aquela comunidade estava presa a uma tradição macabra, o Ritual do Sacrifício Carmesim, uma cerimónia destinada a impedir uma calamidade sobrenatural.

Este ritual dependia de um elemento muito específico e, tendo em conta que as protagonistas são duas gémeas, é fácil perceber qual: gémeos. Quando executado corretamente, acreditava-se que o ritual seria capaz de proteger a vila ou, pelo menos, manter contidas as forças malignas que ali habitavam, no entanto, qualquer falha na sua realização poderia trazer consequências devastadoras. À medida que os acontecimentos avançam, torna-se cada vez mais evidente que a ligação entre Mio e Mayu pode estar intrinsecamente ligada ao destino daquele lugar.

Para quem joga pela primeira vez, um dos aspetos mais fascinantes da história é a forma como o jogo constrói o seu terror através de tragédias pessoais. Os espíritos que habitam em Minakami não são meros inimigos sem identidade, uma vez que cada fantasma representa alguém que sofreu, e alguém que foi vítima das tradições cruéis da vila ou das circunstâncias que rodearam o ritual. As histórias dessas pessoas vão sendo reveladas gradualmente através de documentos, registos e visões sobrenaturais, permitindo-nos compreender o sofrimento que transformou aquelas almas nas entidades que agora vagueiam pela vila.

Outro elemento essencial da narrativa é a relação entre Mio e Mayu. À medida que avançamos na história, começamos a notar uma mudança no comportamento de Mayu. A irmã parece cada vez mais ligada à vila, quase como se algo naquele lugar a estivesse a chamar ou a influenciar. Estes pequenos detalhes ajudam a reforçar a ligação entre as duas gémeas e mostram como a narrativa explora muito bem essa relação. Pequenos momentos de interação, diálogos subtis e situações em que Mio precisa proteger ou ajudar Mayu tornam evidente a importância desse vínculo ao longo da jornada.

No que diz respeito às novidades, o remake expande alguns aspetos da narrativa original através de histórias paralelas e conteúdos adicionais. Missões secundárias, novos documentos e áreas inéditas ajudam a aprofundar ainda mais o passado da vila e das pessoas que ali viveram. Torna-se evidente a intenção de enriquecer o universo do jogo, oferecendo mais contexto para compreender as tragédias que levaram Minakami ao estado em que a encontramos.

Se a narrativa é aquilo que nos enquadra em todo o jogo, a jogabilidade é aquilo que transforma Fatal Frame II num survival horror verdadeiramente único. Ao contrário de muitos jogos do género, onde enfrentamos inimigos com armas de fogo ou armas brancas, aqui a única forma de defesa é um objeto aparentemente inofensivo: uma câmera fotográfica.

Conhecida como Câmera Obscura, esta ferramenta que encontramos logo nos primeiros instantes de jogo é capaz de capturar e enfraquecer espíritos. A mecânica é simples em teoria, apontar a câmera para os fantasmas e fotografá-los para causar dano. No entanto, na prática, o sistema de combate revela-se muito mais complexo e estratégico do que parece à primeira vista.

Para causar dano significativo, precisamos de enquadrar corretamente o espírito e capturar certos pontos espirituais que surgem enquanto a câmara está focada no alvo. Quanto mais preciso for o enquadramento e quanto mais próximo estivermos do fantasma, maior será o impacto da fotografia. Como é fácil perceber, esta dinâmica cria uma constante sensação de risco e recompensa, já que aproximarmo-nos demasiado de uma entidade pode resultar numa tentativa falhada e num ataque devastador.

Uma das mecânicas mais importantes do combate é o momento conhecido como Fatal Frame. Este ocorre quando tiramos uma fotografia exatamente no instante em que o espírito está prestes a atacar. Se executado com precisão, este momento permite causar um dano muito maior e até desencadear uma sequência de disparos consecutivos que amplificam significativamente o impacto do ataque.

Dominar este sistema não é propriamente fácil. Exige prática e, acima de tudo, paciência. Nos primeiros encontros é comum que os combates pareçam mais lentos e até um pouco frustrantes, mas à medida que começamos a compreender melhor o comportamento dos fantasmas e o funcionamento da câmara, as batalhas tornam-se muito mais interessantes.

Outro elemento essencial da jogabilidade é o sistema de filmes fotográficos. A Câmera Obscura pode utilizar diferentes tipos de película, cada uma com características próprias. Alguns filmes possuem munição infinita, mas causam pouco dano, enquanto outros são muito mais poderosos, embora raros e com tempos de recarga mais longos. Esta variedade obriga-nos a gerir cuidadosamente os recursos e a decidir em que momento devemos utilizar cada tipo de filme.

Um ponto particularmente interessante é a possibilidade de melhorar a câmara ao longo da aventura. Itens encontrados durante a exploração permitem aumentar atributos como a velocidade de recarga, a capacidade de foco ou o poder espiritual das fotografias. Estas melhorias tornam-se especialmente importantes nas fases mais avançadas do jogo e ajudam também a tornar os confrontos mais dinâmicos e menos frustrantes.

O remake introduz ainda novas opções estratégicas através de filtros especiais. Estes filtros podem alterar temporariamente o comportamento dos inimigos, desacelerá-los ou aumentar o dano causado pelas fotografias. Saber quando ativar cada filtro pode fazer a diferença entre sobreviver a um encontro complicado ou ser derrotado por um espírito particularmente agressivo. Outra novidade interessante é a forma como a personagem se movimenta durante o combate. Agora podemos mover-nos e até esquivar-nos enquanto utilizamos a câmara, algo que não era possível no jogo original.

Para além do combate, a exploração continua a ser uma componente fundamental da experiência. A vila está repleta de casas abandonadas, templos antigos e caminhos escondidos que nos incentivam a investigar cada canto. Muitos dos segredos da narrativa estão escondidos em documentos ou objetos aparentemente insignificantes, mas que acabam por nos dar um enquadramento muito mais completo de tudo o que aconteceu naquele local.

Outro elemento interessante é a mecânica que permite segurar a mão de Mayu. Para além de reforçar a ligação emocional entre as irmãs, esta interação também possui implicações diretas na jogabilidade, permitindo recuperar vida em determinados momentos. No entanto, ter Mayu por perto também pode tornar certas situações mais perigosas, já que será necessário garantir que ela não é atingida pelos espíritos.

Como já é habitual nos survival horror de maior destaque, o jogo inclui também puzzles e momentos de backtracking, onde revisitar áreas anteriormente exploradas pode revelar novos itens ou até eventos sobrenaturais inesperados. Longe de se tornar repetitivo, este regresso a locais familiares frequentemente cria novas situações de tensão, pois nunca sabemos exatamente o que poderá acontecer, e é bastante provável que um espírito surja de repente para nos lembrar disso.

Ainda assim, existem alguns elementos que poderiam estar melhores. Um deles é claramente a falta de opção para salvar o jogo a qualquer momento, obrigando-nos a procurar as lanternas espalhadas pela vila para guardar o progresso. Embora este sistema faça parte da identidade dos survival horror mais clássicos, torna-se um pouco frustrante nos dias de hoje. O outro ponto negativo prende-se com a ausência de textos em português, algo que infelizmente tem sido um hábito nos jogos da Koei Tecmo. Com exceção da franquia Nioh, são poucos os títulos da companhia que chegam ao mercado com suporte para a nossa língua.

Em termos gráficos, este remake apresenta uma reconstrução impressionante da Vila Minakami. Os ambientes estão bastante detalhados, a iluminação dinâmica intensifica constantemente a sensação de medo e os modelos das personagens apresentam um excelente nível de realismo. Os fantasmas, em particular, possuem um visual extremamente cuidado. Cada espírito apresenta características únicas que refletem a sua história e o sofrimento que enfrentou antes de morrer. A verdade é que o jogo está repleto de pequenos elementos pensados ao pormenor.

Na Nintendo Switch 2, versão onde realizei a análise do jogo, Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake corre de forma bastante estável. Nota-se que em alguns momentos não apresenta o mesmo nível de detalhe que encontramos em plataformas mais poderosas, mas ainda assim oferece uma experiência bastante sólida e fluida durante praticamente toda a aventura. Além disso, é precisamente nesta plataforma que surge uma das maiores vantagens, a portabilidade, algo que acaba sempre por ser um grande incentivo para muitos jogadores.

No que diz respeito ao som, diria que o jogo está simplesmente sublime. Num survival horror, este é um dos elementos mais importantes para criar tensão, e aqui esse trabalho foi claramente bem conseguido. Conseguimos ouvir ruídos distantes, passos sobre madeira, portas a ranger e sussurros quase imperceptíveis, tudo isso ajuda a construir uma atmosfera de constante inquietação. Em muitos momentos, a tensão surge apenas através de pequenos detalhes sonoros que nos fazem acreditar que pode acontecer algo a qualquer instante.

Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake consegue algo que poucos remakes realmente alcançam, preservar aquilo que tornou o jogo original especial, ao mesmo tempo que introduz melhorias e novidades que modernizam a experiência. É importante dizer que não é um jogo para todos, quer pelo próprio género, quer pelo ritmo mais lento que apresenta. Ainda assim, depois de mais de vinte anos, ver Fatal Frame II regressar desta forma é algo que provavelmente poucos imaginavam. Para os fãs da franquia, este é sem dúvida um daqueles regressos que tornam quase obrigatório voltar à misteriosa Vila Minakami.

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Rui Gonçalves
Desde o tempo do seu Spectrum+2 128k que adora informática. Programador de profissão nunca deixou de lado os jogos, louco por RPGs e jogos de futebol. Adora filmes de acção e de ficção científica, mas depois de ver o Matrix nunca mais foi o mesmo.
analise-fatal-frame-ii-crimson-butterfly-remake<h4 style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #339966;">SIM</span></strong></h4> <ul> <li style="text-align: justify;">História envolver e perturbadora</li> <li style="text-align: justify;">Terror psicológico intenso</li> <li style="text-align: justify;">Jogabilidade refinada e moderna</li> </ul> <h4 style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #ff0000;">NÃO</span></strong></h4> <ul> <li style="text-align: justify;">Salvar apenas em lugares específicos</li> <li style="text-align: justify;">Ausência de textos em português</li> <li style="text-align: justify;">Ritmo lento poderá afastar alguns jogadores</li> </ul>

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