Developer: EA Sports
Plataforma: Xbox One, Xbox Series, PlayStation 4, PlayStation 5, Nintendo Switch e PC
Data de Lançamento: 1 de Outubro de 2021

Acusados de reciclar constantemente uma fórmula na franquia FIFA, a EA Sports tem tentado sacudir essa fama nos anos mais recentes, aplicando algumas reformas. O argumento de que é sempre o mesmo jogo à excepção de mudanças muito ligeiras, é algo injusto, porque se olharmos para os últimos dez anos, tivemos o nascimento do Ultimate Team, a integração do Pro Clubs, e agora mais recentemente o modo VOLTA.

Quando comparamos os diversos FIFA’s de ano para ano, sim, tenho de concordar que as novidades, em certas ocasiões, nem sempre justificam uma nova edição. As características do gameplay têm sido bastante similares há já algum tempo, embora seja essa mesma jogabilidade que vai mantendo grande parte dos jogadores longe da concorrência.

Ainda assim, havia fortes indícios de que a EA Sports desejava aproveitar esta nova geração de consolas e impor alguma renovação no franchise. E a verdade é que concretizou a promessa, com a introdução do Hypermotion nas versões para a Xbox Series e PlayStation 5, que em certos aspectos é quase revolucionário na sensação de realidade do jogo que consegue transmitir ao jogador.

Mas o que é mesmo o Hypermotion? É uma tecnologia de inteligência artificial baseada em machine learning, que consiste na captura dos movimentos dos atletas em tempo real, ou seja, 22 jogadores equipados de Xsens Body Suits que foram sendo observados nas suas movimentações.

À partida pode parecer apenas um dado curioso, mas quando nos é dito que é capaz de atingir 4000 novas animações, decerto que nos deixa a imaginar. Especialmente porque pensamos em todas as implicações que pode ter na jogabilidade, e um bom exemplo é que, ofensivamente, os jogadores comandados pela IA tomam seis vezes mais decisões por segundo. Depois disto, é fácil prever que um dos pontos onde Hypermotion também tem uma maior influência, é no modo como a equipa defende, onde podemos apreciar comportamentos colectivos e individuais com um realismo brilhante.

O impacto que tem na jogabilidade sente-se imediatamente. É um jogo muito mais imprevisível do que os anteriores, porque irá ser influenciado pelas equipas e pelos estilos que estarão de um lado e de outro. É um FIFA em que não existe uma só maneira de ser jogado, e cada partida parece única, com a sua própria história, carregada de drama e imponderáveis. Pode ser veloz, pode ser paciente; pode ser desequilibrado, ou nem dar sequer tempo para pensar. Tudo depende de quem estiver a jogar.

Uma das primeiras coisas que percebemos, é que as jogadas têm de ser muito mais planeadas. Muitos dos problemas terão de ser resolvidos colectivamente, recorrendo menos às jogadas individuais. É muito mais difícil bater a defesa adversária, já que esta é mais inteligente a movimentar-se em conjunto, e com marcações muito mais eficientes.

Se antes, da perspectiva defensiva, o timing era a chave para o desarme, agora, o posicionamento adquiriu uma maior importância. Saber colocar os jogadores nos locais certos e com a orientação correcta dos apoios será fundamental para defender bem. O espaço no corredor central tornou-se valioso, porque é raro, principalmente em organização ofensiva.

Inúmeras vezes ver-nos-emos forçados a circular a bola de um lado ao outro do campo, tirando partido da largura para levar o adversário a esticar as linhas e desequilibrar-se. Enquadrar entre-linhas é bastante mais difícil, mas também se tornou mais valioso, porque com um ataque à profundidade mais eficaz dos avançados, a criação de oportunidades é muito mais promissora.

Isso tem outro efeito interessante, uma vez que obriga a recorrermos ao plano tático e estratégico de forma a explorarmos alguma vulnerabilidade do adversário. Tornou-se por isso um jogo mais cerebral e entusiasmante, dado que temos um maior controlo sobre o que se passa em campo. Isto significa que atribuímos uma menor responsabilidade pelas falhas à consola, e identificamos normalmente onde errámos, levando-nos assim a reflectir e a aprender.

Talvez por isso, no Plano de Jogo, e mais precisamente na zona das Táticas, o Estilo Ofensivo que podíamos encontrar em FIFA 21 tenha sido dividido em duas partes, sendo que agora temos a Construção de Jogo e a Criação de Oportunidades. A Construção de Jogo é a primeira fase de construção da nossa equipa, e temos as opções de Construção Lenta, Construção Rápida, Passe Longo e Equilibrado. Já a Criação de Oportunidades remete para a segunda e terceira fases de construção, e temos Desmarcações Atacantes, Passe Direto, Equilibrado e Posse de Bola.

Esta é uma novidade que abre a porta a múltiplas possibilidades para os entusiastas das táticas, tal como eu. Não pensem que é uma questão menor, porque se pensarem bem, podemos incutir comportamentos específicos conforme a zona da bola. Podemos optar por uma construção lenta, para depois acelerarmos assim que for criado o espaço, ou um contra-ataque de desdobramento rápido numa primeira fase, e mais directo numa segunda.

São apenas alguns dos exemplos das combinações que podemos oferecer ao nosso Plano de Jogo. Juntando à já enorme lista de opções táticas no aspecto colectivo e individual que tínhamos nos FIFA’s anteriores, e ficamos com um jogo riquíssimo do ponto de vista estratégico. Será curioso verificar no que dará a criatividade e experimentação dos jogadores e ver quais os estilos que serão utilizados no âmbito mais competitivo dos eSports.

FIFA 22 proporciona, provavelmente, a jogabilidade mais solta e fluída de toda a série. Com tantas animações novas, o gesto técnico dos jogadores no controlo da bola e do passe são do mais natural possível, assim como a linguagem corporal, fazendo que toda a experiência seja fantástica. Os duelos e as segundas bolas sofreram uma evidente melhoria, contudo, é o realismo da física da bola que mais sobressai – mais rápida, e rolando de forma muito mais credível, tal como podemos ver numa partida real.

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 Os guarda-redes melhoraram imenso, e batê-los é actualmente um verdadeiro desafio. Tanto nos remates de longe, circunstâncias de 1v1, ou nas saídas aos cruzamentos, o seu desempenho é sempre muitíssimo competente, o que obrigará o jogador a aplicar-se ao máximo na altura de rematar à baliza.

À parte da jogabilidade, FIFA 22 é semelhante aos títulos mais recentes na estrutura do jogo em si, contendo apenas algumas melhorias. E ainda bem, já que tem sido deveras consistente no catálogo de licenças e modos que oferece aos jogadores. Os menus estão diferentes e tentam simplificar a navegação – embora seja discutível se ajuda verdadeiramente nesse particular.

Foi dedicada uma maior atenção às estatísticas das partidas, com diversos tipos de informações referentes às equipas e às individualidades de cada jogo. É uma pequena inovação que novamente tirou inspiração do Football Manager, e que certamente irá deixar os geeks dos dados extremamente contentes, nem que seja para podermos troçar dos nossos amigos após uma grande vitória.

Os diferentes modos de jogo tiveram algumas novidades, mas nada de significativo, ou pelo menos que possamos considerar de radical – tirando um ou outro caso – tendo em conta o seu antecessor. No entanto, o Modo Carreira tem uma óptima novidade, e quem preferir, pode agora criar o seu próprio clube de raiz. Será possível escolher o nome, o clube rival, assim como o símbolo, equipamento e estádio, e partir depois numa aventura onde tudo faremos para levar o nosso clube à glória.

Não podíamos deixar de referir o Estádio da Luz e o Estádio do Dragão estão representados com todos os pormenores na nova edição do FIFA. É um velho desejo dos adeptos portugueses destes dois clubes, e que tornará a experiência no Modo Carreira ainda mais emocionante. Outra das surpresas é a selecção portuguesa estar devidamente licenciada, com a integração pela primeira vez da equipa de futebol feminino da equipa das quinas.

Também, pela primeira vez, será possível criar uma jogadora virtual do sexo feminino no Modo Pro Clubs, e jogar em equipas mistas com os outros jogadores. É um importante passo na inclusão de um desporto que é adorado por milhões de pessoas, e que tem cada vez mais referências em todos os géneros. E outro bom exemplo é a adição de Alex Scott, ex-jogadora do Arsenal e da selecção inglesa que se junta ao painel de comentadores, dando assim uma voz feminina a FIFA 22.

Quanto ao VOLTA, um modo alternativo do FIFA que tem vindo a conquistar jogadores a cada edição, foi mesmo aquele que mais mudanças sofreu. E provavelmente não irá agradar a muitos jogadores que faziam deste modo um dos seus preferido, uma vez que, excluindo o Quick Play, a possibilidade de jogar em single player na campanha foi praticamente eliminada. Já não existe a possibilidade de construir a nossa equipa angariando as estrelas da nossa eleição, constituindo um duro golpe para quem gostava dos moldes anteriores.

Considero um erro, e não se entende muito bem o porquê a razão de agora depender fundamentalmente de um matchmaking para se poder jogar. Montar o nosso line up era um dos elementos mais divertidos deste modo, e temo que arrancar essa opção aos jogadores possa causar a perda da relevância deste modo. Há uma tentativa de justificar esta transformação com a adição de várias coisas novas – com algumas boas ideias – mas veremos se no futuro será suficiente.

Das novidades, salienta-se o novo VOLTA Seasons que usa um modelo idêntico ao FUT Seasons.  Mas há ainda o VOLTA Arcade em que teremos oito mini-jogos, entre os quais o Dodgeball e o Foot Tennis, para podermos depois competir durante o fim-de-semana em torneios, convidando até três amigos.

Temos também o Signature Abilities, uma mecânica introduzida na versão deste ano, e que nos dará habilidades especiais ao nível do sprint, remate ou desarme. Podemos escolher uma dessas habilidades no momento de criação do nosso avatar, e depois dependerá de uma barra que vai enchendo durante a partida, para no final ser invocada quando estiver a piscar. E até falamos aqui mais detalhadamente sobre as novidades do VOLTA.

Relativamente ao Ultimate Team, e mais particularmente no caso do Division Rivals, rendeu-se à tendência das temporadas, e optou por um formato sazonal. O objectivo foi o de tornar as recompensas mais justas e de acordo com o rendimento dos jogadores. A progressão será assim contínua e fazendo uma separação conforme o grau do jogador, sendo que cada competição terá a duração de seis semanas.

Acaba por fazer sentido esta abordagem, até porque torna a experiência mais branda. O grind ainda existe, como é óbvio, mas aparenta não ser tão penalizador para o jogador casual, e muito menos stressante. Quem se conseguir qualificar para a Weekend League, terá agora menos jogos ao fim-de-semana, já que baixou para 20 partidas. Assim, livra-se um pouco da fama de exigir a alma aos jogadores, e abre as portas a estreantes.

Graficamente, e especificamente na Series X e na PlayStation 5, está visualmente espantoso. Não há uma diferença anormal para o FIFA 21 – que já estava fantástico nas versões next-gen – mas nota-se um certo avanço. As novas animações que resultam do Hypermotion muito ajudam nesse sentido, tal como a suavidade de jogar a 60 FPS. A qualidade sonora das incidências do jogo e da ambientação dos estádios está igualmente impressionante, complementada com um conjunto de músicas bem do estilo FIFA.

O Hypermotion faz de FIFA 22 o melhor simulador de futebol desde o Pro Evolution Soccer 2013. Para quem estava órfão de um bom jogo de futebol e tem uma consola da nova geração, tem a sorte de entrar nesta nova era do FIFA. E é uma pena que os jogadores da Xbox One, PlayStation 4 e PC não possam usufruir desta extraordinária tecnologia, porque é realmente um game changer.