Developer: Clever Beans, Deep Silver
Plataforma: PlayStation 4, Xbox One, PC e Nintendo Switch
Data de Lançamento: 28 de Janeiro de 2021

Há jogos que conseguem criar géneros e outros que conseguem reinventá-los. Gods Will Fall, coloca-se na última categoria, renovando por completo a imagem que temos dos roguelikes. Uma abordagem que abre uma porta para outros estúdios arriscarem e trazerem novas ideias a um estilo que vive ainda muito do passado, sem grandes inovações.

De forma bastante criativa, assume o compromisso de não ser apenas mais um roguelike. Na verdade, não cria nada que seja absolutamente inédito, mas a maneira como junta conceitos e elementos de outros jogos, faz de Gods Will Fall um título diferente de tudo o que já tenhamos jogado. Particularmente na condução da história.

O nome “Gods Will Fall” é sugestivo, e não é por acaso. Parte de uma narrativa muitas vezes usada, onde o homem, farto dos caprichos dos Deuses, decide tomar o destino pelas próprias mãos. Nesse sentido, uma guerra é declarada e levada até a estas entidades divinas, que farão questão de castigar tal insolência e fazer destes meros mortais um exemplo.

Oito dos melhores e mais corajosos guerreiros ficam assim com a ousada missão de invadirem a ilha dos Deuses, e derrotarem um por um. A mitologia celta foi a escolhida para oferecer algum contexto e sustentar uma história que nos é revelada de pronto nas cutscenes iniciais, como se estivéssemos a ouvir uma estória à volta da fogueira.

De certa forma, são estes 8 guerreiros que estabelecem uma relação para os roguelikes mais clássicos, já que no fundo reflectem as 8 vidas que temos para completar cada run. E esgotados todos os guerreiros, como devem calcular, la teremos de começar de novo.

E acreditem, porque tendo em conta que existem dez poderosos deuses à nossa espera nas respectivas dungeons, não será tarefa fácil. No entanto, como o poder de qualquer Deus depende essencialmente da quantidade de almas que o veneram, quantos mais inimigos e altares eliminarmos até chegarmos ao boss, mais este ficará enfraquecido, ou seja, a sua barra de energia é reduzida.

Este é apenas um dos muitos pormenores que fazem deste, um jogo verdadeiramente original. Mas há mais, e o estúdio Clever Beans está de parabéns por se ter dedicado a criar um conjunto de mecânicas que no seu todo nos entregam algo de diferente, e ao mesmo tempo familiar.

Sim, Gods Will Fall está cheio de segredos e detalhes que enriquecem a experiência. Outro bom exemplo é que cada dungeon tem o seu nível de dificuldade que só ficamos a saber após entrarmos. E ao iniciamos um novo jogo, a dificuldade de cada dungeon é alterada aleatoriamente, de maneira a nunca sabermos qual a ordem mais fácil para seguir.

Temos um mapa onde, com os nossos estimados guerreiros, nos podemos deslocar à vontade até à entrada de cada masmorra; e aí, decidir qual deles se irá aventurar para o seu terrível interior. Cada guerreiro tem os seus próprios stats, além de um tipo preferido de arma, como espadas, machados e bastões.

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 O combate segue a mesma lógica de um soulslike, isto é, será necessária paciência, assim como uma boa leitura dos movimentos do inimigo. O que significa que atacar sem qualquer tipo de estratégia resultará inevitavelmente na nossa morte.

Existe um ataque leve, um ataque pesado, um dodge e um bloqueio. E embora o bloqueio funcione, implica estarmos demasiado perto do inimigo, daí compensar mais esquivar, visto que neste caso é mais fácil controlar a distância e esperar o momento certo para desferirmos os golpes.

Podemos ainda apanhar as armas dos inimigos (temporariamente apenas), e arremessá-las, ganhando assim um ligeiro avanço em qualquer confronto. E olhando para a dinâmica de cada batalha, rapidamente passa a ser um dos grandes encantos do jogo, dado que a sensação de conquista após derrotarmos um adversário não tem par em qualquer outro roguelike.

Dito isto, acho que não é preciso dizer que Gods Will Fall é um jogo com uma dificuldade elevada. Não ao ponto de poder ser comparado um Dark Souls, porém, preparem-se para morrer várias vezes., porque piedade é coisa que este jogo não conhece.

É possível melhorar um guerreiro que consiga sair vitorioso de uma masmorra, contudo, levará uma penalidade temporária, para que não seja usado imediatamente a seguir. Sendo assim, convém ir usando diferentes personagens, não só para que estes estejam sempre à altura do próximo desafio, mas também porque certos guerreiros ganham bónus em determinadas dungeons.

Se um dos guerreiros cair em combate, é possível resgatá-lo através de uma nova tentativa com outro companheiro, criando um elo de camaradagem e um bónus quando o mesmo suceder com o companheiro oposto e tiver de ser salvo. Este é outro dos vários pormenores deliciosos que enriquecem a experiência e tornam cada run numa viagem única.

Graficamente, apesar de não ser muito elaborado, consegue ter um forte apelo artístico. Algo semelhante a uma suave aguarela que vai ganhando forma a cada nova pincelada de uma história que está nas nossas mãos. A banda sonora tem igual qualidade e encaixa perfeitamente na caminhada épica e trágica que marca a nossa aventura.

Gods Will Fall foi uma óptima surpresa. Um título que demonstra a enorme capacidade criativa que os estúdios independentes emprestam à indústria dos videojogos. Para quem é fã de roguelikes, certamente não irá querer deixar passar a oportunidade de jogar um dos títulos mais originais dentro do género.