Developer: Rockstar Games, Grove Street Games
Plataforma: PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox Series X|S, Xbox One, Nintendo Switch, PC
Data de Lançamento: 11 de novembro de 2021

Existem jogos que nos marcam, e provavelmente para todos os jogadores da minha geração, a franquia Grand Theft Auto foi uma delas. Em 1997, quando o primeiro jogo da franquia foi lançado, foi algo totalmente novo, num jogo visto de cima em que podíamos fazer tudo e mais alguma coisa numa pequena cidade, onde a policia vinha trás de nós, podíamos roubar carros, matar cidadãos, colocar bombas em carros, entre tantas outras coisas. Dois anos mais tarde, em 1999 chegavam mais dois jogos da franquia, GTA 2 e GTA London, que seguiam a mesma lógica do primeiro, mas com alguns melhoramentos em termos de gameplay e de como as missões nos eram apresentadas.

Mas era em 2001, com Grand Theft Auto 3, que a RockStar mostrava ao mundo o que era um verdadeiro jogo em 3D, com um mundo aberto incrível e com uma jogabilidade para a época que era totalmente inovadora. A chegada do jogo foi um sucesso em vendas, assim como uma chuva de críticas positivas ao mesmo tempo que a companhia se via envolvida num monte de problemas com a justiça americana, devido à violência extrema que o jogo trazia, algo que fez impulsionar ainda mais as vendas do jogo, e tornando-o ainda mais popular entre os jogadores.

Já em 2002, e aproveitando o sucesso do jogo anterior, era lançado Grand Theft Auto Vice City, inspirado nos cenários da serie de TV, Miami Vice, e novamente foi um sucesso de vendas. Oferecia mais uma vez algumas melhorias em relação ao anterior, e agora oferecia a possibilidade de os jogadores andarem com motas, algo que foi extremamente bem implementado na altura. O enredo também estava bem feito, e oferecia um mundo aberto impactante, onde até era possível comprarmos casas.

Mas era em 2004 que chegava o jogo mais marcante da franquia, Grand Theft Auto San Andreas era aquele jogo que em 2004 era impensável de ser realizado, oferecendo um mapa gigantesco, diversos carros, um enredo muito bem feito, um voice acting impressionante e ainda conteúdo que nunca mais acabava. Era possível comprar casas, comprar lojas, aumentar as zonas que os nossos gangs dominavam, alterar a forma corporal do nosso personagem conforme o que fazíamos no jogo, ou seja, se fizéssemos ginásio ganhava massa muscular, se comessemos demasiado ia ficando gordo, se corrêssemos muito ganhávamos stamina, entre tantas outras coisas. Foi durante anos o jogo mais adorado dos fãs da franquia, e ainda hoje falam dele com um enorme carinho.

É com esta bagagem de sucesso que a Rockstar decidiu arriscar em 2021 e lançar uma versão remasterizada destes 3 jogos, algo que poderia ser muito mal recebido pelos jogadores, caso a remasterização não fosse de grande sucesso. O hype criado pelos jogadores foi enorme, até porque a própria Rockstar veio dizer que os jogos iam ganhar uma jogabilidade parecida com GTA 5, e que os seus gráficos iam ser bastante melhorados. Algo que deixou muitos jogadores a imaginar aqueles gráficos incríveis que vemos em certos mods para o PC.

Infelizmente, em alguns aspectos, o resultado não foi o esperado por muitos jogadores; é verdade que os três jogos levaram um polimento a nível gráfico, e é preciso ir fazer uma comparação com os originais para se perceber como existem alterações significativas em alguns campos. Já no campo da jogabilidade, aí é fácil de perceber as melhorias, nota-se que esta foi refinada e melhorada para estar mais de acordo com os jogos actuais. Devo confessar que se esquecermos a parte gráfica, tudo o resto está lá, as histórias incríveis, os personagens enigmáticos, e as loucuras que qualquer um destes três jogos sempre nos proporcionaram. Tudo está impecavelmente reproduzido, falta apenas e só a parte visual que ficou muito aquém do desejado.

Provavelmente convém referir que estou a escrever esta análise depois do último update que o jogo levou, e que trouxe uma imensidão de correcções, já que existiam locais onde simplesmente ficava cheio de breaks e outros problemas, ou missões em que sempre que passávamos um checkpoint ficava completamente bloqueado, até que depois lá arrancava sem percebermos o que raio se tinha passado. Nesse aspecto, a Rockstar, ou mais concretamente a Grove Street Games que foi a equipa que fez esta remasterização, conseguiu dar uma resposta rápida aos problemas detectados pelos jogadores.

Sendo isto uma remasterização e não um remake, e tendo qualquer um dos jogos mais de 15 anos, e querendo a Rockstar chegar a todas as plataformas, é normal que não pudéssemos esperar gráficos de GTA 5, até porque não sei até que ponto não iria retirar alguma da beleza dos jogos, com aquelas personagens bem caricatas, aqueles andares que nos fazem rir, e aquela condução louca, que vamos contra árvores e o personagens dá 20 cambalhotas no ar (estou a exagerar), e ainda cai de pé em cima da mota ou bicicleta.

Seja como for, a pouca alteração dos personagens é mesmo a componente que se apresenta pior nestas remasterizações, sendo que no caso de GTA San Andreas, é gritante, porque é aquele em que todos os jogadores depositavam mais esperanças e provavelmente foi aquele que mais desiludiu. Mas vamos tentar ir por partes, até porque esta questão gráfica merece uma pequena reflexão. Caso ainda se lembrem dos jogos e dos locais, algo que achei super interessante e mostra como adorei qualquer um dos três jogos, foi lembrar-me quase instantaneamente dos vários locais dos mapas, e com isso a ideia de que esta remasterização parece bem mais composta, isto é, diversos locais com bastante mais arvores, relva bastante melhorada, e as estradas e o chão nem se fala, assim como os sinais, as publicidades nas paredes, entre tantas outras coisas em que se vê claramente que levaram um bom tratamento.

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Outras das coisas que se nota uma melhoria significativa é nos carros, as luzes que apresentam, assim como os vidros e a estrutura do carro a reflectirem tudo à sua volta; tudo está incrível, e dizer que não é verdade é simplesmente não querer ver a realidade. Ainda nos carros, e em GTA 3 e GTA Vice City agora temos uma câmara livre, antigamente, ao conduzir, as câmaras eram fixas, e não era possível de serem movidas.

Outro ponto que gostei de ver melhorado foi o das texturas das paredes, além de que os vidros dos prédios agora são bem nítidos e também reflectem o que se passa à volta; o próprio chão, onde temos locais com cimento, madeira, ferro, está tudo bem retocado, e com um visual bem aprimorado. Depois, temos a luz, seja quando está de dia, com o céu bastante mais bonito que o original, com cores mais vivas e com isso as sombras mais vibrantes e retocadas. Outro ponto está também bem trabalhado é o da água, agora bem translucida, algo que não acontecia nos originais.

Quanto à distância que podemos ver em qualquer um dos jogos também foi aumentada, e bastante, e isso nota-se claramente em GTA San Andreas quando andamos de avião e conseguimos ver tudo à nossa volta, já que antigamente isso era impensável, até porque as máquinas da altura não permitiam que isso acontecesse. As condições climatéricas também estão bastante melhoradas, e no caso de estar a chover já não são apenas “riscos brancos” a cair do céu, estão bastante melhorados, e até o chão molhado mostra significativas melhorias, assim como a chuva a bater nos carros ou mesmo a cair na água.

Confesso que a primeira impressão que tive ao começar a jogar qualquer um dos jogos foi uma desilusão, até porque quando são jogos que me tocaram imenso, na nossa cabeça fica sempre uma ideia de algo grandioso, mas foi ao analisar os jogos originais e a fazer a comparação com este que percebi que afinal o trabalho gráfico até tinha sido muito significativo. Não digo com isto que tenha sido perfeito, ou que não podia estar melhor; podia, e como já disse, principalmente no que se refere aos personagens, que podiam estar bem melhores, tendo outro tipo de corpo, com CJ e companhia a serem mesmo uma “facada no coração” quanto à sua péssima modelagem. Existem momentos que o modelo de CJ e de outros personagens no jogo original quase está melhor do que nesta remasterização.

Algo que fiquei agradado foi com a modernização dos menus, que estão cheios de boas opções, e opções que estamos acostumados nos jogos mais modernos, como a sensibilidade da mira, vibração dos comandos, a opção de ligar o giroscópio no caso da Nintendo Switch, alteração de brilho e do contraste, assim como as opções de acessibilidade com modo para daltónicos, ou alteração do tamanho das legendas e dos textos. O minimapa do jogo, assim como o local onde são indicadas as horas e o nosso dinheiro, também está melhorado, assim como o GPS que funciona bastante bem.

A condução continua divertida, com uma física bem longe de uma simulação e bem arcade como sempre fez parte da franquia, continuando a existir carros que são mais fáceis de conduzir do que outros, assim como modelos mais clássicos, outros mais desportivos, e ainda carrinhas, e outro tipo de veículos. No caso de San Andreas a escolha é bastante mais vasta do que nos outros três.

Quanto às missões, continuam a ter diversos checkpoints, para caso as fracassemos não as termos de repetir do início. Algo que provavelmente vão ter de ir as opções para ajustar é o novo sistema de mira, uma vez que inicialmente está um pouco estranho, no entanto, bem ajustado, provavelmente começam-se a dar-se bem; requer alguma habituação, mas nada de anormal.

Infelizmente, mesmo depois da actualização, o jogo continua com alguns bugs, seja nos personagens a agarrarem em objectos que não foram renderizados (basicamente para nós não estão a pegar em nada), seja em certos momentos quando estamos a andar de carro existirem coisas que ainda não estão renderizadas, ou mesmo a atropelar pessoas e estas ficarem simplesmente agarradas às pontas do carro.

Algo que continua grandioso como os originais são as rádios, bem sei que faltam alguns grandes êxitos devido às licenças já terem prescrito, mas a verdade é que continuam incríveis, fazendo inveja ao tão jogado GTA 5. No aspecto das voice acting continuam na mesma, e ainda bem, com frases e sotaques verdadeiramente hilariantes, e que se na altura eu já tinha adorado, voltar a ouvir aqueles diálogos foi bastante nostálgico e também mostrou como qualquer um destes GTA estava bastante adiantado para a sua altura – existem jogos que ainda hoje são lançados e que não chegam aos calcanhares destes três jogos com mais de 15 anos.

Eu diria que o grande problema desta remasterização se prende com a grandiosidade destes jogos, e para a criarem deviam ter tido um cuidado maior em alguns aspectos. Já sabia que os jogadores iriam ser implacáveis em certas falhas, pois mesmo que os jogos originais as tivessem – tinham certamente – com a geração actual de jogadores elas não iriam ser perdoadas (basta nos lembrarmos de Cyberpunk 2077).

Deixar umas palavras em relação à Nintendo Switch:

Devo dizer que não tive qualquer problema a correr o jogo na consola, excepto em alguns locais em que apresentavam algumas paragens, mas depois correndo o mesmo noutras consolas, percebi que o problema não estava na Nintendo Switch, mas sim no próprio jogo. Devo até confessar que esta é a consola perfeita para ter esta remasterização, já que em modo portátil fica bem mais bonito e sem menos falhas gráficas do que em qualquer outra consola, seja ela da nova geração ou da geração anterior.

Grand Theft Auto: The Trilogy – The Definitive Edition é um misto de sentimentos. Se por um lado, ter a possibilidade de voltar a reviver estes três incríveis jogos é excelente, ver alguns dos seus problemas dói no coração. Mesmo assim, para quem nunca os jogou, vale a pena adquirirem o jogo. São 3 jogos cheios de conteúdo, e que vão dar-vos horas e horas de diversão, e no fim vão perguntar-se porque é que ainda existem jogos desta geração que não adoptam certos elementos destes três jogos com mais de 15 anos.