Developer: Supergiant
Plataforma: PlayStation 5, PlayStation 4, Xbox Series X|S, Xbox One, Nintendo Switch, PC
Data de Lançamento: 13 de agosto de 2021

Se existem jogos que merecem ser um caso de estudo, então Hades é um deles. Primeiro, oferece aquela sensação de amor e ódio a qualquer jogador, depois, é um daqueles jogos relativamente curtos, mas que ao mesmo tempo consegue ser extremamente longo; e por último, é um enorme fenómeno de sucesso. Quando foi lançado para a Nintendo Switch em dezembro de 2018, e ganhou prémios atrás de prémios, isso já tinha ficado bem vincado, e agora que chega às outras plataformas, os jogadores não falam de outra coisa.

A verdade é que não é para menos, sendo um daqueles jogos – neste caso um rogue-like – que nos viciam, e nos deixam aquela ansiedade saudável de pegar no comando e começar a devastar tudo o que se mete no nosso caminho, ao mesmo tempo que a componente de melhoramento do personagem também dá aquele prazer de aperfeiçoamento cada vez que voltamos a pegar no jogo.

O nome do jogo tem a ver com o local onde o jogo começa, Hades, o Reino do deus dos mortos, de seu nome também Hades. Todo o jogo tem por base a tentativa de fuga de Zagreu, o príncipe do submundo que quer chegar à superfície. Não será difícil perceberem que tudo isto está enquadrado nas figuras da mitologia grega, com os principais deuses da mitologia a fazerem parte do jogo, nem que seja a partir de diálogos e bençãos que fornecem a Zagreu na sua tentativa de fuga.

O jogo começa exactamente com o início de uma fuga de Zagreu, onde pegamos no jogo sem perceber muito bem o que se passa nem porque razão estamos a fugir daquele reino. Acreditem que, por muito que tentem, é simplesmente impossível conseguirem à primeira, basicamente isto serve para percebermos um pouco do que vamos encontrar e conhecer os comandos. Ficamos logo impressionados com o primeiro contacto com o jogo, e com a enorme qualidade do jogo da Supergiant, mas principalmente por percebermos que morrer não é um problema. É, até, a solução para das próximas vezes conseguirmos estar mais preparados e sentirmo-nos mais confortáveis.

Na verdade, quando morrem não iniciam logo outra fuga, vão sim para a casa de Hades, onde vão encontrar algumas figuras bem conhecidas da mitologia grega, como Hades, Aquiles, Orfeu, Nix, entre outros. É também nesse local que existem as várias melhorias e desbloqueio de armas que vamos fazendo, de maneira a conseguirmos que as próximas fugas vão sendo melhoradas. Além disso, os segredos bem guardados daquele local vão sendo descobertos aos poucos, e de cada vez que voltamos de uma tentativa falhada.

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Uma das críticas que muitos rogue-like recebem é a falta de ambição no que toca à sua história, seja por esta não cativar, por apresentar fracos diálogos, e muitas vezes até por falta de tudo isto. Na verdade, é maioritariamente o ponto fraco deste género de jogo. Hades mais uma vez contraria tudo isso, não que a história seja algo incrível e que nos apaixone, mas para o tipo do jogo em questão está extremamente bem montada. Os diálogos são curtos, mas interessantes, e ajudam a que percebamos o ambiente que existe entre deuses, seja por assuntos mal resolvidos, seja por ciúmes, ou mesmo por questões amorosas.

Para abrir o apetite – e porque isto é algo que acontece inicialmente depois de poucas tentativas –, o rapaz descobre que quem pensava ser a sua mãe, afinal não é, e que tudo não passou de uma mentira do seu pai para este nunca procurar a sua mãe verdadeira. O jogo está cheio de intrigas e mentiras que se vão descobrindo, e até isto faz com que a nossa morte a cada tentativa não seja tão dolorosa.

Provavelmente, já perceberam que o jogo tem muita repetição – é verdade – e nem são muitos os locais onde teremos batalhas. Temos 4 zonas diferentes, cada uma com algumas salas de combate (o número de salas é bastante variável), e na última sala vão encontrar sempre um boss final. Estes locais são (por ordem): Tártaro, Asfódelo, Elísio e o Templo, que fica por cima do rio Estige. Depois existem os outros locais onde não temos combates, mas também eles importantes, como a já referida casa de Hades, a zona do Caos, entre outras.

A quantidade de inimigos também é bastante variada, e são cerca de 40, cada um com o seu tipo de ataque, as suas movimentações, e tudo aquilo que um jogo deste género precisa para nos meter os cabelos em pé quando estamos com uma quantidade de vida bem baixa, e começamos a ver que lá vamos morrer e ter de começar tudo novamente. Mas descansem, se as primeiras vezes são complicadas, e são, depois tudo começa a ficar mais fácil, já que conforme vamos melhorando o personagem essas dificuldades vão começando a desaparecer, e vamos começando a chegar cada vez mais longe.

No início do jogo vamos ter apenas uma espada (Stygius), mas existem outras 5 armas que podem usar, desde que as desbloqueiem. Para as desbloquear vão precisar de um determinado número de chaves que irão adquirir conforme vão tentando fugir do submundo. As armas que vamos desbloquear são para todos os gostos, desde uma lança (Varatha), um escudo (Aegis), um arco (Coronacht), umas luvas (Malphon) e por último uma arma que dispara projecteis (Exagryph). Todas as 6 armas podem ser melhoradas, e até desbloquear ataques diferentes em cada uma delas, basta para isso termos os itens necessários).

Acreditem, qualquer uma das armas é bastante competente, e é necessária uma certa habituação para percebermos os truques. Eu, por exemplo, adaptei-me bastante bem ao escudo – Aegis – já que este fornece protecção e também a possibilidade de atacar ao mesmo tempo. O seu ataque especial faz-nos lembrar o de Capitão América a enviar o seu escudo e a bater em diversos inimigos, para depois nos regressar às mãos. Tudo depende da maneira de jogar de cada um.

Seja qual for a arma que esteja equipada, Zagreu tem sempre um ataque normal, asso, como um ataque especial, um ataque à distância, e o dash (uma corrida curta e extremamente veloz). Por vezes ainda conseguimos obter uma bênção de alguns deuses que nos oferecem outro ataque que dará dano consoante uma pequena barra que aparece no canto inferior esquerdo.

Já que falamos das bênçãos, ao contrário da maioria dos deuses do submundo que nos dificultam a vida para chegar à superfície, os deuses do olimpo – Zeus, Atena, Afrodite, Ares, entre outros – estarão prontos a ajudar-nos, por isso, durante o jogo vamos ter a possibilidade de receber bênçãos. Algumas delas são passivas e outras activas, isto é, algumas melhoram os nossos ataques, outras a nossa velocidade, algumas adicionam magias aos ataques (como por exemplo raios, ou gelo), entre outras coisas muito úteis. Além disso, estas têm classificações e umas são melhores que outras, temos então as comuns, as raras, as épicas e as lendárias. Descansem que depois existirá maneira de aumentar a probabilidade de saírem as bênçãos com melhores classificações.

Diria que além das melhorias que fazemos a Zagreu, na casa de Hades, são estas bênçãos que fazem a diferença no jogo, e muitas vezes conseguir a build correcta não é fácil, até porque tudo o que nos vai saindo é muito aleatório e vão notar que por vezes têm uma build incrível que facilmente vão conseguir concretizar a vossa fuga, como depois sai uma build bem mais fraca e nem chegam ao boss final.

Além de tudo isto, existe maneira de nos ajudarmos ao longo do caminho, seja a dar presentes aos deuses, seja a ter itens que desbloqueiam novas fontes de vida ao longo da nossa fuga, ou a aumentar no número de ataques à distância. Isto é, o jogo tem uma infindável lista de melhorias, que nos farão querer continuar a jogar, mesmo depois de termos conseguido a tão desejada fuga. Até vou mais longe, e depois de conseguirem a tão desejada fuga, provavelmente ainda vão ter mais apetite, já que vão descobrir algumas novidades, não só a nível de melhorias de personagem, mas também da história, o que vos fará querer continuar a jogar.

Referir que, para todos aqueles que esteja a ser demasiado difícil conseguir a tão desejada fuga, nas opções podem activar uma opção (Modo Deus) que vos ajudará a consegui-la, tornando Zagreu ainda mais poderoso.

Passando para a jogabilidade, estamos a falar de um jogo que corre lindamente, os comandos não falham nunca, está tudo super bem afinado, e nunca senti que o jogo não tivesse respondido, ou feito algo que pedi. Tudo perfeito, como um bom rogue-like deve ser.

A nível visual estamos a falar de um jogo com vista isométrica e com uma enorme qualidade gráfica. As diversas zonas do jogo são bastante diferentes, mesmo quando estamos nos mesmos locais (Tártaro, Asfódelo, Elísio, etc), e as diversas salas conseguem ser sempre diferentes, oferecendo algo que nos atrai a apreciar o cenário. Embora tenha como tema o submundo, a verdade é que apresenta cores que nos cativam, com animações tanto nas deslocações, como nos ataques que nos chamam a atenção. Todas as outras personagens também estão cheias de detalhes, não só Zagreu; e ajuda a criar uma afeição ao jogo como poucos conseguem. A verdade é que é uma delícia para os olhos jogar Hades.

A nível sonoro, e mais uma vez, ao contrário de outros rogue-like, estamos perante algo incrível, e com uma banda sonora extremamente competente. Tem diversas músicas, os diversos locais apresentam músicas totalmente diferentes, e caso gostem de apreciar a banda sonora dos jogos, a Supergiant colocou a banda sonora totalmente disponível. Podem ouvi-la no vídeo abaixo:

Continuando na parte sonora, todos os efeitos são incríveis, sejam as portas a abrir, os golpes que damos com as nossas armas, a defender os golpes inimigos, ou mesmo os inimigos a morrerem ou rebentarem. Tudo está com uma óptima qualidade. Além disso, e para aprimorar mais as coisas, os diálogos são todos eles muito bons, embora curtos a cada interacção, mas na verdade o voice acting está incrível.

Hades é um daqueles jogos que me agarrou desde o primeiro minuto. É quase impossível não ficarmos marcados com este jogo e com todo o seu brilhantismo. É um bom exemplo de como um rogue-like deve ser, e de um jogo que pode ser incrível mesmo quando a componente de repetição é considerável, bastando para isso conseguir encontrar a maneira de tudo encaixar na perfeição. Este é um daqueles jogos que ninguém pode deixar de jogar.