Developer: Black Matter Games
Plataforma: PC
Data de Lançamento: 27 de Julho de 2021

A Segunda Guerra Mundial deve ser o tema mais explorado quando pensamos em shooters na primeira pessoa, e apesar de ter havido alguma saturação nos últimos anos, parece estar a regressar com algumas propostas diferentes. É o caso de Hell Let Loose, do estúdio Black Matter, que tem suscitado bastante curiosidade, dada a exigência que é pedida aos jogadores.

É um jogo cuja curva de aprendizagem será um desafio para muitos, e até poderá afastar alguns. Todavia, a sua intenção é recompensar com uma óptima experiência quem tiver a resiliência de ultrapassar um período inicial que não terá qualquer simpatia por nós.

Hell Let Loose tenta retratar ao máximo o realismo da guerra. Não só do cenário, mas da entrega que é fulcral para aumentar as nossas hipóteses de sobrevivência. E mais importante ainda, da colaboração entre os jogadores, porque ninguém ganha as batalhas sozinho.

É mais um excelente multiplayer shooter em larga escala, que visita vários palcos icónicos da WWII, como Stalingrad, Carentan, Sainte-Mére-Église, e as praias da Normandia. No entanto, é também provavelmente um dos mais táticos e estratégicos dos FPS’s que se sustentam em grandes quantidades de jogadores divididos em duas equipas no mesmo mapa.

Tem uma mecânica que deve ser inédita no género, já que aqui, dois jogadores vão assumir os papeis de comandantes das respectivas equipas. Serão esses dois jogadores que terão de gerir e liderar os passos dos seus companheiros, além de terem a visão necessária para perceberem o que os seus pelotões irão precisar mais à frente.

O peso dessa responsabilidade não será apenas difícil de carregar para quem lidera, porque também o jogador comum irá querer corresponder às tarefas da melhor maneira. Esse é um dos aspectos mais interessantes que verificamos em Hell Let Loose, e algo que nos faz viver intensamente cada partida. É um multiplayer shooter muito diferente do que estamos habituados e vale bem a pena para quem gosta deste tipo de jogos.

O objectivo primordial é simples, ou seja, o de capturar e manter pontos estratégicos do mapa, porém, como no fundo é alguém que está a ditar os passos da nossa equipa, cada contenda terá a sua própria história. O sucesso depende essencialmente de uma boa liderança, mas uma boa liderança depende de vários factores, como a comunicação e a gestão de recursos para as fortificações na frente da batalha.

O que significa que o papel de um comandante poderá tanto significar uma excelente experiência para os restantes jogadores, como uma desorganização total e mais momentos de irritação do que de divertimento. Acredito que, com tempo, o estúdio Black Matter Games acabe por encontrar o ponto de equilíbrio entre o que será automatizado, e o que ficará ao encargo do jogador. E até já há alguns indicadores nesse sentido.

Mais especificamente, o commander terá o poder de coordenar todas as squads, e usar as suas habilidades para chamar apoio aéreo, tanto para atacar um determinado ponto, ou para largar suprimentos. São decisões fundamentais e críticas para o sucesso das diversas missões que serão atribuídas aos seus subordinados.

O Commander é apenas uma de 14 classes, e não é a única com a função de liderar outros membros da equipa. O Officer, por exemplo, tratará de transmitir o plano aos colegas no terreno, além de comunicar com os outros officers. Contudo, a sua principal responsabilidade é decidir onde serão colocados os spawn points, isto é, onde os seus companheiros irão ressurgir.

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 Estrategicamente, é um dos aspectos mais importantes, já que muitas vezes é precisamente isso que determina se uma equipa consegue, ou não, manter a pressão quando está por cima. Nenhum plano é suficientemente bom, sem as pessoas certas para o poderem executar.

Mas todas têm um papel a desempenhar, como o Support, fundamental para a gestão dos suprimentos; o Engineer, que serão sempre determinantes do ponto de vista tático tendo em conta o conhecimento de explosivos e demolição, assim como a construção de fortificações; ou o Anti-Tank, que são uma força considerável quando são avistados blindados. Todas as classes são indispensáveis à sua maneira, e cada uma, a dada altura, poderá ser decisiva para a vitória.

Um dos vários exemplos de como a cooperação é elementar, pode ser encontrado na relação entre o sniper e o spotter, onde este último irá fornecer informações cruciais para que o seu parceiro tenha o melhor desempenho possível. E não nos podemos esquecer de como o Tank Commander terá de saber coordenar a sua equipa dentro de um veículo blindado, proporcionando momentos de completa adrenalina.

Como um jogo da WWII, claro que não podiam faltar os tanques de blindados, especialmente porque foram um factor resolutivo para o desfecho da guerra. Aqui é igual, e mais uma vez, há vários veículos conhecidos disponíveis, como o M4A1 Sherman, o Tiger I, ou o Panzer II; mas também artilharia anti-tanques como o Pak 40, ou o M1 Gun 57mm.

Os mapas são enormes e variados, oferecendo o terreno ideal para que cada partida seja diferente. Confesso que preferi o modo de jogo Offensive ao Warfare, essencialmente porque permite viver certas batalhas históricas de uma forma que nenhum outro jogo consegue. O desembarque na Normandia é absolutamente espetacular jogado em Offensive (onde uma equipa ataca e outra defende), levando os jogadores a experimentar as duas partes da batalha com uma tensão extraordinária.

A glória em Hell Let Loose não se reflecte no número de inimigos que conseguimos matar, mas nos metros que ganhamos para os nossos companheiros. Os actos de heroísmo surgem nos momentos mais inesperados, e das formas mais imprevisíveis. E é precisamente isso que destaca este título dos demais.

Quanto ao combate propriamente dito, é outro dos pontos em que a Black Matter Games acertou em cheio. Tudo está bastante fiel à época, e manejar as armas é do mais real que se possa imaginar. Retrata bem o cenário de guerra e das suas dificuldades. Outra coisa que consegue igualmente mostrar, é como a aleatoriedade no campo de batalha, e o pouco que controlamos como soldados, e por vezes, a nossa sobrevivência pode muito bem depender de não estarmos no local errado à hora errada.

É um jogo que pela sua dificuldade e necessidade de insistir para superar uma primeira fase algo atribulada, acaba por ficar algo dependente da boa vontade da comunidade. E há que dizer que, para já, a camaradagem que se sente durante as batalhas estende-se até aos fóruns, onde as discussões são sempre saudáveis e esclarecedoras.

Graficamente está incrível na ambientação de teatro de guerra que é imprescindível para uma maior imersão. A atenção ao detalhe não foi ignorada, sendo credível onde mais importa. O problema é que tem alguns problemas para manter as frame rates estáveis, o que provavelmente irá obrigar a baixar na qualidade de alguns parâmetros gráficos.

Os efeitos sonoros estão fantásticos. O barulho das balas que passam perto demais, o som dos bombardeamentos lá ao longe, e do próprio caos que a guerra impõe. Tudo foi recriado com um enorme realismo, e é mais um aspecto que nos leva a sentir cada partida como se fosse última.

Hell Let Loose vem acrescentar a um género que tem como Battlefield, Verdun e ARMA como as grandes referências do género. A sua proposta singular vem claramente trazer uma experiência única ao jogador, sendo uma das boas surpresas de 2021, no que a FPS’s diz respeito.