Developer: Yodubzz Studios
Plataforma: PC
Data de Lançamento: 6 de fevereiro de 2026
Os jogos de sobrevivência com zombies já não são uma novidade para os jogadores, mas a verdade é que poucos conseguem reunir tudo aquilo que normalmente se procura neste tipo de experiências. Confesso desde já que sou um grande apreciador do género, desde que este não tente alcançar uma ideia de simulação excessivamente massiva. Um bom exemplo disso é State of Decay, uma das franquias que mais gosto dentro do género, muito pelo conjunto de sistemas que oferece, mas que, por outro lado, peca pela falta de maior liberdade na construção da base e no crafting, tornando-se um jogo relativamente simples e previsível depois de dominado. No extremo oposto surge Project Zomboid, que, pela sua complexidade quase obsessiva, acaba por se tornar demasiado denso e exigente, levando muitos jogadores a desistirem logo nas primeiras horas.
Foi precisamente na tentativa de encontrar um equilíbrio entre estes dois extremos que acabei por descobrir HumanitZ, com o título da Yodubzz Studios a conseguir apresentar uma abordagem bastante equilibrada aos principais pilares do género. A componente de sobrevivência está bem representada, com zombies constantes, gestão de fome, sede e condições climatéricas, mas sem se tornar sufocante. Ao mesmo tempo, oferece aquilo que tantos fãs de survivals procuram, como a construção, o crafting de armas e itens, uma procura constante por loot e um mapa de grandes dimensões que convida à exploração. Lançado em Early Access em 2023, HumanitZ foi sendo moldado ao longo do tempo através do feedback da comunidade, acumulando melhorias e ajustes que culminam agora na chegada da versão 1.0.
Evitar comparações diretas entre jogos nem sempre é fácil, e no caso de HumanitZ torna-se quase inevitável posicioná-lo como um concorrente direto, ou até como uma alternativa mais acessível e amigável, a Project Zomboid. A perspetiva isométrica obriga-nos a estar constantemente atentos às ameaças que nos rodeiam, exigindo uma gestão cuidada do campo de visão e da nossa posição no mundo. Em paralelo, o jogo força-nos a adaptar ao ambiente e a tirar partido de tudo o que encontramos, seja ao nível da alimentação, hidratação, temperatura ou equipamento. Aprender a sobreviver com os recursos disponíveis é essencial, já que muitas vezes essa adaptação representa a linha ténue que separa a sobrevivência da morte
Ainda assim, HumanitZ não transmite constantemente a sensação de perigo iminente, e a morte nunca parece tão próxima como noutros jogos do género. Alguns recursos básicos surgem com relativa abundância, enquanto outros se revelam surpreendentemente difíceis de encontrar. Nos meus primeiros contactos com o jogo, por exemplo, morrer de sede foi uma constante, simplesmente por não conseguir encontrar uma garrafa de água básica. Em contraste, comida e roupa quente eram itens que surgiam com bastante mais facilidade. Algo que também se torna imediatamente evidente é o design acessível do jogo, claramente menos frustrante do que em títulos como Project Zomboid. Aqui, em vez de lutarmos contra menus confusos e sistemas excessivamente complexos, somos incentivados a explorar, construir, acumular materiais e, acima de tudo, a sobreviver de forma mais intuitiva.
O jogo aposta ainda num mundo aberto de grandes dimensões, uma característica que se impõe desde as primeiras horas de jogo. O mapa é vasto e encontra-se dividido entre zonas rurais, áreas selvagens e núcleos urbanos mais densos, que demoram bastante tempo a ser alcançados. Esta fragmentação cria uma sensação constante de distância e isolamento, reforçando a ideia de um mundo em colapso. Cada deslocação exige planeamento e paciência, sobretudo nas fases iniciais, quando ainda dependemos exclusivamente das deslocações a pé, o que abranda significativamente o ritmo da progressão e torna cada decisão mais ponderada.
A ausência de veículos funcionais nas fases iniciais, aliada à velocidade reduzida de movimentação, faz com que explorar o mapa seja um compromisso deliberado. Cada deslocação obriga-nos a ponderar se vale realmente a pena abandonar uma base relativamente segura em troca da promessa de novos recursos. O jogo cria assim uma inércia curiosa, onde a sobrevivência não é ameaçada de forma imediata, mas a progressão fica constantemente suspensa entre a segurança conquistada e a curiosidade de avançar para o desconhecido.
O sistema de sobrevivência assenta em pilares clássicos, como saúde, fome, sede, temperatura e stamina, funcionando de forma clara e facilmente legível. Estes elementos estão sempre presentes, mas raramente se tornam sufocantes, dando-nos margem para reagir e colmatar eventuais problemas. Ainda assim, existem momentos que se revelam desafiantes, como o caso que vos contei ao morrer várias vezes de sede. No geral, a gestão da sobrevivência não se sente como uma luta constante contra a morte, mas sim como um exercício contínuo de manutenção, onde pequenas decisões acumuladas acabam por fazer toda a diferença ao longo do tempo.
A stamina assume um papel central em toda a experiência, funcionando como o verdadeiro regulador do ritmo do jogo. O peso transportado, os efeitos de estado e o esforço físico influenciam diretamente a capacidade da nossa personagem, condicionando a forma como reagimos a ameaças ou prolongamos as explorações. Situações como intoxicações alimentares introduzem momentos de vulnerabilidade inesperada, especialmente perigosos quando surgem durante confrontos, lembrando-nos que o perigo nem sempre vem apenas de fora.
No que toca ao combate, HumanitZ adota uma abordagem funcional e pragmática. O corpo a corpo é simples, mas eficaz, desde que saibamos gerir corretamente as distâncias e não ignoremos a stamina. A sensação de impacto é suficiente para tornar os confrontos satisfatórios, sem nunca se tornarem excessivamente técnicos ou complexos, algo que se enquadra bem na filosofia mais acessível que o jogo procura transmitir.
As armas de fogo funcionam de forma competente, mas a disponibilidade limitada de munições incentiva um uso ponderado e estratégico. O jogo empurra-nos subtilmente para o combate corpo a corpo sempre que possível, reservando o arsenal mais pesado para situações de maior risco. Esta dinâmica cria um equilíbrio interessante entre poder e vulnerabilidade, evitando que se instale a sensação de domínio absoluto que, noutros jogos do género, acaba por diminuir a tensão.
A variedade de zombies é também um dos pontos fortes de HumanitZ. Para além dos mortos-vivos mais comuns, existem variantes rápidas, outras capazes de explodir ou libertar gases tóxicos, obrigando a uma leitura constante do perigo antes de atacar. A presença de animais infetados acrescenta ainda mais imprevisibilidade à jogabilidade, vincando a ideia de que o mundo é hostil mesmo fora dos centros urbanos.
Esta lógica de tensão permanente não se limita aos encontros com zombies, estendendo-se também às interações com outros sobreviventes humanos. Os NPCs não são imediatamente identificáveis como aliados ou inimigos, obrigando-nos a abordar cada contacto com cautela. À distância, o seu comportamento é ambíguo, e só a aproximação revela se estamos perante alguém disposto a cooperar, a negociar ou a atacar, criando uma incerteza constante que transforma cada encontro num momento potencialmente perigoso.
O sistema de crafting é funcional e relativamente abrangente, mas também aquele que mais facilmente pode gerar frustração devido a alguns excessos. A recolha de recursos básicos, em particular madeira e metais, envolve vários passos intermédios até se obterem os componentes necessários para criar ferramentas, armas ou estruturas. Embora esta abordagem tente introduzir algum realismo, o resultado acaba por ser um processo lento e repetitivo, transformando tarefas simples numa sucessão de ações que quebram o ritmo e penalizam a progressão.
A construção de bases sofre do mesmo problema. Erguer uma estrutura de raiz exige um investimento considerável de tempo e recursos, muitas vezes desproporcionais face ao benefício obtido. Por esse motivo, a solução mais prática — e possivelmente a que a própria equipa de desenvolvimento parece ter em mente — passa por ocupar os inúmeros edifícios abandonados espalhados pelo mapa, barricá-los e adaptá-los às nossas necessidades. Na prática, o jogo raramente incentiva uma construção profunda, já que estas soluções improvisadas oferecem segurança e funcionalidade suficientes sem o desgaste associado ao grind.
Com isto em mente, é possível concluir que, apesar de o crafting e a construção serem sistemas valorizados por muitos jogadores do género, em HumanitZ acabam por assumir um papel opcional em vários momentos, utilizados apenas quando estritamente necessários. O peso excessivo do grind afasta-nos de uma vertente que poderia conferir ainda mais identidade ao jogo, deixando a sensação de que existem ferramentas interessantes e com potencial, mas que carecem de uma abordagem mais equilibrada e motivadora para nos fazer querer investir verdadeiramente no ato de craftar e construir.
Quanto ao modo multiplayer, podemos dizer que não funciona apenas como um complemento à experiência a solo, mas como uma das vertentes onde o jogo mais claramente revela o seu verdadeiro potencial. A possibilidade de jogar online em servidores configurados para PvE ou PvP permite moldar a experiência de acordo com o perfil de cada jogador, seja ele mais focado na sobrevivência cooperativa ou na tensão criada pelo confronto com outros humanos. Num jogo assente num mundo vasto e num ritmo deliberadamente lento, a presença de outros jogadores altera profundamente a perceção de escala, tornando a exploração menos solitária e a progressão mais orgânica e imprevisível.
Em cooperativo, muitos dos sistemas que a solo podem parecer excessivamente pesados ganham uma nova lógica. A recolha de recursos, o crafting e a construção deixam de ser tarefas individuais e passam a funcionar como esforços partilhados, diluindo o peso do grind e tornando a criação de bases um objetivo coletivo mais motivador. Na versão 1.0, a que joguei para fazer a análise, o sistema de clãs permite-nos organizarmo-nos de forma persistente dentro dos servidores, funcionando como pequenas comunidades de sobreviventes. Em paralelo, existe também a possibilidade de formar parties mais casuais e temporárias, ideais para cooperar com jogadores encontrados durante a exploração, sem o compromisso de uma estrutura fixa. Esta dualidade oferece uma grande liberdade de interação e favorece o surgimento de dinâmicas naturais, onde a cooperação nasce da necessidade e da confiança, e não de regras rígidas impostas pelo jogo.
A vertente PvP acrescenta uma dimensão de complexidade e tensão ao multiplayer. Em servidores onde o confronto entre jogadores está ativo, o mundo de HumanitZ torna-se consideravelmente mais perigoso, já que a ameaça deixa de ser apenas previsível, como acontece com os zombies, e passa a depender das intenções humanas. Cada encontro pode resultar numa aliança temporária, numa troca estratégica ou num conflito imediato por recursos e território, aumentando a sensação de instabilidade constante e tornando cada decisão social tão importante quanto as escolhas de sobrevivência.
Graficamente, o jogo apresenta uma identidade clara e funcional, apostando numa estética isométrica limpa e de fácil leitura, que privilegia a clareza da informação em detrimento do espetáculo visual. Os cenários são suficientemente detalhados para transmitir a sensação de um mundo abandonado, com uma boa variedade de ambientes naturais e urbanos, e a possibilidade de ajustar o nível de zoom permite adaptar a câmara tanto à exploração como ao combate. Apesar de não ser um jogo tecnicamente impressionante, a sua apresentação visual cumpre bem o seu propósito, oferecendo uma experiência consistente e agradável ao longo de toda a jogabilidade.
A componente sonora segue uma abordagem discreta, mas eficaz. A banda sonora acompanha o tom melancólico e tenso da sobrevivência sem se tornar intrusiva, enquanto os efeitos sonoros contribuem de forma geral para a imersão. Ainda assim, alguns sons associados a zombies e animais revelam-se menos polidos, soando por vezes artificiais ou desajustados ao contexto. Apesar dessas falhas, o trabalho de áudio cumpre o seu papel essencial e apoia de forma competente a atmosfera do jogo.
HumanitZ chega agora à sua versão 1.0 como uma experiência marcada pela liberdade, sustentada por um mapa vasto e ambicioso e por um mundo cuja imprevisibilidade está sempre presente. Quer nas interações com NPCs humanos, quer nos encontros com outros jogadores, existe uma sensação constante de incerteza que reforça o lado survival. Sem ser excessivamente confuso ou demasiado complexo, o jogo consegue proporcionar um equilíbrio sólido entre acessibilidade e profundidade, tornando-se uma excelente opção para fãs do género que procuram um survival com identidade própria e espaço para diferentes estilos de jogo.



