Developer: Deck Nine Games, Square Enix
Plataforma: Xbox Series X|S, PlayStation 5 e PC
Data de Lançamento: 26 de março de 2026
Quando falamos de jogos narrativos, há um nome que surge quase de imediato: Life is Strange. Ao longo de mais de uma década, a franquia construiu uma identidade muito própria, algo que vários títulos tentaram replicar, mas raramente com o mesmo impacto. Apesar de, à superfície, os seus jogos girarem em torno de personagens com poderes misteriosos e sobrenaturais, Life is Strange sempre foi muito mais do que isso. É uma série sobre escolhas, relações humanas e as consequências que delas advêm.
Embora todos os capítulos da saga tenham a sua qualidade, é difícil ignorar o peso emocional dos jogos centrados nas protagonistas do título original. O primeiro Life is Strange destacou-se como uma verdadeira lufada de ar fresco dentro do género narrativo, apresentando Max Caulfield e Chloe Price como figuras centrais de uma história que rapidamente marcou uma geração de jogadores. Mais tarde, Life is Strange: Before the Storm aprofundou o passado de Chloe, assim como ofereceu uma perspetiva sobre a sua relação com Rachel Amber, enquanto Life is Strange: Double Exposure trouxe de volta Max, agora numa fase diferente da sua vida, afastada de Arcadia Bay e rodeada por novas personagens.
Com Life is Strange: Reunion, a Deck Nine Games assume a difícil missão de encerrar a história de Max e Chloe — provavelmente as duas personagens mais marcantes de toda a franquia. Uma tarefa que, por si só, já carrega um peso considerável, mas que se torna ainda mais desafiante tendo em conta as expectativas dos fãs.
Por um lado, existe a questão da própria Chloe, cuja sobrevivência sempre foi tema de debate, especialmente considerando que, para muitos, o final onde a personagem morre foi aquele que melhor representou a visão original da Dontnod (estúdio que desenvolveu o primeiro jogo). Por outro, há o peso inevitável de fechar um ciclo que acompanhou tantos jogadores ao longo dos anos, um encerramento que não vive apenas da narrativa, mas também da nostalgia e da ligação emocional construída ao longo do tempo.
Quando iniciamos Life is Strange: Reunion, antes mesmo da história avançar, somos apresentados a um pequeno resumo dos acontecimentos anteriores, com especial foco em Life is Strange: Double Exposure. Esta retrospetiva serve de ponte para um momento essencial: a definição do legado de Max.
O jogo coloca-nos perante um conjunto de decisões que moldam diretamente o estado emocional da protagonista. Entre elas, destacam-se escolhas ligadas ao primeiro Life is Strange, como o destino de Chloe — se morreu ou sobreviveu — e a natureza da relação entre ambas. Já no que diz respeito aos eventos mais recentes, podemos definir o envolvimento de Max com Amanda, a sua posição face a Safi e até a ligação com Vinh.
Estas decisões não existem apenas por uma questão de continuidade. Funcionam como base para estabelecer quem Max se tornou — as suas relações, perdas e reconciliações. É uma forma clara de mostrar que Reunion não é apenas mais um capítulo, mas sim a continuação direta de uma história que nunca deixou de ser influenciada pelas escolhas do jogador.
O jogo começa de forma curiosa ao colocar-nos no papel de Chloe, permitindo um primeiro contacto com a personagem após anos de ausência. Rapidamente percebemos que a sua essência continua intacta — irreverente, direta e imprevisível — mas há algo errado. Chloe é assombrada por visões perturbadoras que a ligam a Max e a acontecimentos que não consegue compreender.
Pouco depois, a narrativa muda para Max, que regressa a Caledon após uma viagem de três dias relacionada com a sua carreira artística. No entanto, o regresso está longe de ser tranquilo. Uma mensagem de Moses, enquanto ela regressa calmamente de carro, leva-a a descobrir que o campus universitário está em chamas, num cenário marcado por protestos, tensão social e destruição iminente.
Perante isto, Max tenta chegar rapidamente à universidade para ajudar, mas depressa se apercebe de que está perante algo completamente fora do seu controlo. O campus está consumido pelas chamas, com portas trancadas por cadeados e alunos presos sem conseguirem escapar. A situação atinge o seu ponto mais crítico quando presencia a morte de Moses — um momento que funciona como catalisador para voltar a recorrer aos seus poderes. Incapaz de aceitar o que aconteceu, Max utiliza uma fotografia tirada antes da sua viagem e regressa a esse momento, na tentativa de evitar a tragédia.
Max volta a um ponto onde ainda existia esperança, mas carrega consigo o peso de tudo o que sabe que está para acontecer. A partir daqui, a narrativa transforma-se numa verdadeira corrida contra o tempo, onde cada decisão pode alterar o rumo dos acontecimentos ou simplesmente aproximar um destino inevitável. Desta vez, Moses assume um papel ainda mais importante, não apenas como vítima do evento inicial, mas como aliado — um estudante de doutoramento em astrofísica que tem conhecimento dos poderes de Max e a quem ela recorre para tentar perceber o que aconteceu.
Max sabe bem as consequências que estas manipulações do tempo podem trazer — basta recordar os acontecimentos de Arcadia Bay — e esse é um dos principais motivos para procurar a ajuda de Moses. Juntos, tentam encontrar a melhor forma de evitar que tudo volte a correr mal.
À medida que investigam o que está por detrás do incêndio, a história desenvolve-se como um puzzle fragmentado. Conversas, documentos e pequenos detalhes espalhados pelo ambiente ajudam a construir uma teia complexa de tensões, interesses ocultos e decisões que fugiram ao controlo.
Enquanto isso, Chloe, marcada pelas visões — onde Max surge repetidamente associada a situações violentas e inexplicáveis, acompanhada por Safi, uma figura que nunca conheceu — decide ir ao encontro de Max. Viaja até Caledon, onde o reencontro entre as duas se torna inevitável, num momento carregado de significado.
Sem entrar em detalhes que comprometam a experiência, é a partir daqui que a narrativa ganha uma nova dimensão. Max e Chloe voltam a cruzar caminhos e, se por um lado algumas pontas soltas começam a fazer sentido, por outro surgem novas questões que tornam tudo ainda mais complexo. Após Max explicar o que aconteceu, ambas unem esforços para desvendar o mistério do incêndio, enquanto elementos cada vez mais densos — e até conspirativos — começam a emergir ao longo da investigação.
Quanto ao desfecho, esse é algo que merece ser vivido por cada jogador. Mais do que apresentar respostas definitivas, Reunion deixa espaço para interpretação, permitindo que cada um retire a sua própria leitura da mensagem que o jogo procura transmitir.
Uma das principais novidades de Life is Strange: Reunion é a introdução de uma estrutura de duplo protagonismo. Ao longo da campanha, vamos alternando entre Max e Chloe, acompanhando individualmente as suas perspetivas enquanto ambas caminham, gradualmente, para o mesmo ponto narrativo. Max mantém-se introspectiva e cautelosa, enquanto Chloe continua fiel à sua personalidade impulsiva e direta. Curiosamente, o jogo não tenta suavizar essa identidade, pelo contrário, permite que a sua abordagem mais agressiva na comunicação seja, em certos momentos, a mais eficaz.
O elemento mais interessante surge nas interações entre ambas. Existem momentos em que não controlamos apenas uma personagem, mas sim o rumo completo de uma conversa, influenciando simultaneamente as respostas de Max e Chloe. Uma mecânica diferente que cria uma sensação invulgar de proximidade, como se estivéssemos a moldar diretamente a dinâmica emocional entre as duas.
À primeira vista, pode parecer uma simplificação do sistema de escolhas, mas na prática acaba por criar mais impacto emocional. O foco deixa de estar na procura da resposta certa e passa para aquilo que queremos que aquela relação represente.
Com isto, torna-se evidente que o sistema de escolhas continua a ser central, mas com algumas nuances. Em vez da estrutura tradicional assente em grandes decisões pontuais, o desfecho da história passa a ser influenciado por um conjunto de pequenas ações ao longo de toda a experiência, incluindo a forma como utilizamos os poderes de Max.
O poder de retroceder no tempo é, como não podia deixar de ser, um dos elementos centrais de Life is Strange: Reunion, sendo utilizado tanto em diálogos como em momentos de maior tensão. O facto de sabermos algo que ainda não aconteceu permite desbloquear novas opções e alterar o rumo das interações, oferecendo-nos sempre a sensação de controlo sobre a narrativa.
Chloe, por sua vez, volta a recorrer ao sistema de backtalk, que exige atenção ao contexto e à personalidade dos interlocutores para vencer confrontos verbais. Esta mecânica mantém-se fiel à identidade da personagem, obrigando-nos a observar e interpretar cada situação antes de agir.
No que diz respeito à exploração, esta assume um papel bastante relevante ao longo da experiência, com pistas escondidas no ambiente e uma maior aposta na observação. Ainda assim, isso não torna o jogo mais complexo ou exigente do que os anteriores. Os puzzles continuam a ser simples e funcionam sobretudo como uma ponte entre momentos narrativos, em vez de representarem um verdadeiro desafio.
A vertente gráfica mantém a identidade visual que a franquia consolidou ao longo dos anos, com um estilo que combina realismo ligeiro e uma estética estilizada, favorecendo a expressão emocional das personagens e a atmosfera de cada cenário. Os ambientes, como os jardins e os edifícios do campus de Caledon, são instantaneamente reconhecíveis para quem já jogou Double Exposure, transmitindo familiaridade e continuidade. As sequências mais oníricas ou surreais são trabalhadas com um cuidado especial, misturando cores e formas de maneira a refletir os estados psicológicos das protagonistas e a tensão da narrativa.
A componente sonora, por outro lado, continua a ser um dos maiores trunfos. Desde o primeiro jogo, a música tem desempenhado um papel crucial na construção da experiência emocional, e aqui não é exceção. O jogo equilibra de forma magistral faixas instrumentais suaves com canções que dão vida a cada cena. Artistas como Nicholas Michael Hill, Girl In Red, Daughter ou Tessa Rose Jackson contribuem para uma banda sonora memorável, com cada música a ser cuidadosamente posicionada.
Além da banda sonora, os efeitos sonoros e o trabalho de voz são impecáveis. As vozes de Hannah Telle (Max) e Rhianna DeVries (Chloe) transmitem autenticidade e profundidade, com nuances que tornam cada diálogo mais realista e credível. O som ambiental, desde os passos nas salas do campus até a todo o ambiente à nossa volta, ajuda a criar uma sensação de presença no mundo.
Life is Strange: Reunion embora não consiga atingir o impacto do primeiro jogo – tal como nenhum outro Life is Strange conseguiu – consegue ser credível e sincero no que pertente oferecer. Um dos pontos mais importantes o jogo acerta na perfeição que é na relação entre Max e Chloe, que na verdade é aquilo que todos mais ansiávamos para ver como seria no reencontro destas duas personagens. Fica o amargo de ser o culminar da história, mas temos de admitir que é um adeus digno a duas personagens que marcaram uma geração






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