Developer: Deck Nine Games, Square Enix
Plataforma: PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series, Nintendo Switch e PC
Data de Lançamento: 10 de Setembro de 2021

O lançamento de um Life is Strange é sempre um momento importante para quem é fã de jogos de narrativa. E principalmente agora que ficámos órfãos das obras da Telltales Games, estúdios como o Quantic Dream, DONTNOD Entertainment e o Deck Nine, ganham uma relevância ainda maior na missão de preencherem esse vazio.

Life is Strange: True Colors é o título do novo jogo, e traz-nos uma história inédita e sem qualquer relação com as anteriores. Ao contrário de Life is Strange e Life is Strange 2, não coube à DONTNOD a incumbência de desenvolver o mais recente título da série. Desse modo, a Square Enix decidiu atribuir, mais uma vez, essa responsabilidade ao estúdio Deck Nine – os mesmos autores de Life is Strange: Before the Storm.

Quem estava preocupado de que a Deck Nine pudesse não estar à altura da tarefa, pode ficar descansado, porque True Colors é, em alguns aspectos, um dos melhores exemplares da série. Temos novamente um jogo poderoso do ponto de vista emocional, com uma protagonista que, a par de Chloe em Before the Storm, mais se desenvolve como personagem em toda a série.

Após anos afastados, os irmãos Chen voltam a reencontrar-se. Gabe passou algum tempo num reformatório, enquanto Alex, a protagonista, saltava de lar de acolhimento em lar de acolhimento. A história que os une, como é simples de prever, não é agradável, mas explica como especialmente no caso de Alex, existem muitos traumas e emoções reprimidas.

À semelhança dos outros jogos da franquia, também a narrativa é construída em cima de uma tragédia. Por esse motivo, é fácil criarmos desde logo uma ligação emocional à protagonista, o que nos leva a solidarizar com o seu percurso de vida e a entendermos as razões da sua impulsividade.

Outra característica comum na série é de a fluidez da história estar normalmente acoplada à manifestação do poder de uma das personagens. Em True Colors, através da sua extraordinária empatia, Alex Chen consegue ler os pensamentos de outras personagens quando estas ficam mais envolvidas pelas emoções.

E se no começo ela receia fazer uso das suas habilidades adormecidas, é quando decide render-se às condições do seu dom que ganha o arrojo para encarar o seu passado. Inicialmente apenas consegue ouvir pensamentos, mas eventualmente o seu poder evolui para a possibilidade de desbloquear memórias relacionadas com objectos, ou mesmo para absorver os sentimentos negativos de outras pessoas.

Quando alguém fica dominado pelas emoções emite uma aura com determinada cor, por exemplo, a raiva tem cor vermelha, a tristeza é azul, o medo é lilás e a alegria tem um tom dourado. Nesse instante é possível interagir com essas personagens e ficarmos a saber o que estão a pensar e obter informações vitais.

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A pequena cidade de Haven esconde um terrível segredo. Na base desse mistério sombrio está a empresa local de mineração e a morte de uma personagem importante, levando o jogo para um excitante patamar de investigação. O poder de Alex torna-se assim essencial para encontrarmos a melhor maneira de conduzirmos os diálogos e descobrirmos quem é realmente confiável.

De resto, é em tudo muito similar aos seus antecessores, e especialmente a Before the Storm, partilhando da mesma simplicidade na abordagem das tarefas que nos são dadas. Os objectivos são intuitivos, e nunca notamos estar a perder tempo desnecessariamente. Essa interligação com a narrativa faz de True Colors uma experiência natural e intrigante, da qual é difícil de nos afastarmos.

Tem uma dinâmica muito interessante, em particular quando olhamos para as conversas entre Alex, Ryan e Steph – as personagens com maior presença. A qualidade dos diálogos é fantástica, assim como toda a história, que nos reserva surpresas das quais poucos estarão à espera. E com um último episódio que é possivelmente um dos melhores de todo o franchise.

São cinco capítulos distribuídos ao longo da história, cujo ritmo tem uma cadência habilmente estruturada, evoluindo sempre nos tempos certos. O enredo não tem pressa em desenlear-se, e sabe escolher cirurgicamente os momentos de fazer as revelações mais surpreendentes. É uma montanha russa de sentimentos, mas é precisamente esse o propósito, dado o tema que explora.

Raros são os jogos que conseguem humanizar as personagens desta forma. A Deck Nine fez um trabalho fabuloso nesse sentido, e várias são as vezes de que nos esquecemos estar perante meras animações. A interpretação que Erika Mori faz da personagem de Alex Chen é absolutamente brilhante, com um dos mais poderosos voice acting da história dos videojogos.  É incrível como alguém tem a capacidade de se entregar de tal maneira a uma persona que se torna difícil imaginá-la sem todos aqueles pormenores que a caracterizam.

E em muito ajuda o avanço gráfico em comparação com os jogos anteriores, tornando algumas vezes Life is Strange: True Colors numa experiência de contemplação. A cidade de Haven é dotada de paisagens lindíssimas que nos impressionam pelos detalhes. No entanto, é com as expressões faciais das personagens que ficamos verdadeiramente encantados, dando vida a cada papel.

A ligação com a música é ainda mais forte em True Colors, até porque é o sonho de Alex e Steph um dia tentarem uma carreira musical, e terão inclusivamente cenas em que tocarão juntas. A fasquia da banda sonora é sempre alta num Life is Strange, e mais uma vez não desilude. Temos outra playlist maravilhosa que nos consegue guiar pelo jogo, particularmente nos momentos de maior carga emocional, tornando toda a jornada bastante especial.

Life is Strange: True Colors é mais uma magnífica experiência narrativa que certamente apaixonará quem é admirador do género. Com uma das mais fortes protagonistas de toda a franquia, é uma digna adição à série que vale bem a pena descobrir.

Uma lição sobre a vulnerabilidade e a coragem de se permitir sentir.