Developer: Zoink!, Electronic Arts
Plataforma: PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series, Nintendo Switch e PC
Data de Lançamento: 10 de Setembro de 2021

E quando julgamos que pouco mais existe para inovar em termos de substância e mecânicas nos videojogos, surgem jogos que nos provam precisamente o contrário. Lost in Random é um desses jogos, outra pérola do estúdio Zoink!, também conhecidos por serem os autores de Fe, e que novamente sob o programa EA Originals conseguem criar uma experiência única.

É um jogo que reúne várias ideias que poderão ser familiares à partida, mas que provavelmente estamos a vê-las juntas pela primeira vez. Se tivesse de defini-lo numa palavra, teria de ser inevitavelmente “aleatoriedade”, tal como o seu título sugere. Todo o seu conceito se resume a essa palavra, e de uma forma bastante inteligente e original, mais do que em uma vertente.

Essa aleatoriedade é simbolizada por dados, que estarão representados nas duas partes mais importantes do jogo: na história e na jogabilidade. O universo extremamente criativo de Lost in Random é o palco ideal para que toda esta concepção faça sentido, e artisticamente tem a capacidade de ser tão único quanto toda a proposta em si.

Diria que parece um mundo idealizado por Tim Burton, com uma história que parece inspirar-se ligeiramente na Alice no País das Maravilhas. E há que dizê-lo: funciona surpreendentemente bem. Transporta-nos para uma dimensão que não conseguimos parar de descobrir, onde cada canto esconde um diferente mistério com os quais nos podemos identificar.

Em Random, impera a tirania de uma rainha que tem ditado as regras sem se preocupar com as injustiças que resultam das suas deliberações. Num reino formado por várias regiões, o destino de cada um dos seus habitantes é decidido por um simples lançamento de dados – literalmente. Cada vez que uma criança celebra doze anos de idade, será obrigada a atirar os dados, e o resultado designará a região para onde será enviada.

Como devem calcular, a protagonista, Odd, é uma menina que acabou de atingir os fatídicos doze anos. Quando os dados rolam, o número seis impõe que terá de viver com a raínha no seu palácio. Odd alinha durante algum tempo, no entanto, por um motivo (que não vou contar, só posso dizer que envolve a sua irmã), acaba por fugir, levando a que a sua aventura comece e descubra todo um mundo de personagens intrigantes e criaturas bizarras.

Pelo caminho, teremos alguns puzzles para resolver, e algumas figuras que proporcionarão alguns diálogos confusos naquela fase. Por outro lado, ficamos a entender como é exactamente a atmosfera opressiva da região, ainda que não seja directamente assumida.

Sendo um mundo pouco amigável, é quando conhece Dicey, um simpático e misterioso dado que tem vida própria, que as coisas se equilibram para o lado de Odd. Será um seu fiel companheiro, e uma ajuda preciosa, e é também nesse momento que o jogo se abre do ponto de vista da jogabilidade, oferecendo um enorme leque de possibilidades.

A partir daí funcionará como um RPG de acção combinado com deck builder. Cada vez que Odd acerta em pontos estratégicos dos adversários, poderá reunir recursos, que depois lhe proporcionará várias cartas. É nesse momento que invoca Dicey para escolher que cartas irá jogar, e que lhe darão a hipótese de trocar de arma, recuperar energia, aumentar o poder, entre outras coisas.

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 As cartas têm um custo de invocação, que está relacionado com o número invocado por Dicey no seu lançamento. No ínicio os números são baixos, mas com a progressão no jogo essa margem aumenta, oferecendo a possibilidade de cartas mais fortes e combinações mais complexas.

Na hora em que decidimos puxar do nosso baralho a batalha fica em suspenso, para que tenhamos tempo para decidir sem pressas e escolher o mais adequado à situação. É tático, estratégico, e extremamente divertido, especialmente quando começamos a compreender a lógica e criamos as nossas próprias estratégias e combinações de cartas.

A melhor maneira de conseguirmos cartas mais poderosas é através de um vendedor. Esse vendedor aceita uma moeda próprio, que conseguimos destruindo certos objectos, ou mediante algumas missões secundárias. Será a partir daí que o nosso deck começa a ficar de acordo com a idealização da nossa estratégia, tornando-se viciante.

Há uma certa discrepância entre a dificuldade dos adversários normais e os bosses, que esperamos ser corrigida num futuro próximo. Vai de combates que podiam ser mais desafiantes, a batalhas demasiado exigentes, o que podia e deverá ser melhorado. Ainda assim, nunca fica aborrecido, e toda a dinâmica envolvente e genuinamente divertida.

O caminho que percorremos de arena a arena é por norma muito linear, com puzzles cujas soluções são intuitivas, sem nos obrigarem a estar um tempo exagerado no mesmo lugar. Também a exploração e as circunstâncias em que estamos a dialogar com outros npc’s estão muito bem executadas no que diz respeito ao ritmo, trazendo uma experiência bastante suave e natural.

Ainda sobre os diálogos, podemos escolher as perguntas e as respostas de Odd, o que origina conversas muito interessantes, e onde podemos ficar bem informados relativamente a pormenores que a história esconde. Infelizmente, nesses casos, apenas temos a voz de quem conversa com Odd, uma vez que esta fica silenciosa, não importa a nossa escolha. Apesar de ser somente um detalhe, retira alguma envolvência à comunicação entre os intervenientes, especialmente para aqueles que absorvem todo o lore.

Graficamente é absolutamente espantoso. Imaginem algo como The Nightmare Before Christmas e Corpse Bride de Tim Burton, ou mais recentemente o Coraline, de Henry Sellick. Toda aquela atmosfera de fantasia gótica está aqui brilhantemente capturada, e está incrivelmente bem desenhada, cativando o jogador desde o começo.

A banda sonora é outra das melhores faces de Lost in Random, seja na música, num tom sempre sombrio e misterioso, ou no voice acting dos actores que se dedicaram por completo às personagens. Sem estas duas vertentes a experiência nunca seria total, e como tal, o estúdio sabia que tinha de exigir o máximo.

Lost in Random é uma das surpresas de 2021. Não tenho dúvidas que irá constar das menções honrosas de várias selecções de jogos do ano, e merecidamente, porque num tempo em que se joga cada vez mais pelo seguro, propostas diferentes são sempre bem-vindas. A minha vénia à Zoink! pela inovação e o talento espelhados neste adorável título.

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