Developer: 2K Games, Hangar 13
Plataforma: PlayStation 4, Xbox One, PC
Data de Lançamento: 25 de Setembro de 2020

Foi no início do milénio, mais precisamente em 2002, que surge o primeiro jogo de uma marcante trilogia que explora o submundo do crime organizado, durante os anos 30, numa américa que tentava reerguer-se dos problemas económicos causados pelo recente crash da bolsa.

Ainda que abordasse um tema diferente, era impossível não notar as influências do mundo aberto da série GTA. Curiosamente, Gran Theft Auto: Vice City foi lançado no mesmo ano de Mafia, sendo que este último pretendia oferecer uma alternativa mais histórica e cinemática.

Foi um sucesso na altura, e merecidamente, dada a qualidade da história e da imersão que proporcionava a quem se deixasse envolver. Mafia foi um título construído a partir da sua narrativa, para depois nos deixar participar com alguma liberdade num argumento complexo e escrito de um modo brilhante, como uma oportunidade de podermos viver filmes clássicos com os quais crescemos e que partilhavam da mesma temática, como Once Upon a Time in America, ou a trilogia The Godfather.

Dezoito anos depois, além de sabermos que íamos ter um remaster de Mafia 2, o que realmente provocou a maior surpresa foi anúncio do remake de Mafia, agora baptizado de Mafia: Definitive Edition. A Hangar 13 decidiu utilizar o game engine de Mafia 3 (lançado em 2016), aquele que curiosamente teve menos sucesso na série. Um motor-de-jogo relativamente recente, e com todas as condições de garantir a devida homenagem a um excelente jogo.

Depois de um misterioso adiamento, chega o esperado remake, e em vários aspectos não desilude. O motor-de-jogo de Mafia 3 é aproveitado no máximo do seu potencial, entregando cutscenes de tirar o fôlego, assim como um visual gráfico absolutamente espantoso. Na verdade, é uma franquia que se sustenta muito nas cutscenes e nas experiências cinemáticas, porque ao contrário de GTA, a orientação é muito mais linear, onde grande parte do tempo é passado a assistir às cativantes cenas que nos vão situando na história, como se de um filme se tratasse.

Mafia Definitive Edition revive o percurso de Thomas Angelo, desde que começa como um simples taxista, em 1930, até se deixar atrair pelo sedutor caminho do dinheiro fácil, na época da lei seca. Com uma insustentável crise a sufocar o país e mais precisamente Chicago – a cidade onde terá lugar a história – o desespero leva à tentação, e o protagonista acaba por envolver-se com a família Salieri, para a qual acabará por fazer alguns trabalhos como iniciante.

Será nesse ponto que iremos incorporar o papel de Thommy, e faremos de tudo um pouco, desde o transporte clandestino de bebidas, o habitual contrabando, perseguições e hits, e claro, saber convencer quem não paga as dívidas. As responsabilidades, como é expectável, aumentarão ao longo da história, e rapidamente conseguiremos subir na hierarquia, conquistando posições mais privilegiadas.

Paga-nos o café hoje!Com uma perspectiva na terceira pessoa, fica a conjuntura ideal para explorar um mundo aberto, especialmente quando conduzimos os veículos existentes no jogo. Neste caso, são mesmo momentos de contemplação, e um prazer percorrer as ruas da cidade ao volante de lindíssimos clássicos que vamos juntando insaciavelmente à nossa colecção.

Todavia, é nos tiroteios que normalmente sentimos dificuldades, já que a mira é pouco amigável e muitas vezes difícil de dominar no calor da acção. A adicionar a isso, os próprios controlos e movimentos são por vezes pouco responsivos, tornando o combate num desafio. Nada que não possamos superar com prática e paciência, especialmente se soubermos como tirar partido do sistema de cover. Porém, contem com alguma frustração ocasional.

Ainda assim, a sua jogabilidade é bastante agradável. Sim, já existem jogos de mundo aberto com um gameplay mais sofisticado e flexível – não nos podemos esquecer que é um motor-de-jogo de 2016 –, mas sem dúvida que Mafia Definitive Edition reproduz uma componente interactiva da qual vale a pena desfrutar.

É, contudo, através da sua história e principalmente das fantásticas sequências de cutscenes que Mafia Definitive Edition brilha. Poucos jogos conseguem contextualizar e dirigir uma narrativa desta forma tão arrebatadora, fazendo lembrar a saga Red Dead Redemption – com as devidas distâncias, claro.

Diria que é uma combinação muito peculiar entre um jogo e uma experiência cinematográfica, e que nos empurra a progredir nas missões com um forte desejo de querermos saber o que virá das consequências dos actos de Thomas Angelo. Um equilíbrio que faz deste remake uma óptima opção para quem quer mergulhar num enredo poderoso e com twists surpreendentes.

Esta deslumbrante faceta narrativa não teria tanto impacto sem atributos gráficos e sonoros de igual qualidade. E é precisamente isso que acontece. As expressões faciais e os pormenores dos rostos podiam, de facto, estar mais cuidados, mas tudo o resto corresponde inteiramente ao que foi prometido. A beleza das ruas da cidade, os veículos, as roupas da época e os efeitos visuais, só têm par na banda sonora que transporta o jogador para um período muito especial da história americana, cujo crime floresceu como provavelmente como nunca antes.

Mafia Definitive Edition, apesar de pequenos problemas, é um extraordinário regresso a um belíssimo título. Tanto para quem nunca jogou o original, como para quem pretende voltar a jogar quase duas décadas depois, mas agora com uma qualidade superior, é certamente um título a não perder.