Developer: William Chyr Studio
Plataforma: Nintendo Switch, PlayStation 4, Xbox One, PC
Data de Lançamento: 18 de Agosto de 2020

Antes de começar esta análise teremos de falar de um artista holandês do século passado, Maurits Cornelis Escher, viveu entre 1898 e 1972, e morreu com 73 anos. As suas obras eram incríveis, oferecendo perspectivas estranhas, muitas ilusões de óptica, originalidade acima de tudo e muita habilidade. Ao lerem sobre ele vão reparar que muito se fala das suas perspectivas mirabolantes e impossíveis de construir. Seja como for, olhando para as suas obras, ficamos impressionados com a sensação de infinito e de uma incrível geometria que prega partidas à nossa mente. A perspectiva isométrica dando uma ideia de 3D, para depois colocar diferentes gravidades numa obra, são de nos deixar de queixo caído, e se pensarmos que Escher não era um grande prodígio nas ciências matemáticas ainda ficamos mais confusos.

Provavelmente estão a pensar a razão desta introdução na análise de Manifold Garden, mas a resposta é bastante simples, já que é um jogo que está a ser criado já há alguns anos. Pelas minhas contas, o desenvolvimento durou cerca de 7 anos, até ao seu lançamento no PC (2019), e este ano chegou a versão PlayStation 4, Xbox One e Nintendo Switch. Foi desenvolvido por William Chyr, que se inspirou nas obras de Escher para a criação deste jogo, daí ter sido importante aquele enquadramento.

É fácil compreender desde já que este será um jogo para um público muito específico, diria que é um jogo baseado em arte. O jogo é todo em primeira pessoa, e isso leva a que tenham sempre uma enorme perspectiva de tudo o que está à vossa frente. É possível andarem por todo o lado, até nas paredes e tecto. Só o efeito disso no jogo já é incrível, porque se no início vocês ainda tem uma noção do que é o tecto ou as paredes, passado uns 5 minutos, já não fazem a mínima ideia em que local estão a andar, simplesmente desfrutam das diversas perspectivas de cenários do jogo.

Todo o jogo começa de forma simples, para irmos percebendo as suas dinâmicas, por exemplo das primeiras coisas que vocês percebem é que é necessário colocar determinados cubos em determinados locais para abrirmos portas que permitem avançar, para terem uma ideia fazem lembrar bastante os cubos que encontrávamos nos quebra-cabeças de Portal. Mas com uma diferença significativa, porque se em Portal os cubos serviam para enviarmos para determinados locais e conseguirmos pressionar botões, por exemplo, aqui o objectivo é outro, e temos de colocá-los em locais específicos, tendo estes ainda de possuir a cor correcta.

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Embora, como disse, seja possível andar por paredes e tectos, a verdade é que também existe gravidade, e essa é essencial para resolverem certos quebra-cabeças que o jogo vos arranja. Com o avançar do jogo tudo vai ficando mais complexo, os locais são mais abertos e abrangentes, chegado a um ponto que parece que o infinito “é o limite”. Será devido a estas mudanças de perspectivas (parede, tecto e chão) e à gravidade que conseguiremos mover determinados cubos, o que torna tudo ainda mais interessante e também complicado.

A razão de ter “Garden” no nome é porque será possível cultivarmos vegetação, árvores e outros elementos ligados à natureza, criando um cenário diferente e bonito à vossa volta e oferecendo imagens das quais não estamos mesmo à espera, porém, com a beleza dentro da arte que o jogo nos tenta oferecer. É quase uma mistura de futurismo com pintas de elementos naturais que trazem uma sensação de beleza e calma ao jogador, onde a ausência de morte também trás a sensação que nunca estamos a falhar com o jogo.

E a verdade é que talvez esse ponto seja de extrema importância, pois leva-nos a esquecer por vezes o objectivo principal – que é avançarmos no jogo – resolvendo dos diversos puzzles e quebra-cabeças. Pois por vezes sentimos-nos completamente perdidos naquele infinito e sem saber onde está o nosso objectivo. Eu que adoro este tipo de jogos cheios de quebra-cabeças, cheguei a andar feito louco de um lado para o outro sem encontrar o que tinha de fazer. Talvez pela enorme quantidade de cenários, e por todas as perspectivas que podemos andar, seria bom existir um pequeno sinal, uma pequena luz, um brilho que levasse o jogador ao objectivo.

A total ausência de textos ou explicações do que se passa, assim como onde estamos e qual o nosso objectivo principal, leva o jogador a tentar criar algo seu, a criar uma história, ou até a “tentar entrar” na cabeça do criador para tentar encontrar um objectivo. Podemos pensar que a ideia é criar um jardim belo, e daí as hipóteses de semearmos vegetação, mas por outro lado, pode ser apenas algo para tornar o jogo diferente; podemos imaginar que é um sonho, um outro universo, e a verdade é que tudo fica ao critério do jogador. Na realidade, o objectivo será mesmo progredirem, e resolverem os puzzles e quebra-cabeças que o jogo vos oferece.

Graficamente o jogo é simplista e belo, e se sentimos que os tons brancos e bege são uma predominante, quando conseguimos progredir e ir resolvendo os quebra-cabeças, começamos a ver cor por todo o lado, já que este se vai pintando, de vermelho, azul, verde e por aí. A parte da natureza também oferece beleza e isso é uma mais valia. A ideia do infinito que se repete “infinitamente” é um conceito que William Chyr conseguiu trazer para o jogo de uma maneira incrível.

Manifold Garden é estranho para uns, incrível para outros, mas belo para todos. Num conceito extremamente futurista, por ter diversos quebra-cabeças e puzzles não é um jogo para todos os jogadores. A ausência de história escrita leva cada um a criar a sua própria ideia ou enredo, embora “enredo”, neste jogo, seja uma palavra demasiado generosa. Para quem gosta de jogos diferentes e de resolver puzzles, então este é um daqueles indies que não podem deixar escapar.