Developer: Crystal Dynamics, Square Enix
Plataforma: Xbox One, PlayStation 4 e PC
Data de Lançamento: 3 de Setembro de 2020

Como fã dos Comics da Marvel, e de tudo o que mexe em relação a isso, a minha expectativa em relação ao jogo da Crystal Dynamics e da Square Enix era enorme, agora será que deixaram a minha criança interior feliz ou fugiram com o meu algodão doce?

A resposta rápida seria ambas, por um lado o jogo oferece uma campanha e história bastante sólida, fugindo a todas as histórias que já conhecemos, introduzindo uma personagem que ainda não tinha tido destaque nesta nova era da Marvel e destacando um inimigo que ainda não tinha sido referido neste universo paralelo com os filmes e com a aquisição da Disney. Por outro, vamos andar atrás desse algodão doce que referia, devido ao sistema de loot, sempre a fazer mais e mais missões e eventos online para conseguir fazer subir o level cap da nossa personagem, tarefa essa que não é fácil, e que por vezes é cansativa e repetitiva.

Vamos então por partes, comecemos pela história. Depois de ter sido apresentado, Marvel’s Avengers, levou um enorme upgrade às feições das personagens, a não parecerem apenas bonecos random do GTA, para ter traços físicos consistentes, e mesmo não sendo as recriações dos atores dos filmes, (até para poupar dinheiro nos direitos de imagem), as personagens têm os traços gerais daqueles que conhecemos seja dos comics, seja dos filmes, isso estende-se também à história que recupera um dos vilões mais esquecidos do universo, Modok, que com a sua inteligência e poder de mutagénicos é capaz de controlar toda a tecnologia com a sua mente, e que tem como desejo acabar com todos os mutantes e super heróis do planeta.

A história, numa primeira parte, centra-se em Khamala Khan, uma jovem muçulmana, acérrima fã dos Avengers, que através de uma competição de criar uma banda desenhada dos seus heróis preferidos, ganha a possibilidade de estar no centro do Dia dos Vingadores, a bordo da base aérea da S.H.I.E.D., no entanto a celebração acaba por se tornar uma tragédia, com um ataque supostamente liderado por Taskmaster.

É aqui que vamos ter o primeiro contacto com a jogabilidade do jogo, tal como aconteceu nas betas do jogo, onde vamos comandar Thor, Iron-Man, Hulk, Captain America e Black Widow, percebendo as várias capacidades de cada um, e as suas especialidades. Mas antes de entrar nesse campo, falemos um pouco mais da história do jogo, a Crystal Dynamics, quis dar ênfase a Khamala Khan e as suas razões parecem óbvias e perspicazes. Numa altura em que as questões raciais estão no centro da agitação social de todo o mundo, a oportunidade de trazer uma personagem muçulmana, uma mulher, e ao mesmo tempo, uma mutante, fazem todo o sentido, dando a visão de como se pode ser excluído da sociedade por ser diferente, de como se pode ser menosprezado por isso mesmo, ou como se pode ser atacado por apenas ser diferente. É uma forma perspicaz de abordar o assunto e de ao mesmo tempo dar uma lição de moral, e fazê-lo num franchise tão poderoso e que chega a tanta gente, especialmente ao mais novos, é um facto que devemos assinalar e aplaudir.

A jovem Khamala Khan, acaba por sobreviver ao ataque no Dia dos Vingadores a bordo de um Quinjet, mas não deixa de acreditar que a culpa do terrível acidente foi algo orquestrado por uma outra força ainda desconhecida. A verdade é que depois do acidente que acabou com a morte do Captain America, fez com que a cidade de Manhattan fica-se em modo de quarentena e com que um sem número de pessoas morresse ou ficasse infetada por um vírus que torna-os mutantes. Os então chamados de Inhumans, escorraçados pela sociedade ou perseguidos pela A.I.M., a empresa cibernética que ficou encarregue de dar as condições de segurança à cidade, acaba por fomentar o ódio e a perseguição a estes Inhumans, dos quais, também Khamala Khan acaba por fazer parte. É aí que percebemos que Khamala Khan tem poderes, nomeadamente o poder de metamorfose do seu corpo, ou dizendo de uma forma mais simples, é capaz de se esticar, parecendo o Homem Elástico do Quarteto Fantástico.

Com os Vingadores acusados do terrível acidente no dia dos Vingadores e com Bruce Banner a corroborar essa teoria, os Vingadores separam-se e desaparecem da face da Terra, deixando todos nós órfãos dos seus super-heróis. Khamala Khan na busca pela verdade vai acabar por ir de encontro a Hulk e depois aos restantes Vingadores, na tentativa de desmascarar a A.I.M. e de perceber o que aconteceu com o Captain America. E não vou dizer mais nada para não spoilar a história, porque, de facto, é um dos pontos chave do jogo, e sendo uma história criada do zero, merece ser vivida.

É neste modo de campanha que vamos ter a maior diversidade em termos de jogabilidade, não vamos apenas ter as mecânicas de ataque e defesa, e o sistema habilidades, que já vamos desbravar mais à frente, mas temos também uma forte componente de plataformas e também de stealth. Vamos encontrar ao longo do jogo momentos em que vamos ter percorrer zonas sem sermos detetados, recolher items, ou até andarmos de plataformas em plataformas para atingir os nossos objetivos. Neste campo, a Crystal Dynamics costuma ser exímia, aliando a jogabilidade de toda a sua campanha, com momentos em que as dinâmicas de jogabilidade se alteraram, quase que em formato quick timed events, o que para aqueles que jogaram os novos Tomb Raider, vão de certeza perceber a semelhança.

Também por isso mesmo, toda a campanha será envolvida em perceber as mecânicas de jogo, a Skill Tree, as diferenças entre as personagens que vamos comandando, e uma história bem assentada, que apesar de passar por alguns clichés, nos deixa sempre com água na boca de quem vamos controlar a seguir ou que nova aventura vamos preconizar, durante as cerca de 20 horas de jogo, bem jogadas, a limpar todos os cofres e missões secundárias, o que será fulcral, para avançarem as vossas personagens para tudo o que acontece depois do chamado End Game.

Tentemos então falar da componente de jogabilidade, que apesar de ser relativamente simples, também assenta na Skill Tree das nossas personagens, e essas bastante mais complexas. Temos como é habitual em jogos de combate em terceira pessoa, um ataque leve e um ataque forte, o saltar ou em alguns casos voar, o LB e o RB (jogámos em formato Xbox One X) para ativar os especiais e combinados para o Super Especial, e os triggers para atirarmos objetos ou dispararmos, dependendo da personagem com que estamos, e ainda um botão de evasão. Existem combos, que vão sendo desbloqueados com pontos de habilidades na Skill Tree, também contra ataques e elementos de defesa da mesma maneira, assim como os ataques especiais.

Os ataques diferem nas personagens que controlamos, se formos o Hulk, o ataque leve e forte serão arrasadores, mas lentos, temos ainda um duplo salto, e pegamos em rochas para atirar aos adversários, e temos ainda um barra, chamada de Rage, onde depois de a enchermos com ataques físicos podemos a despoletar através do trigger direito para atacar com mais dano e receber menos dano ao mesmo tempo. Se for o Iron-Man, os ataques fortes são disparos de repulsores, podemos voar clicando o analógico esquerdo, e ao enchermos a tal barra temos direito a disparar mais tiros de repulsor, depois desbloqueamos o laser e os rockets também com a mesma função. Cada uma das personagens tem ataques especiais, ainda neste campo, a Ms. Marvel poderá “agigantar-se”, a Black Widow pode disparar as suas armas ou desaparecer, o Thor lançar o seu Moljnir ou raios nos adversários e o Captain America lançar o seu escudo, por exemplo.

Marvel’s Avengers dá assim ação para todos os gostos e possibilidade de escolhermos a melhor personagem para o nosso estilo de jogo, mas também para o objetivo proposto, e isso vai ser mais importante na componente online, do que propriamente na História, onde por vezes somos obrigados a ir com determinada personagem em determinado nível. Aliás a proposta da Crystal Dynamics é precisamente dominarmos a jogabilidade no modo história para depois darmos continuidade pela componente online a que se propõe. Mas desenganem-se se acham que depois de terminada a campanha esse capítulo se fecha, nada disso, vamos ter um conjunto bastante vasto de missões para completar e para ganhar pontos de habilidade e Gear para as nossas personagens, com missões para todos os gostos e com fações para ajudarmos e desbloquearmos novo Gear.

Como já perceberam, Marvel’s Avengers é um jogo em que o Grind é um dos pontos fortes, com uma incidência forte na repetição das missões para ganharmos Gear mais poderoso ou recursos para fazermos upgrade ao Gear que já temos. Tal como o Destiny e outros jogos do género, vamos ter o equipamento dividido por categorias, sendo que o Lendário será o de nível mais elevado, existindo ainda o exótico que poderemos conquistar em circunstâncias especiais.

Quanto melhor for o Gear, mais o poderemos upgradar, até um nível de 10 valores acima do seu estado original, sendo que vamos precisar de vários tipos de materiais que podemos apanhar pelas missões ou comprar nos vendedores das nossas bases. O level cap é de 150 de poder e 50 de skill, e posso-vos dizer que depois de terminarem o modo História vão andar apenas pelo nível 30, portanto estão a perceber o quanto vão ter que suar para lá chegar, certo?! Já para não falar do Battle Pass, uma espécie de nível de evolução que vai desbloqueando gratuitamente novos items, conforme vamos jogando, e que diga-se de passagem demora uma eternidade.

As missões na sua generalidade assentam sempre no mesmo formato. Temos um objetivo principal dividido por fases e zonas, e temos missões secundárias, que podem passar por derrotar um inimigo específico, pequenos puzzles para abrir cofres especiais e outros cofres de recursos que estão espalhados pelo mapa.

O objetivo central, esse pode variar na sua forma, pode ser defender zonas especificas, destruir objetos específicos, ou até inimigos específicos, isto com muitas ondas de inimigos a spawnar por todo o lado. Aliás a IA do jogo funciona muito nesse sentido, onde a ideia dos nossos adversários é rodearem-nos e atacar em massa, não tendo nós forma de respirar e contra-atacar. Muitos vezes parece mais um smasher, tal é a quantidade de adversários e a nossa tentativa de nos salvarmos da situação.

Para as missões podemos sempre jogar em Co-Op até mais 3 amigos, ou escolhermos personagens para nos acompanhar se estivermos mais solitários. A IA não é propriamente refinada e tem alguns bugs chatos, mas no seu essencial não está mal e tenta sempre dar aquele revive quando somos derrotados.

Apesar de podermos fazer muitas das missões no modo campanha com outros amigos, o mais divertido e recompensador acaba por ser as missões que fazem parte da Iniciativa Vingadores, nomeadamente as chamadas Zonas de Guerra.

Depois de terminada a história Marvel’s Avengers lança-se nesta tentativa de agarrar os jogadores a estas missões e ao Grind, e em traços gerais consegue-o fazer, apenas falha na componente estética, isto é, todas as partes das armaduras que vamos coletando não têm representação no jogo, o que para muitos será no mínimo frustrante. Não conseguimos assim interagir para mudar para aquele pedaço de armadura que ganhámos e ver o efeito na nossa personagem, apenas os efeitos que elas trazem à jogabilidade por assim dizer, em comparação com outros jogos, como por exemplo, Destiny, não podemos customizar a nossa personagem com um look original pelas peças coletadas, só podemos através de micro-transações ou por ganhar outfits no jogo, ou comprar nos vendedores.

Mesmo assim, e não havendo também uma espécie de hub para comunicar com outros jogadores, o jogo não deixa de ter uma componente social, não só por poder jogar com os vossos amigos, mas também pelo matchmaking que podem activar ou desactivar quando quiserem para enfrentares os maiores inimigos do universo Marvel com novos amigos online. O problema que vai enfrentar nos próximos tempos, é mesmo, como dar conteúdo apetecível para que se repita vezes sem conta o jogo, visto que, evoca esse grind, torna-se mais difícil satisfazer todos os jogadores, mas com os planos que parecem existir para a inclusão de novas personagens e novos arcos de história, a solução pode passar por aí, deveria até mesmo passar obrigatoriamente por aí, até porque o universo Marvel é muito extenso e tem capacidade para tal, veja-se, por exemplo, o caso de Marvel Ultimate Alliance 3.

Resta-nos falar da questão gráfica, jogando em 4K e com HDR o jogo tem qualidade gráfica superior, especialmente mais notória durante o modo história, não só pelas cut scenes, mas também pelos momentos que antecedem a ação e por “níveis” específicos que passamos em planos mais aproximados. O detalhe é espantoso em várias secções do jogo, mas também sentimos algumas texturas por limar em áreas maiores ou com mais factores de iluminação, para além dos bugs e glitches que o jogo teima ainda a ter, mas que ainda dão umas boas risadas. A fluidez essa foi melhorada significativamente desde as betas que jogámos, com uma menor quebra de frame rate, com maior detalhe e melhor execução, e com as animações de todas as personagens a serem um dos pontos altos do jogo e que nos agarra para jogar sempre mais uma horinha.

Marvel’s Avengers é, de facto, o melhor jogo que já foi feito do universo Marvel, neste componente mais realista, se quiserem, aproximando-se muito mais de um filme de cinema do que os comics, mas nunca deixando os fãs dos livros aos quadradinhos de lado. Seja pelos colecionáveis a recordar as grandes capas dos nossos heróis favoritos, quer seja pelo pequenos easter eggs que vamos encontrando. Foi um jogo que prometeu muito, que cumpriu em quase tudo e que, neste caso, os adiamentos acabaram por funcionar em seu favor, e agora vou só jogar mais uma horinha, tá bem?!

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