Developer: Eidos-Montréal / Square Enix
Plataforma: Xbox One, Xbox Series S|X, PS4, PS5, Nintendo Switch e PC
Data de Lançamento: 28 de outubro de 2021

Qualquer lançamento de qualquer coisa que envolva a MARVEL, para mim é logo dia de festa. Quer seja uma série, um filme, uns novos desenhos animados, ou um videojogo. No entanto, essa euforia em relação aos videojogos já teve altos e baixos, especialmente no período do arranque do século XXI, onde os videojogos a tentarem recriar os filmes foram muito mauzinhos e ficaram sempre aquém das expectativas. De tal forma que se olharmos com alguma atenção para o mercado, vamos ver que na passada geração de consolas, por exemplo, a melhor iteração MARVEL, foi precisamente nessa simbiose com a LEGO.

Já entre gerações, da antiga para a nova, tivemos Marvel’s Avengers, e diríamos que teve de tudo, menos ser consensual. Deixem-me focar e contextualizar esse jogo, porque acho que será fundamental nesta análise. O jogo da Crystal Dynamics teve vários acidentes de percurso, começando com as recriações faciais dos heróis, depois melhorado antes do seu lançamento, mas o maior dos problemas foi mesmo a tentativa de o tornar um serviço, que precisava ser alimentado constantemente e criar o vício aos jogadores de lá voltar vezes sem conta. Como sabemos, por mais aliciante que isso possa ser para as mentes corporativas, se o jogo é apenas uma repetição constante da sua base, mais tarde ou mais cedo, os jogadores vão acabar por largá-lo, e foi isso que aconteceu, em vários momentos, sendo que agora os jogos só voltam quando há expansões que tragam alguma novidade substancial. Para mim, o erro de Marvel’s Avengers, foi não se limitar à sua componente de campanha, em forma de single player ou de forma cooperativa, com eventos online optativos e sem a necessidade de “levelar” as personagens através da repetição constante.

Por isso, a expectativa de Marvel’s Guardians of The Galaxy, recaía muito no sistema que a Eidos-Montréal iria implementar no jogo, para além do formato do jogo em si.

Pois bem, a escolha foi na direção de um Role Playing Game, focado na narrativa, nos puzzles de ambiente, de plataformas e de combate ao género Hack N’ Slash com elementos de combate por turnos em tempo real.

E logo aqui temos uma carrada de diferenças entre o jogo da Crystal Dynamics e o da Eidos-Montréal. Aqui controlamos apenas uma personagem, Peter Quill, conhecido como Star-Lord. É com ele que nos vamos movimentar, investigar, conversar com outros Non Playable Characters (NPC’s) e desbloquear habilidades e perks para os seus utensílios. Ao longo do caminho, podemos desbloquear habilidades, ataques específicos, se preferirem, para os restantes elementos dos Guardiões da Galáxia, mas o foco, esse está centrado na história de Peter Quill, de como se tornou Star-Lord, e da relação de fraternidade com os seus restantes companheiros.

Já explico mais em pormenor a jogabilidade, mas para apenas terem uma noção, aqui, e apesar de nos combates a Inteligência Artificial comandar os restantes Guardiões, nós, enquanto jogadores e Peter Quill, também vamos dirigir os ataques dos nossos colegas conforme a nossa vontade e a disponibilidade dos mesmos para os executar, para além de combinações e especiais. Desta feita, não acontece como o Avengers, onde muitas vezes o resto da equipa que nos acompanhava, se fossem NPC’s às vezes andavam perdidos pelo mapa ou só serviam para nos reviver, e era se não tivessem uma paragem cerebral.

O core deste jogo é a sua narrativa, os combates estão lá, mas é a imersão na história que estamos a jogar, a visão de Peter Quill, a sua identidade, a sua personalidade, que está a ser moldada e da qual vamos fazer parte de várias maneiras, mas especialmente, por termos o poder de escolha das respostas que devemos dar nos diálogos e pelas decisões que vamos acarretar ao longo do jogo. É isto que torna Marvel’s Guardians of The Galaxy, uma experiência maior, diferenciada e melhor do Marvel’s Avengers.

Com isto definido, passemos então a contextualizar a história desta aventura dos Guardiões da Galáxia. O jogo começa com um jovem adolescente Peter Quill na sua casa, no dia do seu aniversário. É aqui e na visão de primeira pessoa que começamos a mergulhar na mente deste jovem que tem uma enorme panca por música. Para mim, uma melómano de música, a identificação com Peter Quill é imensa, também eu não vivo sem sem ela, e a música define-me em tudo na vida. Tudo para mim tem uma música, todos os sentimentos têm um retrato auditivo e por isso, uma narrativa conduzida por temas icónicos da história da música, e em especial o rock, é algo que me preenche de uma forma difícil de explicar. Peter Quill está no seu quarto, como tantas vezes eu o fiz, na sua cama, a ouvir música e a viajar na maionese. No seu walkman tem uma K7 da banda Star-Lord, a mesma que lhe virá a dar o seu alter ego, e uma banda que, para o jogo, foi criada por Steve Szczepkowski, Senior Audio Director, que canta neste álbum criado e apelidado de Space Rider. É neste quarto que vemos todas as referências musicais de Peter, mas também o universo sci-fi que habita na sua mente e na criação do jogo em si. Nesse flashback conhecemos também a mãe de Peter que será uma peça central na descoberta de como Peter se tornou o reflexo do seu pai. Estes flashbacks são recorrentes ao longo do jogo, referentes ao mesmo dia, o dia em que tudo mudou para Peter Quill.

No entanto, Drax acorda-nos desse sonho, desse flashback que estávamos a ter, para nos trazer para o presente e para a nossa busca por um monstro desconhecido numa zona proibida, naquilo que seria a oportunidade perfeita para fazer uns bons trocos ao vender a criatura à famigerada Lady Hellbender. Mas, e como é costume, nada é o que parece, e nada corre como planeado e por isso, vemo-nos metidos numa embrulhada tremenda envolvendo a Nova Corp e uma espécie de culto apelidada de A Igreja da Verdade.

Marvel’s Guardians of the Galaxy dá-nos uma narrativa relativamente linear, um pouco à semelhança de jogos como Uncharted ou Last of Us, onde temos que percorrer determinados caminhos, cruzando com áreas mais abertas, mas também obrigando-nos a fazer determinadas escolhas que vão influenciar o decorrer dos eventos. A visão a que vamos tendo acesso vai andar entre a primeira pessoa em alguns momentos de flashback ou comandar a nossa nave, a Milano, e a visão na terceira pessoa, que será a mais recorrente, tanto no percorrer dos espaços, com mais plataformas ou menos, e na visão de combate.

Para vos explicar melhor a dinâmica, deixem-me dar alguns exemplos. Dentro da Milano, vamos poder percorrer os quartos dos nossos amigos e interagir com alguns objetos, ao mesmo tempo que quando colocamos coordenadas para visitar um novo local e assumimos o controlo da nave, passamos para a visão na primeira pessoa. Também quando entramos em diálogos com as personagens, a câmara passa para um plano mais afastado para conseguirmos ver as reações delas. A visão na primeira pessoa também acontece em outros momentos, nomeadamente quando observamos objetos específicos, nomeadamente pequenos pods de memórias, ou quando visitamos um museu de um colecionador muito especial em Knowhere. De resto, tanto nas ações de plataformas e puzzles de ambiente vamos ter sempre uma visão na terceira pessoa, assim como no combate.

A grande diferença deste jogo para outros, até do género, tem a ver com o sistema de interatividade com a história em si. Provavelmente muito inspirado na série da Telltale Games, que também tem um jogo dedicado aos Guardiões da Galáxia, onde podemos optar por linhas diálogo, ou por dar ordens aos nossos companheiros, influenciando o desenrolar do jogo. Num determinado momento, por exemplo, vamos ter que decidir se Drax atira Rocket para o outro lado de um penhasco para ativar um mecanismo para fazer uma ponte para os outros, ou se não deixamos Drax atirar Rocket e temos que passar por um pequeno puzzle de plataformas para chegar ao outro lado.

Se escolherem a primeira opção, Rocket não vai ficar nada contente e vai demonstrar isso mesmo, em outros pontos do jogo. Outro exemplo, mais à frente, acontece quando tentamos ludibriar Lady Hellbender a vender um monstro, escolhendo o Groot ou o Rocket para o fazermos. Se escolhermos Rocket, devido ao seu temperamento, as coisas podem descambar rapidamente, se escolhermos o Groot, o plano vai dar certo, até determinado momento, evitando algumas lutas desnecessárias. E estes são apenas alguns exemplos mais notórios desta mecânica e iniciais do jogo, para também não spoilar a experiência, mas posso garantir que cada linha de discurso que escolherem, mesmo aquelas de conversas banais que vão surgindo ao longo das caminhadas e das descobertas que vão sendo feitas, são fulcrais para criar o ambiente entre os amigos e criar os laços de fraternidade dos nossos Guardiões da Galáxia. Este é um aspeto diferenciador do jogo e muito importante, porque nos dá a sensação que somos nós que estamos efetivamente a criar essa relação.

No entanto, não é o único, pois a Eidos-Montréal conseguiu encaixar ainda, níveis onde pilotamos a Milano, sim, é verdade, e se no princípio é uma sequência de fuga, onde temos que nos esquivar dos destroços para sair de um planeta sãos e salvos, mais à frente vamos ter uma sequência de dogfight com outras naves que temos que destruir e até temos direito a uma espécie de Boss fight contra a nave do líder da Legião Letal. É esta diversidade, muito bem equilibrada, que o jogo consegue fazer e que nos consegue surpreender a cada passo até ao grande final.

Porém, falemos também de outra parte, que para além da narrativa, é parte fulcral do jogo, e estamos a falar da jogabilidade na componente de combate. Como disse anteriormente, vamos comandar Star-Lod em combate e com esta personagem temos a possibilidade de executar ataques de corpo a corpo através de um botão, sendo que não são propriamente os mais eficazes, mas para equilibrar as coisas, temos acesso às pistolas laser, deixadas pelo pai de Peter Quill, para a nossa personagem usar. Estas pistolas têm várias habilidades associadas, desde logo os tiros tradicionais, com as armas a sobreaquecer e portanto, temos que ter atenção ao ponto de arrefecimento para  recarregá-las mais rapidamente para não perdermos a cadência de tiro, mas também temos acesso a elementos que podemos usar, como por exemplo, o gelo ou a eletricidade. Estes elementos provocam efeitos nos inimigos, especialmente de paralisação.

Star-Lord, ao longo do jogo também vai ganhando habilidades especiais, que podemos desbloquear através dos pontos de habilidade que vamos recebendo perante as vitórias que vamos alcançando e com o desenrolar dos capítulos. Para aceder a essas habilidades que têm um cooldown associado, basta carregar no LS e mais uma das teclas de ações para ativar, como aliás acontece com a utilização das outras personagens, visto que o sistema é o mesmo, isto é, carregando, neste caso, no LB ativamos o menu de seleção da personagem cujo ataque queremos utilizar, selecionamos com o X e depois com uma das teclas de ações escolhemos o ataque que queremos que esse elemento faça.

Rocket com as suas armas e granadas pode atacar vários inimigos ao mesmo tempo, enquanto que Groot pode imobilizar vários adversários ao mesmo tempo, e é aquele que pode ressuscitar qualquer elemento do grupo. Drax é um cabeça quente e por isso, vai sempre atacar primeiro e perguntar depois, e neste caso vai causar efeitos de sangramento ou de desequilíbrio nos adversários, e por fim, Gamora, que executa ataques certeiros retirando grandes porções de vida aos inimigos.

Aqui também podemos ir aumentando os tipos de ataque de cada um deles, também com pontos de habilidade, aumentando o leque de possibilidades de ataques, e também de combos. Os combos podem acontecer de duas formas, basicamente ou por provocarmos um efeito num inimigo e através disso, ao premirmos dois botões, o Y+B ativamos um combo com todos os Guardiões, ou então, em casos específicos, como os Bosses, quando usamos o ponto fraco do inimigo, temos a possibilidade de provocar uma ação premindo a tecla Y.

Dito assim pode parecer complexo e confuso de executar, mas posso assegurar que se torna super natural a sua utilização, e que dá uma adrenalina enorme encadear ataques atrás de ataques com a nossa equipa. Aliás o próprio jogo assim o indica, com os combos a serem classificados, ao bom estilo de um Devil May Cry, sendo que quanto mais encadearmos, mais pontos fazemos para subir de nível e ganharmos pontos de habilidade. Por fim, temos uma barra para ativar um super especial, onde Star-Lord puxa do seu Walkman, reúne a pandilha, e aí, temos que ter o discurso motivador certo, para juntos varrer os adversários. Este momento é o tal em que surge uma música específica para a ação, do rol de grandes clássicos que fazem parte da banda sonora do jogo, onde os Guardiões da Galáxia recebem um boost de força e armadura, para além do cooldown das suas habilidades serem muito menores e portanto, podemos utilizá-las mais vezes. É literalmente um autêntico festival.

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Os movimentos de todos os Guardiões estão super fluídos, com a possibilidade de criarem inúmeras combinações de ataque e de dar sempre aquele sentimento de “um por todos e todos por um”, que é tantas vezes invocado no jogo. Conseguimos ver os movimentos clássicos das personagens, retirando a inspiração nos filmes e nas bandas desenhadas, com os icónicos slides no chão de Star-Lord a não poderem faltar e os seus movimentos dançantes quando executamos um Dash no tempo certo. É efetivamente divertido de se jogar e de se ver.

Obviamente que já falámos várias vezes nesta análise da música e da sua influência na vida de Peter Quill, mas não posso deixar de destacar mais uma vez a sua incorporação em cada momento do jogo. Seja dentro da Milano, onde podemos escolher as músicas que queremos ouvir, seja nas cut-scenes do jogo, seja em alguns momentos de puzzle de ambiente, que parece que nos estão a dar a resposta, ou na ativação do tal super especial que podemos usar. Este jogo é uma verdadeira ópera rock, uma ode à música dos anos 80 e 90, e uma profunda caracterização de uma geração inteira que é fã de música no geral, e do rock em particular. Clássicos de  Iron MaidenKISSNew Kids On The BlockRick AstleyHot Chocolate entre outros, figuram numa primeira linha, com uma banda criada e gravada para o efeito, como já referi em cima, e ainda a composição instrumental, gravada nos míticos Abbey Road Studios e orquestrada pelo nomeado a um BAFTA, Richard Jacques, trazendo aquela componente épica e cinemática do universo da Marvel que parece que cola tudo.

Graficamente, e utilizando a Xbox Series X como referência, rodámos o jogo em Modo Qualidade, portanto a rodar a 4K com o frame rate nos 30FPS, sendo que em alguns momentos sentimos um frame drop. Eu diria que é o modo em que têm que jogar, isto porque a beleza do jogo é de tal forma evidente com as texturas a 4K que a questão do frame rate não se torna uma questão, mas atenção, digo isto sabendo perfeitamente que em termos de jogabilidade o Modo Desempenho, portanto a rodar 1080p a 60FPS é muito mais fiável, mas vamos ser honestos, é 1/4 da resolução. No entanto, e apesar das diferenças, a riqueza visual do jogo é bastante acima da média. E isso acontece pelo grau de detalhe que encontramos no jogo, a Quarantine Zone cheia de cor e contrastes e de efeitos de iluminação deixa-nos logo de boca aberta, com os efeitos da chuva e do vento no segundo planeta a darem conta da dinâmica climatérica do jogo e de como interfere nos visuais. Em Knowhere os efeitos de iluminação dos néons e de uma cidade cheia de vida e cor dão-nos mais um exemplo da capacidade gráfica deste jogo, já para não falar da quantidade de detalhe do cockpit da Milano que vai deixar os fãs da MARVEL a regozijarem-se de contentes. O jogo é incrivelmente belo e terá muitos momentos de “uau!”, apenas quebrados por alguns bugs e glitches que o jogo ainda tem, sendo que durante todo o jogo apenas tive um, em que não conseguia passar de uma determinada zona do jogo, porque não conseguia interagir com o objeto devido.

Marvel’s Guardians of The Galaxy é para mim o melhor jogo da MARVEL que já tive oportunidade de jogar até hoje. A caracterização dos nossos Guardiões, apesar de diferente dos filmes ou até da banda desenhada, está muito bem conseguida, a recriar a essência de cada uma das personagens em si, com um ótima captura de movimentos e de voice acting. Consegue combinar uma série de elementos de jogabilidade num só de uma forma equilibrada e sensata, surpreendendo e desafiando a cada hora que passa, num misto de estarmos a ver uma série da MARVEL, com o acompanharmos uma ópera rock. É divertido, a narrativa é muito boa, os diálogos estão repletos de humor e o jogo no seu todo acaba por ser a melhor recriação da personalidade dos Guardiões da Galáxia.