Developer: BioWare
Plataforma: PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series e PC
Data de Lançamento: 14 de Maio de 2021

Corria o ano de 2007 quando se deu início a uma das melhores e mais populares trilogias dos videojogos. A saga de Mass Effect não foi apenas um conjunto de excelentes jogos, mas um marco na indústria e no panorama da narrativa.

Nunca um jogo havia sido tão imersivo na forma como o jogador consegue ter influência e impacto na história. Mass Effect trazia exactamente tudo aquilo o que sempre sonhámos um dia encontrar num RPG. Além de sermos donos do nosso próprio destino, cada decisão e cada linha de diálogo ajudavam a projectar a nossa personalidade no protagonista.

A BioWare é mestre nesse departamento, e na maneira como sabe encastrar o jogador numa história – não fossem eles os criadores da franquia Dragon Age. No entanto, a jornada de Shepard certamente ficará para a história dos videojogos como uma das mais memoráveis, sobretudo para quem se interessa por ficção científica.

Catorze anos depois: a devida homenagem. Uma remasterização da trilogia completa com a promessa de que seria desenvolvida com o respeito e apreço que cada um dos jogos merecia. A tarefa não era fácil, principalmente tendo em conta o peso da responsabilidade que envolve tocar numa série de culto.

O verdadeiro desafio era entregar uma experiência que valesse a pena não só para quem decidisse revisitar esta magnífica história, mas também para quem fosse jogar pela primeira vez. E há que dizê-lo, em ambos os casos, compensa começar pelo princípio e viver tudo até ao fim.

O primeiro jogo era aquele que exigia uma maior transformação. Sim, o salto gráfico seria sempre inevitável, contudo, mais importante ainda, era recriar vários aspectos da jogabilidade que estavam visivelmente envelhecidos. E é mesmo onde a diferença é mais significativa, parecendo, por vezes, mais um remake do que um remaster.

É uma das melhores histórias de ficção científica já criadas, e um jogo que marcou uma época, tornando-se numa das grandes referências dos videojogos. A riqueza dos diálogos, a construção do enredo, e a imprevisibilidade das consequências das nossas acções só têm igual em títulos que apenas foram lançados anos depois.

Mass Effect estava à frente do seu tempo, e muito por causa da sua história. O nome Shepard é sobejamente conhecido dos videojogos, e uma personagem que ficou imortalizada como uma das mais importantes dos RPG’s. Seja como John ou Jane, ambos são caracterizados pelas personalidades carismáticas que dão rosto a uma história que é uma verdadeira epopeia espacial.

Depois de sermos enviados até Eden Prime para investigar uma tecnologia da extinta e misteriosa civilização Protheon, um terrível destino acaba por nos ser revelado por acidente. Essa estranha visão indica o que nos espera num futuro próximo, porém, é determinante para nos dar tempo de agir e tentar evitar um novo ciclo de destruição.

Não só uma enorme conspiração está em curso, como o próprio futuro da galáxia e de todas as suas espécies está em risco. A figura central desta trama chama-se Saren, um agente Spectre que age nas sombras em conluio com os geths, uma espécie de natureza sintética que lhe obedece por motivos até ali desconhecidos.

O seu objectivo? Trazer de volta os Reapers, que estiveram na origem da extinção dos Protheons. Tal como Saren, também a Shepard acaba por ser atribuído o honroso título de Spectre, de modo a poder fazer frente ao seu formidável rival. Só assim terá as condições necessárias para levar adiante o propósito da sua vida, dado que os Spectres são agentes de uma autoridade quase absoluta e encarregues de resolver os problemas mais intrincados da galáxia.

A partir daí começa uma sensacional aventura por toda a Via Láctea ao comando da saudosa Normandy. Pelo caminho conheceremos diversos planetas, colónias humanas, novas espécies e as respectivas culturas, assim como as suas histórias, que vão ficando cada vez mais interessantes.

Tanto as missões principais, como as secundárias, acrescentam sempre algo de valioso à história. E na verdade, as side missions não existem apenas para fazer número, porque podem ser mesmo determinantes para a evolução e o fadário de certas personagens. Mais de 40 DLC’s estão incluídos, e esta Legendary Edition foi construída de forma tão orgânica, que para quem está a jogar pela primeira vez, talvez nem perceba que está a jogar missões dos DLC’s.

Os diálogos estão simplesmente brilhantes, tanto no conteúdo, como na possibilidade de escolha das respostas. A maneira como respondemos irá definir um pouco da nossa personalidade, assim como influenciar o sistema de moralidade, entre uma abordagem Paragon – o caminho da virtude –, e Renegade – o pragmatismo de colocar a missão acima de tudo e todos.

Preparem-se, porque vão ter de fazer escolhas muito difíceis. É um jogo que promove dilemas, e que se reflectem essencialmente nos diálogos. Algumas escolhas de diálogos que são fundamentais para salvar certas personagens, apenas estarão disponíveis mediante certos requisitos. Dependem de eventos passados (como missões), ou da nossa capacidade de persuasão que ganha força conforme os pontos gastos no charm e no intimidate. É, portanto, uma boa ideia investirem aí alguns pontos, pelo menos num desses campos.

Este é um dos aspectos em que Mass Effect mais sobressai, e onde este remaster menos precisou de tocar, uma vez que ficou praticamente perfeito desde o original. É uma sensação fantástica podermos colocar um pouco de nós em cada linha de diálogo e estabelecer como devem ser os padrões do primeiro Spectre humano.

Ao longo da trilogia temos a oportunidade de conhecer personagens verdadeiramente inesquecíveis. Não só dos nossos companheiros de missão, mas fundamentalmente esses. Personagens como Garrus, Liara, Wrex, Tali, Jack, e muitos mais, tornam toda a experiência de percorrer estes três jogos como algo de único e difícil de igualar.

E se pensarmos em como as nossas decisões poderão afectar os seus destinos, para o bem e para o mal, facilmente percebemos o nível de ligação que ganhamos com cada um deles. Há um desejo quase insaciável de saber cada vez mais das suas histórias, o que nos leva depois a querer protegê-los a qualquer custo, mesmo quando isso pode colocar em causa os nossos valores.

Como é suposto ser jogado como uma trilogia, significa que as nossas decisões num jogo terão seguimento quando migrarmos a nossa personagem para o próximo. Sim, a não ser que criemos um novo save, não há como voltar atrás, tornando alguns acontecimentos realmente dramáticos.

No momento de criação da nossa personagem temos a opção de escolher uma pequena background story para efeitos de roleplay. Ajuda a criar um contexto emocional, mas, do mesmo modo, interfere nos diálogos e nas reacções do protagonista em circunstâncias de conflito. É nessa altura que iremos decidir se queremos alterar o aspecto físico do protagonista, o seu género, e mais importante ainda, a classe.

Paga-nos o café hoje!Esta é uma decisão crucial, já que não poderá ser modificada mais tarde, a não ser quando passamos para o jogo seguinte (outra das novidades da Legendary Edition). Existem seis classes: Soldier, Adept, Engineer, Vanguard, Sentinel e Infiltrator; cujas habilidades se dividem em três departamentos: Armas, Biotic e Tech.

Soldier:

Não tem habilidades bióticas nem de Tech, mas pode especializar-se em qualquer tipo de arma e é ideal para quem pretende uma jogabilidade de um puro shooter na terceira pessoa. Possui skills maioritariamente ofensivas, mas é a única classe que consegue usar a heavy armor.

Adept:

Não tem habilidades Tech, mas domina as habilidades bióticas, sendo o mestre do crowd control. Não há limites para o número de soluções que oferece quando a situação está apertada, e uma das classes mais divertidas de usar.

Engineer:

Especialista, quando o assunto é o conhecimento Tech. Não tem habilidades bióticas, mas é perito em enfraquecer as defesas inimigas, e igualmente útil para abrir contentores, portas, e tudo o que necessite de um bypass. Tal como o Adept, depende muito mais das habilidades do que das armas.

Vanguard:

Reúne o melhor do Soldier e do Adept, usando os biotic powers para lhe dar uma vantagem enquanto usa a sua shotgun (nos jogos seguintes ganha bónus também para as SMG’s e pistolas). É a classe para quem gosta de uma abordagem mais agressiva e de pouca distância para os inimigos.

Sentinel:

Combina as habilidades Tech e bióticas, como um híbrido entre o Adept e o Engineer. É capaz de instalar o caos num estalar de dedos, e deixar os inimigos completamente desorientados. As armas não são exactamente a sua especialidade, mas compensa com as inúmeras skills que tem ao seu dispor.

Infiltrator:

É o sniper de serviço. Capaz de se especializar com as pistols e com a sniper, à semelhança do Soldier, mas com as ferramentas úteis de um Engineer. Prefere comandar as operações à distância e eliminar quem ousa expor-se o mínimo que seja. E a partir de Mass Effect 2 recebe uma das suas melhores habilidades, a Tactical Cloak, que lhe permite ficar invisível.

Foi uma extraordinária evolução aquilo que constatámos no combate de Mass Effect; menos limitado pelos stats, e mais focado agora na própria capacidade e destreza do jogador. O combate oferece de tudo um pouco, estando mais próximo de um cover shooter, no entanto, com características muito singulares. Tem acção, tem planeamento, estratégia, e muita emoção.

O sistema de comando dos companheiros faz com que seja dos melhores shooters na terceira pessoa de sempre, já que é frenético e tático simultaneamente. Assim como nós, os nossos companheiros estão igualmente divididos pelos mesmos tipos de skills. E escolher os parceiros certos que nos acompanharão nas missões, tal como conciliar as capacidades e habilidades de toda a unidade, é vital para o sucesso, sobretudo em dificuldades mais altas.

Temos as opções de indicar para onde os nossos companheiros se devem deslocar e quem devem atacar. Todavia, mais importante ainda, é podermos decidir que skills devem usar em determinado momento, assim como as armas, num sistema de pausa, dando-nos tempo para escolher o melhor plano. As habilidades que irão evoluir – além do equipamento e das armas que farão parte das suas builds – também serão geridas por nós, para que possamos construir as dinâmicas mais adequadas à equipa.

Tal como na jogabilidade, o sistema de progressão está mais homogéneo quando olhamos para os três jogos. E muito graças ao level scaling introduzido nesta Legendary Edition, de maneira a facilitar a transição entre o primeiro, o segundo e o terceiro jogo. Ainda existem diferenças, mas está tudo muito mais familiar. Em especial no Mass Effect, que está agora mais fácil de entender e com uma UI significativamente mais simples em comparação ao original.

São jogos incríveis para quem gosta de brincar com as builds. O equipamento, e em especial as armas, dão largas a diversas combinações de upgrades, que em conjunto com as nossas habilidades e a dos nossos colegas, criam circunstâncias de combate realmente únicas.

Houve uma melhoria da inteligência artificial, em particular a dos inimigos, embora se note que, no caso do primeiro jogo, já se passaram alguns anos. Contudo, nada que estrague a experiência e retire o entusiasmo às espetaculares batalhas que teremos pela frente.

A condução do MAKO (o veículo blindado que serve de meio de transporte quando aterramos nos planetas) foi revista e está mais fácil de controlar. Ainda assim, esperem alguma irritação quando forem obrigados a contornar obstáculos; tolera-se, mas continua a não ser um dos seus pontos mais agradáveis.

Graficamente, o resultado é absolutamente espantoso, especialmente agora que tem suporte para 4K Ultra-HD, e com modos de qualidade e performance. Nunca houve melhor altura para abraçar esta jornada, sendo que nas consolas da nova geração conseguimos resoluções de 4K e com 60fps no modo de qualidade.

As cutscenes foram pre-renderizadas, tornando as cinemáticas consideravelmente mais fluídas. Todas as novas texturas, sombras, reflexos e efeitos de luz, fazem de Mass Effect Legendary Edition uma locomoção visual de tirar o fôlego. Torna-se quase obrigatório visitar cada planeta só para contemplarmos as paisagens e imaginar como será participar numa aventura desta dimensão.

O mesmo acontece com todos os objectos e modelos das personagens que obtiveram uma substancial melhoria na qualidade visual. São impressionantes os detalhes nos rostos de algumas espécies, e diria até que, nesse domínio, dá lições a Mass Effect: Andromeda, o último título da série.

A banda sonora é outra das razões pelas quais esta trilogia é um dos maiores clássicos dos videojogos. A composição da música e dos efeitos sonoros têm a capacidade de tornar toda esta caminhada ainda mais épica. E quando pensamos na quantidade de trabalho por trás do voice acting, chega a ser absurdo calcular quantas horas foram despendidas para que tudo ficasse tão credível. Tanto Mark Meer (como John Shepard), ou Jennifer Hale (como Jane), têm prestações incríveis, e os seus contributos nunca serão esquecidos.

Mass Effect Legendary Edition é, porventura, o melhor remaster que já foi concebido. Quando olhamos para tudo o que foi alterado e melhorado, só podemos ficar gratos a quem se entregou com tanta dedicação a este projecto.  Uma obra prima da ficção científica que encontrou agora a melhor forma de ser experienciada no seu todo.